Com mais de 100 anos de história, o Castelo de São Jorge, em Lisboa, está esta terça-feira mais acessível a todos os cidadãos, inclusive a pessoas em cadeira de rodas, após obras realizadas durante o confinamento devido à pandemia.

Entre o piso de pedras com altos e baixos, construiu-se um pequeno caminho cimentado e devidamente nivelado, com largura que permite a passagem em simultâneo de duas cadeiras de rodas, mas que, além das pessoas com mobilidade reduzida, facilita a visita ao público em geral.

Qualquer pessoa quase que se magoava com aquilo que existia antes, que era um piso cheio de obstáculos naturais“, afirmou Joana Gomes Cardoso, presidente da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), organismo que gere o Castelo de São Jorge.

O novo caminho acessível deste monumento de Lisboa foi apresentado no âmbito do Dia Internacional dos Museus, que se celebra esta terça-feira.

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Ambos de cadeira de rodas, Salvador Mendes de Almeida, com um equipamento elétrico, e Luís Rodrigues, com a força de quem está habituado a alguma prática desportiva, juntaram-se à visita pelo novo percurso acessível, uma vez que o projeto tem a colaboração da Associação Salvador, da qual fazem parte.

Em declarações à agência Lusa, Salvador Mendes de Almeida, presidente da Associação Salvador, destacou a possibilidade de fazer uma visita ao Castelo de São Jorge “em igualdade de circunstâncias com as outras pessoas”.

“Isto não só é bom para as pessoas com mobilidade reduzida como para qualquer outra pessoa. Ainda há bocadinho estavam a dizer sempre que andava aqui no Castelo tinha de estar sempre a olhar para o chão […] e agora é diferente, porque a pessoa pode caminhar livremente e estar a olhar e a ver a vista, portanto, é uma visita muito mais confortável”, realçou.

O presidente da Associação Salvador considerou que, se é possível fazer este trabalho de melhoria das acessibilidades no Castelo de São Jorge, um espaço de 1910, há muito trabalho ainda por fazer em Lisboa, “para que todas as pessoas tenham o mesmo acesso livre à cidade”.

Entre 8% e 10% da população em Portugal tem algum tipo de deficiência, portanto, se somos à volta de 10 milhões, estamos a falar entre 800 mil a um milhão de pessoas com deficiência”, adiantou Salvador Mendes de Almeida, alertando que “a acessibilidade é o principal fator de exclusão das pessoas na sociedade” e que ainda há muitas autarquias que carecem de um plano de acessibilidade pedonal.

A Associação Salvador atua na área da deficiência motora e tem como missão promover a integração das pessoas com deficiência motora na sociedade e melhorar a sua qualidade de vida, potenciando os seus talentos e sensibilizando para a igualdade de oportunidades.

Em cadeira de rodas há 40 anos, Luís Rodrigues classificou o novo caminho acessível como “um privilégio” no Castelo de São Jorge, uma vez que a maioria deste tipo de espaços ainda não está adaptado para receber pessoas com mobilidade reduzida.

Costumo dizer que nós não queremos andar à frente, não gostamos muito de andar atrás, queremos andar ao lado, para isso queremos que, sempre que seja possível tecnicamente, as condições sejam iguais para todos”, reivindicou.

Com a pandemia de Covid-19, que teve um impacto “duríssimo para todos, especialmente para o setor cultural”, em que os monumentos e museus tiveram de fechar, a EGEAC aproveitou para “reimaginar o Castelo de São Jorge, a sua relação com a cidade, com os moradores, com os visitantes, com o ambiente”.

Esse momento de reflexão resultou na “vontade de posicionar o Castelo de uma forma cada vez mais sustentável e cada vez mais acessível“, disse Joana Gomes Cardoso, adiantando que foi substituída a rede de abastecimento e drenagem das águas para otimizar a sustentabilidade do consumo e, por outro lado, foi criado um novo piso acessível.

Quanto à melhoria das acessibilidades, o novo caminho apresentado, com um percurso entre a Praça de Armas (junto à entrada) e o Miradouro do Castelo, é apenas o primeiro de três troços de piso acessível, prevendo-se que os outros dois estejam prontos ainda este ano, num investimento total de cerca de 300 mil euros, apontou a presidente da EGEAC.

Presente na apresentação desta terça-feira, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, disse que “esta obra tem vários significados, o primeiro é tornar mais acessível a todos”, não só às pessoas com mobilidade reduzida, mas “verdadeiramente a todos que sofrem as dificuldades de uma cidade antiga”, sustentando que a limitação física chega a todos, independentemente da forma, devido à idade.

Outras das ideias a implementar no Castelo de São Jorge é a disponibilização gratuita de wi-fi, “ainda este verão”, para desafiar os residentes e estudantes a irem para “este magnifico escritório ao ar livre”, numa altura em que muitos ainda estão em teletrabalho, assinalou Joana Gomes Cardoso.

No 1.º trimestre deste ano, meses de confinamento geral, o Castelo de São Jorge perdeu “cerca de três milhões de euros em receitas“, o que representa uma quebra de 97% face a período homologo de 2019, enquanto em 2020 a quebra de receita foi de 85%, segundo dados da EGEAC.

Em 2018, este monumento nacional recebeu mais de dois milhões de visitantes, numa média de cerca de 5.600 por dia, dos quais 96% eram de nacionalidade estrangeira.