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O Ministério Público recebeu duas denúncias a acusar Jorge Pires, agente de Pedro Gonçalves, jogador do Sporting e melhor marcador do campeonato, de ter subornado dirigentes da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) e do Colégio Disciplinar Antidopagem (CDA) para que o futebolista não fosse suspenso preventivamente depois de testar positivo num controlo de substâncias, feito no final do Tondela – Famalicão, a 5 de julho de 2020. De acordo com as denúncias, reveladas esta sexta-feira pelo semanário Novo, o objetivo seria evitar a suspensão preventiva do jogador e não hipotecar assim as hipóteses de uma transferência do Famalicão para um dos grandes — cenário que acabou por efetivar-se no mês seguinte, quando a 18 de agosto o jogador, também conhecido como Pote, assinou pelo Sporting, por 6,5 milhões de euros. Também de acordo com o jornal, o Ministério Público abriu entretanto um inquérito-crime e está a investigar as suspeitas de corrupção que recaem sobre Jorge Pires.

Segundo as denúncias, que além de para a Procuradoria-Geral da República terão sido também enviadas diretamente para o juiz Carlos Alexandre, o agente de Pote terá despendido de um total de 80 mil euros para não colocar em causa a comissão que iria receber com a transferência do jogador — cerca de 900 mil euros, também de acordo com o Novo. Garantem as denúncias citadas, os 80 mil euros terão sido alegadamente pagos em duas partes a dirigentes das autoridades nacionais de antidopagem: 30 mil euros para Manuel Brito e António Júlio Nunes, respetivamente presidente e diretor-executivo da ADoP; e 50 mil euros a dividir entre Rui Alves, chefe da divisão jurídica da ADoP, José Fanha Vieira, juiz do CDA, e Luís Horta, também do CDA, médico e ex-presidente do Conselho Nacional Antidopagem, atual ADoP.

Triancinolona acetonida, um corticosteróide que em forma de spray pode ser usado para a rinite alérgica e que por injeção serve para tratar doenças articulares e que esteve na base de um dos escândalos de doping do Tour de France, em 2012 — segundo o jornal, esta foi a substância detetada na amostra de urina de Pote no final do jogo contra o Tondela. Proibida pela Agência Mundial-Anti Doping dependendo da forma de administração — oral, retal, intramuscular e intravenosa estão interditas —, a triancinolona no caso de Pote terá sido tomada por “infiltração ecoguiada intra-articular devido a alterações degenerativas no joelho esquerdo”, terá explicado mais tarde o jogador, que não foi suspenso nem por um dia depois de o resultado positivo ter sido comunicado, a 24 de julho de 2020 — segundo a Lei Antidopagem, assim que existe um teste positivo o jogador tem de ser imediatamente suspenso preventivamente.

Contactado pelo Novo, o Sporting garantiu não ter qualquer conhecimento sobre o caso, arquivado finalmente em novembro de 2020, já o jogador tinha alinhado variadas vezes pelo clube, que se viria a sagrar campeão no final da temporada. Ao jornal, Jorge Pires, o agente desportivo sob investigação, respondeu via sms, com emojis risonhos: “São essas as minhas declarações”.

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