Eram dois homens muito diferentes um do outro. A Leste, o russo Oleg Penkovsky herói condecorado da II Guerra Mundial, agente e coronel do GRU, a espionagem militar da URSS, casado e com uma filha. No Ocidente, o inglês Greville Wynne, soldado na II Guerra Mundial mas que não combateu, engenheiro e homem de negócios, totalmente ignorante de assuntos de espionagem, também casado e com um filho. Entre 1960 e 1962, numa das alturas mais sensíveis da Guerra Fria, com a construção do Muro de Berlim e a Crise dos Mísseis de Cuba, Penkovsky e Wynne protagonizaram um dos maiores casos de espionagem dessa época, recriado em “O Espião Inglês”, de Dominic Cooke (“Na Praia de Chesil”), que está muito mais chegado a John Le Carré do que a James Bond.

[Veja o “trailer” de “O Espião Inglês”:]

Este improvável duo foi formado após Penkovsky, um homem que acreditava sinceramente na paz, alarmado pelo desenvolvimento das armas nucleares na URSS sob Krutschov, ter contactado os serviços secretos ocidentais para passar segredos. O MI6 e a CIA pediram a Wynne, que ia regularmente a países de Leste em trabalho, para que fosse o seu “correio” (o título original da fita). Tratando-se de um civil totalmente desconhecido do KGB, poderia estabelecer uma ligação profissional com Penkovsky, que liderava um comité de pesquisa científica, e transportar para Londres as informações cedidas sem que desconfiassem dele. (A própria mulher de Wynne, ignorante das missões do marido, pensa a certa altura que ele a anda a enganar).

Fiel à sua palavra Oleg Penkovsky passaria a ingleses e americanos, entre muito outro material precioso, informações absolutamente fundamentais sobre a instalação dos mísseis soviéticos em Cuba, e a sua relação arriscada, empática e eficiente  com Greville Wynne funcionaria sobre rodas durante bastante tempo, nessa época tensa e conturbada do confronto entre o Ocidente e a URSS. Até ao momento em que tudo se desmoronou em redor deles, porque o KGB tinha uma “toupeira” no MI6 e os dois homens começaram a ser vigiados.

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[Veja uma entrevista com Benedict Cumberbatch e o realizador:]

Abraçando a tradição dos filmes de espionagem clássicos passados na era pré-digital, “O Espião Inglês” contempla muitas situações, ambientes e adereços familiares: o cinzentismo totalitário da URSS e as salas de análises de fotos e documentos, e de reuniões reservadas, dos serviços secretos ocidentais; as relações nem sempre cordiais entre ingleses e americanos; os encontros em lugares públicos ou às escondidas, a rádio que se liga alto para contrariar as escutas, e o compartimento oculto da secretária onde se encafua a pequena máquina para fotografar documentos e planos secretos; o risco de giz feito num candeeiro de rua que alerta um “contacto”, ou o livro encontrado numa posição diferente daquela que estava em cima da mesa do quarto do hotel.

[Veja uma cena do filme:]

Embora esteja aquém, por exemplo, de “A Ponte dos Espiões”, de Steven Spielberg, para citar uma fita passada na mesma altura, “O Espião Inglês” maneja de forma satisfatória e plausível o tipo de narração, as emoções, o “suspense” as atmosferas e os temas visuais que são o pão para a boca do “thriller” de espionagem – sem esquecer as cenas no cárcere para onde os dois homens são depois atirados e triturados. E Dominic Cooke e o argumentista Tom O’Connor frisam os pontos de identificação entre Penkovsky e Wynne: a coragem que se sobrepõe ao medo constante de ser descoberto e a decência fundamental de ambos, bem como o desejo de paz e de segurança para os seus que os animava profundamente.

Benedict Cumberbatch, que por vezes peca por cabotinismo ou afectação, é aqui muito bom em Greville Wynne, que compõe como uma espécie de variante de David Niven tirado à classe média inglesa, encontrando réplica à altura no georgiano Merab Ninidze na figura do discreto e determinado Oleg Penkovsky, ambos fazendo e sugerindo muito com o mínimo necessário de expressão e movimentação. Eles são as duas robustas e fiáveis escoras dramáticas do edifício cinematográfico de “O Espião Inglês”.