Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Quando o Leicester conquistou a Premier League, em 2016 e com uma equipa que incluía N’Golo Kanté e Mahrez mas também os sobreviventes Kasper Schmeichel e Jamie Vardy, falou-se muito sobre os sonhos. Os sonhos que um clube que não faz parte dos big six ingleses, que não estava habituado às competições europeias nem à alta roda do futebol internacional, que tinha voltado ao principal escalão dois anos antes, conseguiu concretizar. Este sábado, o Leicester voltava a ter sonhos para concretizar.

“Chegar à final da Taça de Inglaterra é um sonho tornado realidade. Toda a gente contribuiu, seja o roupeiro ou quem trata da relva. Toda a gente teve um papel e é muito importante reconhecer essas coisas. E este clube faz sempre isso”, explicou Schmeichel, em entrevista ao programa “Football Focus”. O guarda-redes dinamarquês, um dos nomes que permaneceu em Leicester depois da enorme conquista de 2016, continua sem esquecer Vichai Srivaddhanaprabha, o empresário tailandês que revolucionou o clube desde que o adquiriu, em 2010, e que morreu num acidente de helicóptero a sair do estádio.

“Há uma pessoa que sempre viu até onde é que este clube poderia ir. Era Vichai Srivaddhanaprabha. Foi o que ele me disse no dia em que assinei contrato: ‘Vamos chegar à Liga dos Campeões em cinco anos’. E nessa altura estávamos no Championship! Ele via isso, tinha ambição e deu-nos condições para isso. E a família continua a dar-nos condições para isso. E agora, mais do que nunca, é tempo de reconhecer esse trabalho, devido ao que se passou nas últimas semanas. Temos visto o quão desagradados os adeptos estão com os donos dos clubes. A parte empresarial tem de ser conduzida mas o clube também tem de ser um projeto de paixão. É algo que se aproveita, ir aos jogos, interagir com os adeptos. O nível de respeito que o Vichai colocava em tudo e em todos, ao reconhecer que todos têm um papel… Não importa o trabalho que temos, somos importantes para o que todos estamos a fazer”, explicou o jogador de 34 anos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Era neste contexto, com o objetivo de continuar a concretizar os sonhos de Vichai Srivaddhanaprabha, que o Leicester defrontava o Chelsea este sábado em Wembley. A equipa de Brendan Rodgers chegava à final da Taça de Inglaterra depois de uma vitória em Old Trafford, contra o Manchester United, e na reta final de uma época em que vai conseguir carimbar o apuramento para a Liga dos Campeões. Do outro lado, o conjunto de Thomas Tuchel procurava assegurar o primeiro troféu da temporada, na antecâmara da final da Champions contra o Manchester City, e apagar a surpreendente derrota contra o Arsenal a meio da semana.

Chelsea v Leicester City: The Emirates FA Cup Final

A final da Taça de Inglaterra contou com cerca de 21 mil adeptos nas bancadas de Wembley

“Perdemos a oportunidade de ter uma vantagem decisiva na Premier League, ao perder com o Arsenal. Temos de estar ao nível da final. É o momento para subir a fasquia e aproveitar ao mais alto nível, a sofrer e a ajudar o colega em campo. Eu ainda não estou em modo de aproveitar. Ainda estou ressacado da última derrota. Ainda estou zangado, estou em modo zangado. Não estou zangado comigo ou com os jogadores, estou zangado com o resultado e com a oportunidade que perdemos. Mas vamos transformar isso numa boa preparação e empurrar a equipa até ao limite. Essa é a minha responsabilidade e temos de mostrar uma reação, absolutamente”, explicou Tuchel, que disputava a primeira final desde que chegou a Inglaterra e tinha a oportunidade de conquistar o primeiro troféu com o Chelsea.

Assim, o Chelsea atuava com Werner, Ziyech e Mason Mount no ataque, apoiados por Kanté e Jorginho no meio-campo, enquanto que Havertz, Chilwell e Pulisic começavam no banco e Kepa era o dono da baliza, ao invés do habitualmente titular Mendy. Do outro lado, o Leicester começava com Vardy, Iheanacho e Ayoze Pérez, para além de Ndidi e Tielemans no setor intermédio, com James Maddison, Albrighton e o português Ricardo Pereira na condição de suplentes. Em Wembley, estavam cerca de 21 mil pessoas, num teste-piloto que servia também para preparar a fase final do Euro 2020.

Depois de uma primeira parte sem golos e sem grandes oportunidades, em que o Chelsea foi consistentemente melhor mas o Leicester teve as aproximações mais perigosas à baliza adversária, a diferença acabou por ser feita por um fantástico remate de Tielemans, já depois da hora de jogo. Os foxes recuperaram a bola em zona alta e o médio belga, com um pontapé forte e colocado, bateu Kepa e abriu o marcador (63′).

Em desvantagem, Thomas Tuchel esgotou as substituições e lançou Pulisic, Chilwell, Havertz, Hudson-Odoi e ainda Giroud, enquanto que Brendan Rodgers colocou Maddison, Choudhury e o centralão Wes Morgan, o capitão de equipa no título de 2016. Schmeichel ainda fez duas defesas extraordinárias, a um cabeceamento de Chilwell (78′) e um remate de Mount (87′), o Chelsea ainda marcou à beira do apito final mas o lance foi anulado por fora de jogo, confirmando a vitória do Leicester.

O Leicester conquistou a Taça de Inglaterra, volta a levantar um troféu depois da Premier League de 2015/16 e mostra novamente que é, nesta altura, um dos principais clubes ingleses. Uma vitória que foi, tal como tudo nos foxes, por Vichai Srivaddhanaprabha.