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“Os serviços secretos operam nos esgotos das sociedades democráticas, não atuam à superfície, onde nos movemos na sociedade normal, de plena democracia”, afirma Eric Frattini, jornalista espanhol que foi correspondente do El País em Jerusalém e em Beirute, em entrevista ao jornal i.

O autor do livro “Mossad – Os Carrascos do kidon” garante que não é só em Israel, mas “uma coisa de todos os países”: “Pergunte ao chefes dos serviços secretos portugueses quanta gente do submundo do crime têm como informadores”, atira Frattini. “Provavelmente é uma longa lista”.

“Eles movem-se num submundo, entre as águas residuais, porque manejam informação para lutar contra o crime organizado, contra o tráfico de armas e drogas, contra o tráfico de pessoas”. Combates que são “duríssimos” e que “só se podem levar a cabo nos esgotos do poder”, considera ainda.

Há, no entanto, uma grande diferença entre Israel e os países europeus na relação com os serviços secretos. “Para os israelitas, para a população, a Mossad é como mais uma infantaria, ou uma unidade da força aérea”. Ou seja, “quando muda de Governo, seja do Likud ou dos trabalhistas, não mudam os generais que dirigem os regimentos”.

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Eric Frattini, que no mais recente livro escreve sobre os assassinatos da secreta israelita, considera que a unidade Kidon, alegadamente responsável por vários desses assassinatos, é muito eficaz. “É igual que te escondas num apartamento em Lisboa ou numa casa fortificada no norte do Líbano“, diz ao jornal i. “Mais cedo ou mais tarde, vão encontrar-te“.

E quem é que são os alvos dos assassinatos seletivos? Para que um nome apareça no “livro vermelho” terá de passar “por uma espécie de sistema constitucional”, que “não é assim tão fácil”, nota Frattini. “Há um comité, o chamado comité X, formado por todos os diretores de serviços de inteligência de Israel, incluindo membros do Governo”, que decidem se alguém vai a julgamento. Uma sessão que é presidida por um juiz do Supremo Tribunal e que conta com um advogado de defesa. “Se se decide que tu deves ser liquidado porque és um problema de segurança do Estado de Israel, aí ficas no livro vermelho”, explica Frattini. “Mas é única e exclusivamente o primeiro-ministro que decide se és executado ou não, é ele que assume plena responsabilidade”.

Sobre a relação de Israel com os EUA, Frattini entende que “não mudou assim tanto a política” com Joe Biden. “Não tenhamos ideias tolas. Há muita tolice europeia atualmente, de que antes governava um tirano como Trump e agora governa um progressista como Biden”, considera o autor.

“Quem levou a cabo as operações mais duras de represálias no Médio Oriente foi o Presidente Obama. E quem tinha como seu vice-presidente? Biden. Agora, Biden chegou, sentou-se no escritório oval da Casa Branca e na primeira semana ordenou bombardeamentos na Síria”, aponta Frattini.

O autor considera que “Biden a primeira coisa que faz é autorizar que Israel siga para a frente no que toca às suas operações contra o Irão” e afirma que o presidente americano não é um moderado nem será um problema para Israel neste capítulo. “Vai haver continuidade absoluta, como em muitas outras coisas”, entende Frattini.