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Na Fórmula 1 ou em qualquer outro desporto, a palavra “sorte” é muitas vezes mal empregue. Seja porque gera a perceção de algo depreciativo, seja porque suscita a ideia de algo que cai do céu, seja porque propicia a que não se releve o trabalho que é feito por um atleta ou por uma equipa. No entanto, foi isso que Charles Leclerc teve no final da qualificação para o Grande Prémio do Azerbaijão, quando Tsunoda não conseguiu fazer uma curva no traçado citadino de Baku, Carlos Sainz perdeu ainda parte da frente a evitar um embate maior e as bandeiras vermelhas anularam a volta lançado onde Max Verstappen ia procurar o tempo mais rápido do dia. Mas foi isso também que Leclerc quase “mereceu” depois da frustração que sentiu na última corrida, no Mónaco.

Leclerc conquista no Azerbaijão a segunda ‘pole’ consecutiva no Mundial de F1

Aí, depois de ter conseguido também a pole position, o piloto teve problemas com a caixa de velocidade a poucos minutos do arranque do Grande Prémio, a equipa não conseguiu resolver a situação a tempo e o monegasco já não partiu para a corrida, num momento que não acontecia há 25 anos quando Michael Schumacher, que fazia então o seu primeiro ano na Ferrari, passou por uma situação semelhante em França. E poderia ter sido mesmo um fim de semana importante para Leclerc, tendo em conta também o bom ritmo que valeu a Carlos Sainz o melhor resultado do ano à Ferrari (segundo lugar). No entanto, o Mónaco foi sobretudo um marco no Mundial de 2021 por ter promovido uma mudança na liderança – e a luta entre Verstappen e Hamilton estava ao rubro.

O pesadelo de um deu o sonho ao outro: Verstappen vence no Mónaco no dia da desilusão de Leclerc

“Estamos a enfrentar uma luta entre dois pilotos excelentes. O pêndulo oscila para os dois lados e certas coisas que estão a ser ditas são boas também para o fator entretenimento. O Max pode ganhar o título mas ainda comete pequenos erros porque é jovem. A sua velocidade e controlo que tem do monolugar são excelentes mas não pode cometer mais erros porque o Lewis está na sua melhor forma e este é um desafio como ele ainda não experimentou na Fórmula 1. É por isso que esta situação nos convém. A Red Bull não pode negar o rótulo de favorito, essa é a realidade. Deveriam estar sempre na pole porque têm o carro mais rápido”, comentara o chefe da Mercedes, Toto Wolff, na antecâmara deste regresso do Grande Prémio do Azerbaijão.

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“Fomos mais cautelosos no início, atacámos depois no segundo set. O Max já estava mais rápido, porque temos projeções internas que iam nesse sentido, mas quando o Yuki [Tsunoda] e o Sainz bateram tudo acabou. Quando isto acontece é melhor esquecer a tática na qualificação, temos de seguir em frente e dar a volta o mais rápido possível. Vitória de Lewis Hamilton? Acho que fizeram uma mudança grande, o Valtteri [Bottas] também ajudou a melhorar pelo menos cinco décimos mas, subtraindo isso, não acho que estejam na frente. Podemos esperar mais uma corrida emocionante”, disse Helmut Marko, conselheiro da Red Bull, à estação austríaca ORF.

E esse era o melhor resumo que se podia fazer, no lançamento de um Grande Prémio do Azerbaijão que colocava várias perguntas em equação. Conseguiria Verstappen reforçar o primeiro lugar no Mundial ou seria Lewis Hamilton a reduzir ou acabar com a distância de quatro pontos das cinco primeiras corridas? Até onde poderia ir a Ferrari e sobretudo Leclerc em mais um circuito citadino que se parece adaptar às características da equipa transalpina? O que poderia valer a Pierre Gasly a saída do quarto posto e como seria o duelo entre Fernando Alonso e Lando Norris, oitavo e nono na grelha? Questões que só a corrida poderia responder.

A saída decorreu sem grandes alterações mas com Sergio Pérez a saltar da sexta para a quarta posição, num movimento que seria importante para o resto da corrida: Lewis Hamilton demorou apenas duas voltas até ir à principal reta do circuito mesmo sem DRS ultrapassar Charles Leclerc, Max Verstappen saltou pouco depois para a segunda posição e também o mexicano ganhou mais um lugar, colocando o britânico sob grande pressão dos Red Bull e com a paragem nas boxes a não ajudar em nada, com uma ligeira demora na saída que garantiu a liderança da prova ao holandês com Pérez também num grande andamento antes de parar e sair ainda à frente da Hamilton, apesar de ter os pneus frios e com isso partir com uma ligeira desvantagem.

Por circunstâncias das paragens, Sebastien Vettel colocou a Aston Martin na frente do Grande Prémio pela primeira vez esta época mas a guerra era outra, com Pérez a defender-se da melhor forma dos ataques de Lewis Hamilton e a garantir com esse “tampão” também uma diferença cada vez maior de Verstappen. Havia algumas lutas animadas mais atrás, Vettel a confirmar a sua melhor prova do ano e Sainz sempre a subir, mas nem a bandeira vermelha depois da saída aparatosa de Lance Stroll conseguiu mudar as principais características na frente da corrida, com Hamilton a fazer algumas voltas mais rápidas mas sem a capacidade para superar Pérez na segunda posição enquanto Verstappen liderava e geria a corrida como mais queria.

A cinco voltas do final, tudo mudou. E com um guião tão dramático que nem mesmo a Netflix, que tem um dos conteúdos mais conseguidos de sempre com os bastidores da Fórmula 1, conseguiria pensar: já depois de alguns avisos da Red Bull para que Max Verstappen tivesse cuidado na forma como controlava a temperatura do pneu traseiro esquerdo, o holandês viu fugir uma vitória mais do que certa ao ver exatamente esse pneu rebentar em reta e levando a um acidente aparatoso como aquele que Stroll tivera a meio da corrida. Do nada, Verstappen não ia pontuar pela primeira vez este ano e sobravam menos de duas voltas após o recomeço. Mas a história não tinha ainda acabado, com a Mercedes a trocar a “sorte” pelo azar com um inexplicável erro de Hamilton.

Na saída da grelha, Pérez tentou defender posição com uma trajetória a tentar reduzir a margem de Hamilton, o britânico pareceu conseguir passar para a frente em velocidade de ponta mas falhou a viragem na primeira curva, seguindo em frente e perdendo com um lapso invulgar no campeão mundial a hipótese de subir à liderança do Mundial. “Desculpem rapazes, desculpem…”, dizia Hamilton pela rádio à equipa enquanto Pérez embalava para a segunda vitória, Vettel conservava o regresso aos pódios mas na segunda posição, Pierre Gasly segurou o terceiro lugar apesar dos ataques de Leclerc e a Pirelli continuava a ser o principal alvo de críticas nas redes sociais depois de dois rebentamentos de pneus em reta que vão dar ainda muito que falar.