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Para ser jogador profissional de futebol, faz diferença nascer no primeiro ou no segundo semestre do ano. A idade relativa, o nome concreto deste fenómeno, está presente nos escalões de formação portugueses — um país formador e vendedor — e tem incidência na taxa de abandono e na perceção que os próprios jogadores têm de si mesmos. Ainda assim, todas estas consequências parecem estar a diminuir com o passar dos anos.

Quem diz tudo isto é o mais recente estudo do Portugal Football Observatory, da Federação Portuguesa de Futebol, que pretende perceber se os jogadores nascidos no primeiro semestre do ano civil têm mesmo mais condições e perspetivas de ter sucesso do que os nascidos no segundo semestre. A isto, chama-se idade relativa: ou seja, dois jogadores podem ter nascido no mesmo ano mas separados por 11 meses, entre janeiro e dezembro, o que significa que o que nasceu primeiro pode desenvolver competências físicas, motoras e psicológicas antes de o que nasceu depois o fazer. Como os escalões de formação do futebol estão organizados por ano civil, esses mesmos jogadores são teoricamente colocados na mesma equipa, competindo diretamente entre si e potencialmente prejudicando os nascidos no segundo semestre — que ainda não desenvolveram algumas capacidades mas podem ter tanto ou mais talento do que os outros.

“O desenvolvimento desportivo dos jovens é complexo e altamente individual, afetado por fatores em constante mudança, tais como o crescimento físico, a maturação biológica e o desenvolvimento comportamental. Consequentemente, a idade desempenha um papel fundamental neste processo contínuo: os jovens atletas são agrupados em escalões onde os nascidos mais cedo podem apresentar vantagens na participação e no desempenho desportivo comparativamente com jovens nascidos mais tarde. Esta vantagem, quando existente, é denominada efeito da idade relativa”, detalha o estudo, que concluiu que as consequências da idade relativa só são notórias no futebol masculino, excluindo-se o futebol feminino e o futsal masculino e feminino.

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O projeto explica que, observando a distribuição de atletas pelos diferentes escalões de formação, é possível perceber que todos, sem exceção, apresentam um maior número de atletas nascidos no período entre janeiro em março face ao período entre outubro e dezembro. Aqui, as camadas jovens Sub-7, Sub-17 e Sub-19 são as que revelam um efeito mais destacado da idade relativa. Mas se as capacidades físicas e morfológicas são normalmente apontadas como a justificação para esta distinção entre os jogadores nascidos até junho e os nascidos depois de junho, a verdade é que os treinadores ouvidos pelo estudo da Federação não apontam essas características como prioridades: 42% garantiu que dá mais importância às competências psicológicas na hora de escolher jovens para o plantel, sendo que apenas 12% apontou as características físicas como um fator decisivo. Algo que acaba por não atirar por terra a teoria da idade relativa na formação portuguesa, já que também as capacidades mentais e psicológicas podem desenvolver-se primeiro e prematuramente nos jogadores mais velhos.

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Luís Castro, antigo treinador do FC Porto e até há duas semanas o treinador do Shakhtar Donetsk, foi um dos técnicos ouvidos pelo estudo sobre este tópico específico. “Tem de haver muita atenção da parte de todos para percebermos exatamente o que cada jogador precisa quando está aquém dos outros nessa dimensão física. Muitas vezes isso não acontece na dimensão psicológica, técnica ou tática, mas esses 11 meses de diferença entre um jogador e outro podem ser decisivos para a opção do seu treinador e para opções futuras de continuidade no clube”, indicou. Ainda assim, a maioria dos treinadores ouvidos (52%) garantiu que não tem em consideração o efeito da idade relativa na hora de escolher o plantel ou o onze inicial, com 62% desse lote a indicar o facto de não ser “suficientemente importante” ou o “tratamento de todos por igual” como justificações para essa decisão. Dentro dos 48% que levam em conta este fenómeno, 40% defende o “ajuste de expectativas” como a melhor forma de encarar as diferenças de desempenho entre jogadores nascidos em diferentes alturas do ano.

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Os efeitos da idade relativa são notórios em todos os escalões de formação. Aqui, Gonçalo Ramos durante a final da Youth League da época passada, onde o Benfica perdeu com o Real Madrid

Por fim, o estudo do Portugal Football Observatory considera ainda que os jovens jogadores nascidos no segundo semestre do ano têm uma perceção menos positiva sobre eles próprios do que aqueles que nasceram até junho — para além de que todos acreditam que as componentes físicas e morfológicas são as mais importantes na hora da escolha do plantel, ao contrário daquilo que indicam os treinadores. Quanto à taxa de abandono, que foi analisada na passagem da temporada 2018/19 para a temporada 2019/20, conclui-se que existe um maior efeito da idade relativa nos escalões Sub-9, Sub-11, Sub-13 e Sub-15, onde a maioria das desistências ocorreu em jogadores nascidos a partir de junho. As consequências do fenómeno agravam-se nas seleções nacionais, onde a competitividade interna é acrescida e existem poucos lugares para muitos pretendentes, e o facto de tudo isto acontecer principalmente no futebol justifica-se com a maior popularidade da modalidade, que supera todas as outras no que toca ao número de praticantes.

“Em termos globais, podemos dizer que os indicadores de nascimentos de atletas ao longo dos meses do ano, apontam para a existência de efeito da idade relativa nos escalões de formação em Portugal, objeto do trabalho, parecendo ser suportado pelas respostas aos questionários realizados no âmbito deste estudo aos atletas (…) O efeito é ainda mais exacerbado pela maior taxa de abandono, em vários escalões de formação, dos atletas nascidos no segundo semestre (…) A competitividade pela conquista de um lugar num plantel ou numa equipa mostrou, potencialmente, ter influência no efeito da idade relativa (…) Apesar desta tendência geral, os efeitos verificados não são muito pronunciados e tem havido, inclusivamente, uma tendência decrescente nos últimos anos em relação à probabilidade de haver, na formação de futebol masculino, mais atletas nascidos no primeiro semestre do ano civil. Será que, ainda assim, podemos estar a perder talentos na formação por terem nascido mais tarde no seu ano de nascimento?”, conclui o estudo.