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Cá dentro e lá fora, Marcelo Rebelo de Sousa não se cansa de deixar avisos sobre o que entende que deve ser agora a prioridade do país: a recuperação da economia, e com ela a recuperação social. De visita oficial à Bulgária, onde aproveitou para fazer um balanço da “difícil” presidência portuguesa da União Europeia, Marcelo alertou: “Este tempo é um tempo pós-crise, de legítimas expectativas económicas e sociais” a que vai ser preciso responder.

Apresentando o seu papel, de chefe de Estado, como um papel de “pilar e referência de estabilidade” nesse tal tempo do “pós-crise”, e falando ao lado do Presidente da Bulgária, Rumen Radev, Marcelo quis deixar as prioridades bem ordenadas: “Os europeus, os búlgaros, os portugueses esperam que haja um arranque económico depois desta pandemia e sobretudo uma saída da crise social”.

Essa saída terá a ver com o uso tanto da ‘bazuca’ europeia como dos quadros plurianuais, que conjugados, explicou, poderão dar força a essa recuperação em áreas como a educação, empregos, salários ou habitação — em resumo, “tudo o que é fundamental para os europeus” porque “a Europa só é forte se a vida dos europeus melhorar”.

O foco do Presidente na economia tem a ver com o ritmo da vacinação: Marcelo acredita que, ultrapassadas as primeiras dificuldades e atrasos nas vacinas, esse processo será a melhor garantia de que o país e a Europa já podem concentrar-se em olhar para além da crise. Por isso mesmo, Marcelo fez até questão de fazer as contas e um balanço: há dois milhões de portugueses com a vacinação completa, três milhões e meio com a primeira toma e mais de 900 mil que já foram infetados e têm alguma proteção. Tudo somado, resumiu, dá “quase seis milhões e meio de portugueses” com alguma proteção ou uma proteção “muito substancial”.

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Uma Presidência “difícil e esforçada”

Essas dificuldades e atrasos no processo da vacinação também tinham sido um dos pontos referidos pelo Presidente da República no breve balanço que fez sobre a Presidência portuguesa da União Europeia, que termina no final de junho. Segundo Marcelo, foi uma Presidência “difícil, esforçada, em plena pandemia” sobretudo até abril, mas em que se registaram avanços na lei do clima, no digital, na transição energética, e um “esforço” para ultrapassar os problemas na vacinação.

Por outro lado, foi importante a aprovação dos “mecanismos financeiros” europeus e a construção dos planos de recuperação, que Portugal gostaria de começar a ver aprovados — incluindo o seu — ainda durante o período da Presidência portuguesa.

É com esses planos que Marcelo quer apostar forte na recuperação económica e social. Esse foco ficou, aliás, bem claro na última reunião do Infarmed, na sexta-feira passada, em que o Presidente não hesitou em mostrar fortes reservas quanto ao conselho dos especialistas para manter a atual matriz de risco (sem incluir por exemplo números da vacinação ou da pressão do SNS) que define quais os territórios em alerta, que avançam ou recuam no desconfinamento, etc.

Infarmed. Marcelo quis mudar critérios e puxou pelo impacto das vacinas, mas especialistas pediram cautela

Nessa reunião, Marcelo era claro ao dizer que numa altura em que a vacinação avança se torna mais difícil explicar — e “legitimar” — decisões políticas que imponham mais restrições, lembrando que é preciso ter em conta “a pobreza, a insolvência, a falência” e outras situações que “atingem os direitos fundamentais das pessoas”, para quem é “menos evidente” a razão pela qual o país continua a reger-se pelos mesmos critérios de risco.

Os especialistas discordaram e a expectativa é mesmo que a matriz de risco se mantenha igual quando o Conselho de Ministros desta quarta-feira terminar. Mas Marcelo, mesmo fora, não abranda nos avisos: para o Presidente, que no Infarmed sublinhava estar em sintonia com a “perceção pública”, é tempo de olhar para a economia e o estado social do país.