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Há tradições inabaláveis, embora passíveis de serem ajustadas em conformidade com a atual situação de emergência sanitária. Esta terça-feira, ao final da manhã, Isabel II ocupou o seu lugar na Câmara dos Lordes para a habitual cerimónia de abertura do Parlamento britânico. Com menos gente a ocupar as tribunas e sem o duque de Edimburgo ao seu lado, a monarca entoou o discurso que abre oficialmente o ano de trabalhos deste órgão legislativo.

Tradicionalmente realizada no final do ano, só agora, cerca de seis meses depois, foi possível realizar a cerimónia. A rainha, sem máscara e acompanhada pelo príncipe Carlos e pela duquesa da Cornualha, subiu os degraus com a ajuda do filho. Após ordem sua, membros da Câmara dos Comuns, incluindo o primeiro-ministro Boris Johnson, entraram na sala para ouvi-la discursar — uma mensagem que começou com a promessa de recuperação da pandemia, tão apregoada por Johnson, com vista a um “Reino Unido mais forte, saudável e próspero do que antes”.

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Entre as ausências contaram-se a do Arcebispo da Cantuária, presença habitual nesta cerimónia, e a insubstituível figura do marido, o príncipe Filipe, que morreu no último dia 9 de abril. Aos 95 anos, este é o primeiro grande evento oficial de Isabel II enquanto viúva e a primeira abertura do Parlamento a realizar-se sob apertadas medidas de segurança e higiene.

Conduzida do Castelo de Windsor para o Palácio de Buckingham e, mais tarde, daí para o Parlamento, em Westminster (de carro e não de carruagem), a monarca dispensou as vestes reais que envergou em cerimónias passadas e optou por um visual protocolarmente conhecido como “indumentária diurna”, de mala e sapatos pretos.

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A leveza do seu vestido floral e do longo casaco num tom pálido de lavanda, perfeitamente coordenado com um chapéu decorado com flores, contrastou com os interiores ornamentados da Câmara dos Lordes. Em torno do decote, discretamente adornado com um colar de pérolas, os bordados assemelharam-se a lírios, as mesmas flores que surgem associadas a paz, serenidade e ao luto na cultura vitoriana.

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Devido ao seu peso (cerca de um quilo), a Coroa Imperial do Estado permaneceu pousada ao lado da rainha e não posta na sua cabeça como noutros tempos. Também ela foi transportada de carro do Palácio de Buckingham para o Parlamento. Originalmente criada em 1937 para a coroação de Jorge VI, pai de Isabel II, a peça é composta por 2.868 diamantes, 17 safiras, 11 esmeraldas e 269 pérolas. Depois de a ter usado pela primeira vez na sua coroação, em 1953, a monarca fez desta coroa uma peça obrigatória na cerimónia de abertura do Parlamento britânico. Colocou-a pela última vez em 2016.

Sem o marido, companheiro dos últimos 73 anos, sentou-se sozinha. Nem mesmo Carlos se sentou ao seu lado, como aconteceu na cerimónia de 2019 — o segundo trono, tradicionalmente reservado ao consorte, foi retirado por razões de segurança. Ainda assim, a vincada presença do príncipe de Gales ao lado da rainha (entrou lado a lado com a mãe na sala) pode ser um sinal de que este está prestes a assumir um papel ainda mais preponderante na agenda de afazeres reais.

Assertiva nas palavras, o Daily Mail mostra ainda uma rainha expedita, à conversa com os guardas no final da cerimónia. Descontração e formalidades de Estado neste que foi o regresso da monarca aos grandes compromissos oficiais. Aos 95 anos, e há quase 70 no trono, a sua força, a resiliência e a vitalidade voltaram a ser testadas. Mais uma vez, Isabel II passou com distinção.