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Responde com um “agradecimento” ao pedido de desculpas do presidente angolano pelas execuções sumárias que decorreram após o alegado golpe de Estado em 27 de maio de 1977. Edgar Valles, irmão de duas vítimas, Sita Valles e de Ademar Valles, sente-se “obrigado a reconhecer a importância histórica” do discurso de João Lourenço, que considera “corajoso”.

Em declarações ao Observador, o advogado considera que, ao quebrar o silêncio de mais de quatro décadas, João Lourenço “inverteu” a política dos seus antecessores apesar dos apelos feitos ao longo dos anos pelos familiares das vítimas: “Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos e o próprio João Lourenço assobiavam para o lado” e nem sequer “se dignavam a responder” às cartas enviadas por si e por outros familiares. Agora, diz-se “surpreendido”: “Nunca pensei que, no meu tempo de vida, tal fosse possível”.

Edgar Valles reconhece que o discurso de João Lourenço teve um “enorme significado” e pareceu-lhe “genuíno, sincero, de grande humildade”. Ainda assim, defende que agora é preciso “investigar o que verdadeiramente se passou”, abrindo os “arquivos do Estado”.

Nessa busca, acabará por se saber quem foi quem, designadamente quem violou Direitos Humanos e causou tanta dor. Não para linchar na praça pública, mas para dar-lhes a oportunidade de pedir individualmente perdão às vítimas e seus familiares”, acrescentou.

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Ao fim de 44 anos, também Ulika Paixão Franco viu o presidente Angola a pedir desculpa pela morte de cerca de 30 mil pessoas. Entre elas, a do seu pai, Adelino António dos Santos. “Sinto-me como um pássaro a quem abriram a gaiola após 44 anos e que com a soma das décadas nunca soube o segredo de voar. E agora o que é que eu faço, se nestes 44 anos na gaiola não aprendi a voar?”, questiona.

Num texto de opinião publicado no Jornal É@GORA, Ulika Paixão Franco conta que depois de, esta quarta-feira, ouvir e ler o pedido de desculpa de João Lourenço, anda “às voltas com a mochila, com as pedras, com o coração”. “Entre os nomes e os grupos de homens e mulheres que tombaram em 77 não encontrei a maçaneta que abre a porta do lugar onde repousa as ossadas do meu pai”, escreve, adiantando que se sentiu “mais sozinha do que nunca”.

Ulika Paixão Franco revela que contactou uma amiga advogada que a possa representar e ajudar a “garantir a dignidade das ossadas” do seu pai. “E agora meu pai, como é que vou ao teu encontro?“, questionada.

Ao encontro das tuas ossadas para recuperar o tanto de ti, agarrar-te a mim e voar contigo em direção a Malange para, naquela ponte sobre as águas do Rio Kwanza depositar os teus restos mortais e fazer as pazes, apaziguar as dores, largar as pedras e a mochila no nosso rio de lágrimas pintadas a sangue, no rio das nossas penas, nas águas em que nunca, eu tua filha e tu meu pai, nos banhámos juntos”, escreve.

O presidente angolano pediu esta quarta-feira desculpa em nome do Estado angolano pelas execuções sumárias. E garantiu que o pedido público de perdão “não se resume a simples palavras”, mas é “um sincero arrependimento e vontade de pôr fim à angústia que estas famílias carregam por falta de informação quanto aos seus entes queridos”.

Presidente angolano pede desculpas por execuções sumárias do 27 de maio

O pedido de desculpas, feito numa transmissão da Televisão Pública de Angola, era uma reclamação dos sobreviventes e das organizações que representam as vítimas e os seus descendentes, agrupadas na Plataforma 27 de Maio. Este ano, a data será pela primeira vez assinalada com uma homenagem em memória das vítimas.

Vários relatórios da Amnistia Internacional estimam que cerca de 30 mil pessoas terão sido mortas na alegada tentativa de golpe de Estado. A maior parte delas não tinha qualquer ligação a Nito Alves — o então ex-ministro do Interior que terá liderado a operação e que, seis dias antes, a 21 de maio, tinha sido expulso o Movimento Popular de Libertação de Angola (MLPA).

Esta expulsão levou Nito Alves e vários apoiantes a invadirem a prisão de Luanda e vários campos de concentração no território angolano, para libertar outros opositores à liderança de Agostinho Neto, então presidente de Angola. Mas a tropas leais ao chefe de Estado angolano, com apoio de militares cubanos, prenderam os invasores, seguindo-se depois o que ficou conhecido como “purga”, com a execução de cerca de 30 mil pessoas.