Título: Rio Profundo
Autor: Shusaku Endo
Páginas: 320
Preço: 18,80

Rio Profundo, de Shusaku Endo, chega-nos agora a Portugal pela mão da D. Quixote. Aqui, o autor japonês mostra-nos o confronto do olhar de um grupo de turistas japoneses chegados à Índia. Por um lado, procuram a paz. Por outro, veem um país que parece viver de muletas em cima do colapso.

Do grupo, díspar, uma unanimidade sobressai: todos veem a viagem como caminho para a morte dos dilemas morais, procuram a amnistia do que os tolhe e enfrentar o que resta da vida sem o peso do passado como um trauma. Isobe, que acabou de perder a esposa, espera um sinal da sua reencarnação. Kiguchi, que sobreviveu à guerra da Birmânia, procura o descanso dos companheiros que viu morrer na Autoestrada da Morte. Numada, sobrevivente de uma doença grave, quer o paz da natureza. Otsu, padre japonês rejeitado pelos parceiros católicos, reencontra Mitsuko, que o seduziu na juventude e o fez questionar a fé cristã.

Às margens do Ganges, atravessamos o luto de Isobe. À procura das raízes do budismo, parte para a Índia, tentando ainda encontrar o sentido da sua vida depois de ter perdido o alicerce, ideia que não parte de qualquer noção romântica de união. Pelo contrário, parte da lógica e do plano de estruturar os dias com alguém. Aliás, a submissão da mulher, e a forma como vivia em prol do homem, é aflitiva. Perante a possibilidade de ter quatro meses de vida, responde “Quero isso dizer que vou continuar a fazer-te a vida negra por mais quatro meses”, e preocupa-se: “Não gastes tanto por minha causa.” (p. 13).

Às portas da morte, ficam as preocupações com o marido, como uma mãe que indica o caminho a um filho inapto:

“a mulher tinha anotado com grande minúcia, uma após outra, as instruções de que o marido poderia necessitar diariamente, a fim de não ter problemas uma vez falecida. ‘Verifica se desligaste o gás antes de ires para a cama. Aqui te fica também uma nota sobre como limpar a banheira.’ Era a lista das tarefas que ele tinha deixado em mãos da mulher até àquele momento e ela explicava agora com pormenores muito simples.” (p. 30)

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Perante a ausência dela, Isobe está perdido: “Achas porventura que eu vou ser capaz de dar conta de tudo isto?”, “Não podes deixar esta casa assim, sem mais nem menos…” (p. 30).

Chegado à Índia, partindo de uma vida lassa para o que parece o vazio existencial, Isobe procura um sentido no que parece, inicialmente, mais uma reação do que uma ação em prol de uma descoberta. Assim, é mais escape do que andamento. A esposa estruturava-lhe os dias, o casamento era um alicerce que existia pelo seu lado utilitário: “uma espécie de partilha de trabalho entre marido e mulher” (p. 184). Isobe acreditava que a tarefa “mais importante de uma mulher era acomodar-se à maneira de ser do marido e criar para ele um espaço de tranquilidade para quando voltasse do trabalho com os nervos arrasados” (p. 184). A mulher é aqui instrumentalizada para a sua tranquilidade, e sobressai a perdição de um adulto que precisava de instruções post mortem para limpar uma banheira.

Em Rio Profundo, também salta à vista a história de Kiguchi, porque fica claro o peso que um trauma pode deixar a vida toda. Uma vez repatriado, o japonês nunca falou a ninguém do que passou na guerra. Contudo, já mais velho, casado, com filhos, sentia por vezes o baque das memórias.

“Quando as crianças se queixavam de ser obrigadas a comer arroz todos os dias, ou da falta de carne na dieta, reagia com uma violência excessiva para a sua condição de pai. A mulher, que apenas conhecia o homem amável que sempre fora, estranhava-lhe a súbita mudança. Sempre que isto acontecia, Kiguchi via-se a si próprio como um ser desprezível, retirava-se para o quarto, cobria a cabeça com o lençol, lamentava-se e chorava. Tornava a ver diante dos olhos a Autoestrada da Morte com os cadáveres empilhados e, entre eles, soldados que ainda respiravam, com as fossas nasais e os lábios convertidos em antros de vermes. Odiava do fundo do coração a palavra “democracia” e os movimentos pacifistas surgidos no Japão depois da guerra, pois submetiam tudo a julgamento sem ter em conta aquele mar de sofrimento.” (p. 130).

Este trauma aparece naquilo que Susaku Endo nos vai dando, na forma como a brutalidade da existência alheia ressignifica os traumas individuais. Endo descreve a Índia em bruto, mas seguimos ainda a viagem interior dos japoneses, e a viagem interior que é ainda o confronto com aquele país que parece antagónico ao Japão. Depois da ordem, o caos. Depois de ideias de planeamento urbano, a crueza da vida, o rio poluído, as crenças dos indianos, o desordenamento territorial, a poluição. Procuram a racionalização, mas deparam-se com um mundo em que os seus baluartes estão suspensos e a vida é um dia após o outro. Contra o vazio das suas perdas, encaram o vazio absoluto: gente esquecida na massa urbana, menorizada, cultural e politicamente excluída.

E deparam-se ainda com o choque de uma sociedade em que um humano não vale o mesmo que um humano. Pelo contrário, o sistema de castas da Índia, um sistema religioso de classes sociais, cria uma hierarquia de direitos e de respeito a priori. Ali, há um grupo de pessoas que nem sequer entram no varna jati inferior. São os “sem casta, os intocáveis ou párias”, “hoje chamados harijans, título depreciativo que significa ‘filhos de Deus’”. Estes filhos de Deus são submetidos “ao mais terrível dos fanatismos desde os tempos mais remotos” (p. 45). O indiano que acompanha os japoneses deixa o aviso: “Se durante a viagem forem testemunhas dessa discriminação, é natural que, como japoneses, se sintam psicologicamente incomodados, mas, por favor, não esqueçam que esta situação está coberta pelo pano de fundo duma cultura religiosa e histórica milenária.” (p. 45). Os cincos japoneses conhecem a Índia e, partindo da sua fragilidade humana, veem a fragilidade humana alheia, e existe um desfasamento da existência em relação ao espaço e ao próprio tempo, um cerne que, no fundo, é ausência de relação com o que está à volta. Procuram Deus ao ver a sua ausência.

Ao mesmo tempo, no romance, mostra-se a religião como antítese da lógica, e não se chuta para canto o papel da educação como doutrinação, e consequentemente engodo:

“(…) sou uma ignorante, bem sei, mas também sei o que disse Marx ao falar da religião. E sei que o cristianismo ocidental saqueou muitos países e matou muita gente a pretexto de propagar a sua doutrina. Quando te deixas engodar por essas patranhas é quando realmente destróis a alegria dos colegas. Além disso, não estás seguro daquilo em que acreditas. É verdade ou não?

– Pois não, não estou. Mas não consigo ver tudo sob o prisma da lógica, como tu fazes. Fui educado nesta ambiente desde criança.” (p. 65)

Perante a própria religiosidade das personagens, percebe-se a falta de alcance do fundamento, mas trata-se aqui de busca interior, não de racionalidade. Face à ausência de conexões na Terra, as personagens buscam-nas no céu. E os dogmas religiosos, para um religioso, têm a vantagem de poderem existir per se, bastando a justificação da fé cega.

Católico, Endo parece ter partido dos lugares sagrados do budismo para mostrar a ideia de um Deus universal e incondicional. Da psique de um japonês para o Ganges, o rio sagrado da Índia, “purificador dos corações que para ele peregrinam”, que “serpenteia por entre labirínticos mercados, onde o clamor dos homens se junta ao dos animais” (p. 43), e portanto poluído pela miséria, pela luta diária, pelos despojos, vemos dois mundos em confronto que nos mostram o que, dentro da religiosidade, parece uma realidade apenas. A ideia de um Deus existe para redimir, para dar conforto e para um abraço impossível.