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A crónica do Sporting-Boavista não é sobre um jogo com 90 minutos mais descontos. E também não é sobre as 48 horas mais descontos de uma equipa equivalentes aos 32 jogos realizados ao longo da época. Não, esta crónica é sobre os quase 6.950 dias em que um clube de Lisboa com nome de Portugal e aspiração fundadora de ser tão grande como os maiores da Europa prolongou aquele que se tornaria o maior jejum da sua história sem vitórias no Campeonato. Num contexto improvável, na temporada errada e com um plantel limitado, voltou a ganhar.

Esta é a história de um clube que ganhou uma estranha veia autofágica com o tempo que mais parecia sabotar de forma inconsciente qualquer semente que pudesse fazer brotar um projeto vencedor e que preferia muitas vezes avançar em políticas de terra queimada que viriam a propiciar à ausência de sucessos desportivos.

Esta é a história de um clube que anos a fio se tentou revoltar contra a multiplicação de adversários externos que chegavam de todos os lados, de todas as formas e de todos os feitios para impedir aquilo que em muitos casos mais não eram do que uma mera sombra de um quotidiano de tiros nos pés sem que os mesmos se vissem.

Esta é a história de um clube que foi perdendo identidade sem perceber o seu ADN, que se foi confundindo sem perceber o seu caminho, que se foi enganando por não perceber o seu passado, que foi olhando para o melhor que tinha e sempre teve sem perceber que o pior estava mesmo ali ao lado, que foi somando insucessos sem perceber que o caminho para o sucesso não passava por dissecar os males mas sim potenciar os bens.

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Esta é a história de um clube que tinha tudo quando achava que não tinha nada, que formava como ninguém achando que esse era um mérito de todos, que mantinha uma legião de apoiantes quando muitos nas mesmas condições nem um pequeno batalhão conseguiriam arregimentar, que construíra uma vida que se podia não dar à morte, que ganhara sem saber uma nova geração que só tinha visto o clube a perder (no Campeonato).

Num contexto improvável, na temporada errada e com um plantel limitado, tudo mudou. E mudou de forma radical, assente numa frase proferida por Rúben Amorim a propósito da confusão que se tinha registado no final do empate dos leões em Famalicão. Aí, o Sporting não era propriamente a mesma equipa que tinha partido com apenas 3% de possibilidades de ganhar o título (menos do que o Sp. Braga e anos luz de Benfica e FC Porto) mas tinha apenas dois pontos de vantagem em relação aos encarnados e três dos azuis e brancos. Mais do que isso, tinha finalmente encontrado o equilíbrio interno, a todos os níveis, para perceber com os olhos, os ouvidos e os sentimentos certos do que significava aquela frase solta e aparentemente inócua “Onde vai um, vão todos”. Uma frase que virou uma imagem de marca. Um estado de espírito. Uma música ouvida todas as semanas.

Allez Allez Sporting allez
de três em três a somar
Onde vai um vão todos
E a estrelinha a acompanhar
Façam-nos acreditar
Que no fim vamos vencer
Onde vai um vão todos
Vamos sem nada a temer!

Desengane-se quem pense que a partir deste momento tudo serão rosas para este clube de Lisboa com nome de Portugal e aspiração fundadora de ser tão grande como os maiores da Europa. Mas desengane-se também quem pense que não é possível. Essa foi a lição que ficou no epílogo de quase 6.950 dias de jejum sem que o Sporting conseguisse conquistar o Campeonato. Porque essa foi a lição que sobrou ao longo de 48 horas mais descontos de uma equipa ao longo de 32 jogos. E essa será a lição que ficará dos 90 minutos do jogo frente ao Boavista.

Pode ter sido pela motivação, pode ter sido pelas audíveis buzinadelas e cânticos fora do estádio, pode ter sido por uma questão de estratégia, mas o Sporting teve uma entrada a todo o gás como em muitos encontros em casa na segunda volta não conseguiu. Com Nuno Santos a fazer a diferença jogando mais por dentro dando a largura pela esquerda a Nuno Mendes, com João Palhinha a ter demasiada liberdade na primeira zona de construção, com João Mário a ter mais chegada ao último terço. E foi assim que, depois de um canto inicial do Boavista sem perigo para a baliza de Adán mas bem marcado por Ángel Gomes, o conjunto leonino instalou-se no meio-campo adversário e teve uma bola no poste logo a abrir, com Nuno Santos a fazer o tal movimento interior, a receber num espaço entre linhas com metros pela frente e a rematar de pé esquerdo ao poste (5′).

Era uma entrada a todo o gás. Paulinho apareceu ao primeiro poste num canto na esquerda mas desviou de cabeça ao lado no poste contrário (11′), Pedro Gonçalves e João Mário ameaçaram depois o golo em mais um grande cruzamento de Nuno Mendes que não teve o toque final (14′), Nuno Mendes voltou a revelar a pontaria em excesso dos leões com um remate surpresa que bateu novamente no poste da baliza de Léo Jardim (25′) – e com essa curiosidade de não haver qualquer tentativa enquadrada com a baliza, algo que se manteve depois da meia hora com mais um canto à esquerda batido ao primeiro poste com desvio de Gonçalo Inácio ao lado (34′). O golo parecia uma questão de tempo e durou apenas mais dois minutos: grande lance de João Mário pelo meio, incursão de Nuno Santos pela esquerda e cruzamento para o desvio de Paulinho ao primeiro poste (36′).

Na única incursão à área leonina, Nuno Santos criou aquela que foi também a única oportunidade para a equipa axadrezada, valendo Adán a ter os reflexos suficientes para inverter o movimento que fazia na baliza para travar o desvio de Nuno Santos após cruzamento na esquerda (41′). O intervalo chegaria mesmo com o Sporting em vantagem pela margem mínima e as atenções a centrarem-se no exterior do estádio, onde (bem ou mal) milhares de pessoas estiveram concentradas durante largas horas antes de uma carga policial com balas de borracha que desviou por minutos aquele que deveria ser o principal e único foco do dia (que não foi).

Também pelo lance de perigo inventado por Ángel Gomes para Nuno Santos, Rúben Amorim alertou para os perigos que o Boavista conseguia criar e para a necessidade de “matar” o jogo com o segundo golo. Até por um fator que era percetível: ao contrário de todos os outros encontros, o passar dos minutos com o 1-0 não era benéfica para um Sporting que estava a ter 45 minutos de fazer história e com os níveis de ansiedade a irem aumentando aos poucos. Foi por isso que, mais uma vez, os leões quiseram e conseguiram impor o seu jogo no recomeço da partida, com Léo Jardim a evitar o golo de Paulinho logo no primeiro minuto do segundo tempo e de novo o avançado a ter dois lances de perigo na área que poderiam ter outro tipo de conclusão.

O encontro entrava depois numa fase de maior monotonia e sem balizas, com o Boavista a tentar ganhar metros com bola e o Sporting a tentar explorar os metros nas costas da defesa contrária sem bola, com Rúben Amorim a lançar entretanto Matheus Nunes para o lugar de Nuno Santos para estabilizar o encontro. E foi já com o médio brasileiro em campo que os leões criaram mais três oportunidades flagrantes apenas em dois minutos: Pedro Gonçalves, lançado na profundidade, acertou pela terceira vez no poste; Rami, após cruzamento de Matheus Nunes com desvio inadvertido do francês para a própria baliza e nova defesa do guarda-redes brasileiro; e Paulinho, mais uma vez, sozinho na área a.atirar por cima. Não houve mais golos mas o título já não fugia. 19 anos depois, Sporting, campeão nacional e futebol voltou a ser escrito na mesma frase.