Opositores à Mina do Barroso manifestaram-se esta quarta-feira, em Boticas, carregando nas mãos cartazes e enxadas, para alertar para os impactes da exploração de lítio na agricultura, a principal atividade económica do território.

Futuro minado, não obrigado” e “Não à mina, sim à vida” foram algumas das palavras de ordem que se ouviram no centro da vila de Boticas, no distrito de Vila Real, entoadas pelas cerca de 150 pessoas que aderiram ao protesto. Os cânticos foram sendo acompanhados pelo som de três bombos, que encabeçaram o protesto.

Nas mãos, os populares empunhavam cartazes onde se podia ler: “Covas do Barroso Património Agrícola Mundial diz não à mina“, “Verde é o Barroso”, “Não queremos minas na nossa terra” e “Matos Fernandes coveiro do Barroso“.

Traziam também muitas enxadas, sachos e sacholas, ferramentas de trabalho dos agricultores que residem neste território que vive essencialmente do trabalho do campo e que é, desde 2018, Património Agrícola Mundial.

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O protesto decorre no dia que em que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) realiza uma sessão de esclarecimentos em Boticas, no âmbito do processo de consulta pública do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da Mina do Barroso. A consulta pública decorre até 2 de junho.

A Mina do Barroso situa-se em área das freguesias de Dornelas e Covas do Barroso e o projeto está a ser promovido pela empresa Savannah Lithium, Lda, que prevê uma exploração de lítio e outros minerais a céu aberto.

Benjamim Barroso Gonçalves, 62 anos e residente em Romaínho, fez questão de ir à frente neste protesto, carregando nas mãos uma grande faixa desenhada, de um lado, com o verde da paisagem e, do outro, a negro e cinzento, a mina, as máquinas a trabalhar e o ministro do Ambiente.

Nós temos que lutar e defender o que é nosso. Não queremos que ninguém venha matar o nosso modo de vida. Temos uma vida sossegada, tranquila e querem nos fazer um inferno”, salientou este agricultor.

Benjamim carrega no nome o Barroso que quer defender e aponta que a mina “vai cair no bolso dos agricultores”, já que os terrenos afetados deixarão de receber os subsídios agroambientais. “Não é justo, é a poluição das águas, vão desgraçar o nosso rio, as espécies que lá vivem e ninguém quer saber disso para nada”, frisou.

Anabela Fernandes, 36 anos, da aldeia de Muro, trabalha numa fábrica, mas ajuda os pais no trabalho agrícola e, por isso, carregava nas mãos uma enxada com listas negras no cabo de madeira. “A agricultura é o meio de sustento dos meus pais. Estou muito preocupada com o nosso futuro”, afirmou. Anabela acredita que se a exploração mineira for para a frente muitos serão obrigados a sair destas aldeias.

“Ninguém vai conseguir sobreviver ao pó, aos transportes, às explosões que eles vão fazer. É um futuro bastante negro” frisou. Maria Pereira, de Romaínho, juntou-se à manifestação para dizer “não à mina” e à “destruição da paisagem”.

Esta antiga emigrante de 65 anos regressou à terra natal há cinco anos com a esperança de viver “uma vida tranquila“. “Mas, agora não temos sossego nenhum. Isto assim não, não pode, é tudo afetado, a nossa saúde e tudo”, frisou

Estou aqui a favor da nossa terra porque somos Património Agrícola Mundial, o único território português com esta classificação e, neste processo, nunca fomos ouvidos. O que nos querem fazer é um atentado ao nosso passado, à nossa memória e ao futuro das nossas gerações”, afirmou um outro manifestante Nuno Teixeira.

Nelson Gomes, da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB), acusou a empresa de “propaganda e mais propaganda” e referiu que o protesto desta quarta-feira quis, mais uma vez, mostrar ao Governo a oposição do povo ao projeto mineiro.

Quanto ao EIA, este responsável disse que “ignora completamente as populações” e lembrou que, nas freguesias afetadas, “nunca ninguém foi consultado para a elaboração do estudo”, questionando, por isso, a sua “credibilidade”.

Fernando Queiroga, presidente da Câmara de Boticas, aproveitou para, mais uma vez, afirmar que o EIA “não é esclarecedor”, possui “inverdades” e “incorreções” e apontou “questões ridículas”, com a “das poeiras”. “A forma de mitigação destas poeiras do ar é, a cada vez que passa um camião, regar”, ironizou.

Em relação à libertação de dióxido de carbono (CO2), disse que o concelho produz atualmente, por ano, “oito toneladas de CO2” e que, “só a mina, na fase inicial, tem 32 toneladas por ano“.

O autarca disse ainda que a área prevista para a exploração mineira está em “reserva florestal, em reserva agrícola nacional”, considerou que a “empresa sempre fez o que quis” e que “está na altura de dizer basta”. “Nós não permitimos mais”, sublinhou.

A sessão de esclarecimentos desta quarta-feira foi dirigida a representantes das instituições do território, estando fechada à participação da população e da comunicação social.

Segundo a Savannah, o investimento na Mina do Barroso “resultará em significativos benefícios económicos, sociais e demográficos, de longo prazo, como o investimento de cerca de 110 milhões de investimento para desenvolvimento e construção de infraestruturas locais, e a criação de 215 empregos diretos e entre 500 a 600 indiretos”.

O projeto da Mina do Barroso tem como foco principal a produção de concentrado de espodumena, para posterior alimentação de estabelecimentos mineralúrgicos de processamento de lítio, tendo como subprodutos o feldspato e quartzo para alimentar a indústria cerâmica e vidreira, e prevê a instalação de um estabelecimento industrial (lavaria).