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Quinze de maio. O dia em que, no ano de 1932, o Sporting fez o primeiro encontro de andebol de 11. O dia em que, no ano de 1951, nasceu Sobrinho, um dos melhores hoquistas de sempre do Sporting e da Seleção que fez parte do Cinco Maravilha com Ramalhete, Júlio Rendeiro, Chana e Livramento que ganhou a Taça dos Campeões Europeus. O dia em que, no ano de 1964, um canto direto de João Morais deu ao Sporting o primeiro e único título europeu no futebol, neste caso a Taça dos Vencedores das Taças diante do MTK Budapeste. O dia em que, no ano de 2005, a equipa de andebol foi campeã pela 18.ª vez e conseguiu depois a quinta dobradinha.

15 de maio, tudo coisas boas. Até 2018. Porque foi aí, a 15 de maio de 2018, que um grupo de quatro dezenas de sócios e adeptos do Sporting decidiu de forma coordenada invadir a Academia do clube, em Alcochete, lançando um pânico bem vivo em todas as sessões de julgamento do caso e deixando para a história aquela que foi uma das páginas mais negras da história dos leões. Faz hoje três anos que acabava tudo: um ciclo no futebol com Jorge Jesus em Alvalade, um projeto desportivo para tentar ganhar o título, uma trajetória sem paralelo de Rui Patrício com os verde e brancos, uma ideia de presidencialismo. E pensou-se que era o fim, tendo em conta o que se viu uns dias depois na derrota na final da Taça de Portugal com o Desp. Aves e a debandada geral de rescisões que levou seis jogadores do clube (nove inicialmente, sendo que três acabaram de seguida por voltar atrás). Três anos depois, de uma forma pouco possível de antever, o Sporting entrava como campeão nacional na Luz.

Partindo com apenas 3% de hipóteses entre as casas de apostas, menos até do que o Sp. Braga, a sair de uma fase de convulsão interna que se foi adensando com os maus resultados e a dança de treinadores por Alvalade, com uma goleada sofrida no arranque da época que impediu a presença na fase de grupos da Liga Europa, o Sporting teve em Rúben Amorim o inventor de uma autêntica metamorfose que consolidou um sistema tático, criou uma ideia de jogo, potenciou as qualidades individuais e tornou-se imbatível no plano coletivo. Um, dois, três, dez, 20, 32 jogos. Apesar da noite de festa após o triunfo contra o Boavista que assegurou a conquista da Primeira Liga, com o treinador a dar rédea solta aos jogadores que no dia seguinte folgaram, foram proibidas mais festas por três metas ainda por alcançar: superar o registo de pontos do Sporting (86), não perder nenhum dos dois jogos até ao final do Campeonato e criar uma nova média recorde de golos sofridos do clube numa só edição.

Do outro lado, também três anos depois, Jorge Jesus. O técnico que depois de seis anos na Luz percebeu que não contavam com ele, assinou por antecipação com o rival Sporting, foi dispensado na véspera da invasão, passou depois pelas primeira experiências no estrangeiro, na Arábia Saudita e no Flamengo onde se tornou um ídolo da torcida ganhando tudo o que havia para ganhar menos a final do Mundial de Clubes, e voltou ao Benfica com um investimento recorde de 100 milhões de euros para ter mais desilusões do que ilusões. Esse era aliás um ponto atípico naquilo que se poderia projetar no arranque da época: apesar de ter hipóteses matemáticas de chegar ao segundo lugar, a entrada direta na Champions era uma miragem e havia sobretudo um dérbi pelo orgulho.

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Foi isso que aconteceu. Um orgulho do Benfica encarnado sobretudo em Pizzi e Everton, dois diabos à solta que aproveitaram os espaços para causar grande mossa e acabar com os três recordes que estavam ainda em aberto na Luz para os leões. Mas também um orgulho próprio do Sporting que se viu a ser goleado na casa do rival e correu o risco de ir buscar pelo menos um empate (que seria injusto, acrescente-se). A chave, essa, esteve na primeira parte. E esteve sobretudo no meio-campo com que os leões entraram, que estenderam a passadeira aos jogadores mais ofensivos das águias. Rúben Amorim perdeu no duelo entre treinadores na equipa inicial, Jorge Jesus foi ultrapassado depois na altura de mexer com o jogo. Foi um grande dérbi, também com um grande Pedro Gonçalves, mas que terminou com dois grandes factos: o Benfica acaba a época sem saber como se gerem os resultados, o Sporting acaba a época mostrando a influência que João Palhinha tem na equipa. E se a última jornada vai ter público nas bancadas, este duelo merecia garantidamente uma casa cheia na Luz.

Ao contrário do Benfica, que voltou ao sistema de três defesas mas mantendo as opções iniciais na equipa, o Sporting apresentou mais mudanças forçadas (Porro e Feddal deram o lugar a João Pereira e Matheus Reis) e por opção, que acabaram por marcar o arranque do dérbi com Matheus Nunes e Daniel Bragança na zona do meio-campo. Foi por aí que os encarnados ganharam ascendente com o passar dos minutos, aproveitando não só uma menor agressividade na reação à perda como a possibilidade de colocar várias vezes Taarabt nas costas da dupla para passar essa segunda linha de pressão e ter o marroquino a servir as três unidades mais adiantadas. Foi assim nesse circuito que Everton Cebolinha fez o primeiro remate do jogo para defesa de Adán, fazendo aquela habitual diagonal da esquerda para o meio (8′). Ficava o aviso na baliza, ficava sobretudo o aviso no movimento que poderia desequilibrar. E foi por aí que começou a superioridade total dos visitados até ao intervalo.

Na oportunidade seguinte, o Benfica inaugurou mesmo o marcador. Não foi com Taarabt a receber nas costas de Daniel Bragança e Matheus Nunes, não foi com Everton a fazer a diagonal para dentro, foi com Pizzi a cair no espaço entre linhas mais à esquerda para tirar referências de marcação e lançar Seferovic que, isolado, picou a bola por cima de Adán e fez o 1-0 (12′). Pouco depois, numa das melhores saídas a explorar a profundidade por parte do Sporting, Nuno Santos ganhou a esquerda a Diogo Gonçalves, cruzou para a zona de golo na área e Pedro Gonçalves chegou atrasado por muito pouco (15′), mas seria o Benfica a somar várias aproximações com perigo à área leonina com Pizzi e Everton endiabrados. Os encarnados, que gostam de atacar com muita posse, estavam bem como nunca; os verde e brancos, que preferem combinações rápidas e profundidade, estavam mal como raras vezes. Faltavam os golos para traduzir essa superioridade, que chegaram de forma natural.

Pizzi, na melhor jogada do dérbi e num lance de livro a passar por vários jogadores, aproveitou uma combinação com Everton a partir da esquerda para surgir isolado na área e colocar sem hipóteses para Adán (27′). A seguir, na sequência de um canto que nunca tinha resultado em golo contra os leões, Lucas Veríssimo subiu mais alto na zona do segundo poste e aumentou para 3-0 (39′). O melhor que o Sporting conseguiria fazer seria reduzir já em período de descontos por Pedro Gonçalves, numa diagonal da direita para o meio com remate de pé esquerdo já depois de um desvio num livre lateral de Seferovic que por pouco não deu em autogolo (44′).

Rúben Amorim viu aquilo que se tornara óbvio desde os minutos iniciais da partida e lançou a dupla Palhinha-João Mário, tirando João Pereira para Matheus Nunes ficar com a direita e Daniel Bragança. No entanto, teve dois grandes problemas: 1) o encontro com dois golos de desvantagem teria tendência para ficar partido e aí toda a influência da dupla teria um contexto diferente; 2) o Benfica começou logo por chegar ao 4-1, num penálti de Seferovic por falta clara de Matheus Nunes sobre Grimaldo (49′). O Sporting teve uma cadência ofensiva que nada teve a ver com o primeiro tempo, entre uma bola no poste de Pedro Gonçalves (52′) e um cabeceamento de Paulinho à figura de Helton Leite após cruzamento de Nuno Mendes (61′), mas percebia-se que bastava a bola entrar na zona ofensiva dos encarnados para haver potencial perigo junto da baliza de Adán.

Os leões necessitavam de um golo para reentrarem no encontro e colocarem até outra dinâmica numa partida que podia conhecer outros números e o mesmo chegou numa grande jogada do Sporting que começou num cruzamento largo de Pedro Gonçalves da direita para o segundo poste, assistência de Paulinho e remate de primeira de Nuno Santos sem grandes condições para o 4-2 que mudaria mesmo o contexto do que faltava ainda jogar (62′), até porque o conjunto de Jorge Jesus perdeu a forma assertiva de atacar a baliza leonina e entrou numa zona mais exposta onde corria o risco de sofrer mais um golo e ficar à mercê de uma última bola num dérbi onde dominou na maior parte do tempo e poderia ter fechado há muito as contas.

Foi mesmo isso que aconteceu, com Pedro Gonçalves a sofrer uma grande penalidade de Lucas Veríssimo e a fazer o 4-3 (77′) antes de fazer um remate na área de pé esquerdo após assistência de Nuno Mendes para grande defesa de Helton Leite a desviar a bola para o poste e para canto (79′). A anarquia tática imperava, a parte física começava a pesar, as pernas condicionavam aquilo que a cabeça pensava e repetiu-se o filme de tantos outros encontros, com Coates a subir até à área contrária em busca de mais um golo salvador. Não aconteceu, nem sequer podia ter acontecido porque não teve oportunidade para isso. E seria ainda Adán a salvar com os pés de forma quase milagrosa o 5-3 de Rafa nos descontos com um carrinho em cima da linha (90+3′). O dérbi foi grande, o vencedor foi justo e Tiago Martins acabou por liderar o elo mais fraco da partida, não tanto pelos erros em decisões técnicas a meio-campo ou em cantos mas num critério incompreensível no plano disciplinar.