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Acusações de “irresponsabilidade”. Falta de “firmeza”. “Ingenuidade”. “Intransigência”. Se PS, PCP e Bloco de Esquerda foram parceiros negociais durante os idos da geringonça, cinco dias — e muitas reações — depois da convenção do BE, as críticas que dedicam uns aos outros mais parecem de partidos adversários. António Costa promete que até vai pegar num tema que é caro aos antigos parceiros, mas a esquerda desconfia; o Bloco garante que quer a esquerda unida, mas socialistas e comunistas duvidam.

O clima de desconfiança à esquerda é evidente — António Costa resumia-o, esta quinta-feira, considerando que o Bloco de Esquerda não foi “muito claro” na definição do caminho político que pretende seguir. Mas há, ainda, um elemento crucial que baralha as contas de quem já enterra definitivamente os acordos à esquerda: é que, por muitos atritos que os três ex-parceiros tenham, o objetivo maior continua a ser impedir a direita, que esta semana se reuniu na convenção do Movimento Europa e Liberdade, de chegar ao poder, especialmente com o Chega a entrar na equação. Palavra de socialistas, comunistas e bloquistas… e um seguro de vida para António Costa?

Prioridade ao emprego pode ser bluff — dos dois lados

Esta semana, António Costa rumou ao Largo do Rato de dossiê na mão para apresentar oficialmente a sua recandidatura à liderança do PS, que tem congresso marcado para 10 e 11 de julho. Na moção, por entre promessas de diálogo à esquerda e críticas acérrimas ao PSD, encontrava-se uma promessa mais concreta: a revisão da legislação laboral, com o objetivo de “combater todas as formas de instabilidade laboral” — abusos no trabalho temporário, falso trabalho independente, informalidade nas relações laborais — e concluir o desejado acordo para um aumento de rendimentos sustentado, especialmente para os mais jovens.

Dias antes, na convenção de Matosinhos, o Bloco explicava qual será a sua principal linha vermelha na negociação do próximo Orçamento: “Emprego, emprego, emprego”. Mas é preciso cuidado a avaliar a aparente sintonia entre os ex-parceiros: da teoria à prática tem ido uma distância até ver impossível de encurtar, uma vez que BE e PCP fazem da revogação das leis do tempo da troika a exigência essencial no que toca ao Trabalho — uma exigência que os bloquistas incluíram, aliás, na última negociação orçamental.

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Por isso mesmo, na cabeça dos socialistas está uma pergunta: estará o BE realmente interessado em negociar ou apenas a fazer bluff, enquanto se prepara para se tornar oficialmente um partido de oposição?

Na cabeça dos outros dois partidos de esquerda, a mesma dúvida: enquanto os dirigentes bloquistas desvalorizam a suposta intenção do PS de negociar leis laborais, recordando que em 2019 foi precisamente o desacordo em relação a este assunto que o PS usou como argumento para recusar uma geringonça 2.0 e que no Orçamento voltou a não haver acordo, o PCP ainda esta semana criticou as respostas insuficientes do Governo nesta matéria (até marcou um debate de propósito para falar do assunto). As acusações de usar o emprego para o bluff negocial vão em todos os sentidos.

Direita no Governo? Connosco não, diz a esquerda

Com o Bloco em aparente rutura e o PCP entre os reparos ao vizinho e os apelos ao Governo para que cumpra o atual Orçamento e mude as leis laborais, o que poderá ser da geringonça no futuro? A resposta pode estar no ataque que António Costa fez, também a partir do largo do Rato, ao PSD de Rui Rio, “aprisionado” pelo Chega: “Há um mundo que nos separa”. Ou nos comentários do deputado e dirigente comunista António Filipe, que esta semana disse que se o PCP não tivesse sido responsável e aprovado o atual Orçamento, quem sabe quem lideraria hoje o Governo em Portugal.

Ou ainda nos comentários do Bloco, que deixou garantias de ser a “barreira” anti-direita e extrema-direita. Na convenção, a intenção concretizou-se na intervenção de Louçã (“com esta força do BE, a direita não voltará ao Governo”); horas antes, Pedro Filipe Soares dava a mesma garantia ao Observador (“o Bloco nunca contribuirá para que a direita volte ao poder”). A isto não será alheio o trauma do PEC IV — quando o Bloco votou, em 2011, contra o plano do Governo de José Sócrates, que acabaria por cair, foi severamente castigado nas urnas.

A esquerda pode estar de costas voltadas, sobretudo a avaliar pelo aparente afastamento do Bloco e pelos crescentes avisos do PCP para que a execução orçamental seja respeitada — avisos a que o Governo já fez questão de responder, prometendo que fará um balanço dessa execução em junho; mas, em última análise, uma ameaça de reorganização da direita poderá ser a chave para que os ex-parceiros do início desta história se voltem a juntar, com o mesmo objetivo de 2015 à vista.

PCP ataca, BE acha que é “ingenuidade”

Enquanto não se vislumbra essa ameaça, a retórica à esquerda continua a estar longe de ser pacífica. A semana pós-convenção do BE foi de recados — todos eles pouco meigos e a deixar antever um clima difícil para as próximas conversações. O PCP, normalmente parco nos comentários, reagiu numa curta declaração enviada à Lusa às (poucas) declarações que se ouviram na convenção do Bloco sobre a necessidade de unir a esquerda, sempre com a direita como inimigo comum: “Não é uma ou outra afirmação como a que refere que ilude as muitas outras que transversalmente percorreram a convenção e que desmentem essa intenção”, respondeu de forma seca o partido.

O tiro de partida — e o tiro ao Bloco — já tinha, aliás, dado numa publicação do dirigente e deputado comunista António Filipe em que ironizava com as críticas do BE ao último Orçamento do Estado, que só os comunistas viabilizaram. “Se podem fazer esse discurso, devem-no à atitude responsável do PCP”, frisava o deputado, acusando mesmo os bloquistas de colocarem em causa a estabilidade governativa.

Os bloquistas tomaram nota dos ataques do PCP convictos de que estes apenas favorecem António Costa: nos corredores do Bloco, comenta-se que os comunistas estão a ser “ingénuos” — para o BE, o PCP está assim a “entregar os pontos” ao Governo e a enfraquecer a sua posição para uma próxima ronda negocial. No entender do partido de Catarina Martins, o PCP deveria mostrar-se mais “firme” e subir a parada nas negociações com Costa, o que traria vantagem negocial à esquerda como um todo.

Já o Bloco, sem nunca querer romper definitivamente com a corda — até para não passar uma imagem de intransigência nem se colar à ideia do partido “desertor” que PS e, a julgar pelas respostas desta semana, PCP lhe quiseram colar — parece cada vez mais distante.

Ana Catarina Mendes traduzia esta dúvida no seu Facebook, também em reação à convenção bloquista, acusando o BE de não conseguir passar de um “partido de protesto” e de estar a tentar “expiar a culpa” de ter votado contra o Orçamento anterior. Mas os dirigentes bloquistas acreditam que esta posição mais dura contra o Governo, validada, até ver, pelas sondagens que vão chegando e que não colocam o partido em risco de tropeção eleitoral, traz “mais margem de manobra ao Bloco”.

De resto, Mariana Mortágua respondia esta semana, na sua habitual coluna de opinião no Jornal de Notícias, à líder parlamentar do PS, acusando o partido de “do alto da sua arrogância”, “chamar protesto ao que não seja vassalagem”. E no Expresso o fundador Francisco Louçã criticava a “ansiedade do PCP em defender o seu acordo orçamental” e as “juras de fidelidade” feitas ao Governo. Boa parte das declarações de dirigentes do Bloco têm sido, aliás, dedicadas a desenhar essa dicotomia à esquerda: de um lado a “exigência” do BE, do outro a tal “vassalagem”, supõe-se que do PCP. A demarcação entre os partidos à esquerda à esquerda é para continuar… pelo menos, até que um inimigo comum volte a uni-los.