A mais antiga praça de touros de Portugal, e que se situa na Azaruja em Évora, está em ruínas mas pode agora ganhar uma nova vida graças à galeria Zaratan, sediada na capital. O objetivo é reconstruir por completo a praça — que tem uma área total de 2,2 quilómetros — para a transformar num centro artístico e cultural que una Évora e Lisboa (e não só). Para isso, a associação lançou uma campanha de crowfunding, sendo necessário, no mínimo, 350 mil euros para completar todo o projeto. Mas o que se pede nesta iniciativa “fica-se” pelos 250 mil euros.

Está já assegurado um investimento inicial de 100 mil euros (entre mecenas e donativos). Mas para uma recuperação total, juntando equipamentos e instalações novas, o valor pode ascender aos 550 mil euros. Todo este projeto começou na internet. “Achámos engraçado e surreal haver uma arena à venda online, até nos rimos. Cerca de um ano depois, ficámos curiosos e acabamos por ir visitar a praça à Azaruja. Foi aí que percebemos que havia abertura por parte dos proprietários para acolher um projeto destes que valorizasse o edifício”, garante José Chaves, diretor desta associação cultural ao Observador.

Sair de Lisboa à procura de “mais liberdade criativa” para aterrar no Alentejo

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A Zaratan foi fundada em 2014 e quando os membros da associação estavam a terminar o mestrado na Faculdade das Belas Artes, foi-lhes difícil encontrar espaços para promover as artes visuais enquanto artistas emergentes. “Não havia abertura para a promoção dos novos media e da interdisciplinaridade. Tem sido esta a nossa missão, que achamos cumprida”, referem.

Com o boom artístico em Lisboa, com o crescimento da oferta cultural, os artistas foram sendo “empurrados” para os subúrbios da capital, surgindo, paralelamente, muitas nova galerias e artistas. Esse empurrão para fora fez com que a Zaratan fosse à procura de mais liberdade criativa até aterrarem no Alentejo. A ideia começou a brotar a partir de maio de 2019 e intensificou-se durante a pandemia. “A descoberta da Azaruja e da praça de touros teve um impacto magnético. É uma terra cuja história está entrelaçada com várias vagas de imigração (inglesa e catalã, entre outras) e talvez essa mesma abertura nos tenha feito sentir mais acolhidos, como ‘estrangeiros de Lisboa’ “, refere José Chaves.

E ao contrário do que se podia esperar, os habitantes da Azaruja aceitaram bem este novo projeto que se vem distanciar do propósito inicial desta praça. “Sentimo-nos muito bem acolhidos por todos, pelos habitantes, pela junta de São Bento do Mato e pela Câmara Municipal e Évora. A praça representa o coração da aldeia e o facto de estar semi abandonada há décadas tem um impacto simbólico negativo muito forte na comunidade local”, refere o diretor da Zaratan. Mas como nada é perfeito, também houve quem discordasse. Faz parte.

Praça de touros em estado degradado que vai ser agora reabilitada.

A verdade é que a intenção desta associação é manter o espaço com acesso gratuito, tanto à galeria como à biblioteca que vai nascer e aos diversos eventos culturais. “Tencionamos também acolher as festas do Divino Espírito Santo, que acontecem todos os anos na Azaruja, na sétima semana da Páscoa”, refere. Ou seja, não é só exposições, concertos, cinema, residências artísticas, oficinas de criação, livros, não. É um projeto que pretende ser inclusivo respeitando a memória da região.

Quanto a apoio além da campanha de crowdfunding, das doações e dos mecenas, tanto a autarquia como a junta de freguesia daquela região, mesmo não tendo “recursos financeiros suficientes para contribuir para a recuperação do edifício”, ajudaram em todas as burocracias bem como na reabilitação do largo que circunda a praça de touros. Após mais de cinco mil imóveis vistos durante os últimos quatro anos, para já, esta parece ter sido a escolha acertada e consensual até junto da comunidade.

O plano daqui para a frente, assim que a obra estiver concluída, é juntar características da região com oferta cultural em linha com a programação independente da Zaratan. “Esperamos incorporar os recursos e conhecimentos da zona como o processamento da cortiça, a cerâmica, as artes têxteis. Vamos ativar parcerias e colaborações com entidades, escolas e instituições no território. Mas a programação ainda está num estado embrionário. O espírito e mentalidade vão ser os mesmos aplicados na capital: experimental, experimental, experimental.

A Zaratan vai ainda tentar a sua sorte com fundos regionais europeus. O último uso da praça de touros que, segundo o site do crowdfunding, foi a primeira fixada em Portugal,  foi para o fabrico de cortiça. Nos últimos 15 anos esteve parada, a degradar-se. Agora, a licença de reabilitação já foi aprovada. Quanto à parte mais técnica e arquitetónica do projeto, o objetivo é reconstruir sem “nada alterar”.  é preciso também, para já, reconstruir o portão, ligar os arcos no interior da praça. Rebocar e caiar o exterior da praça com “técnicas milenares utilizadas no Alentejo”, limpar a vegetação nas bancadas, instalar canalizações, esgotos, sistema elétrico, fibra ótica e colocar telhados. Só depois, numa segunda fase, é que se vai avançar para a conversão dos 30 espaços ao redor da praça em “pequenos ateliers, bem como a instalação de painéis solares que permitam atingir a sustentabilidade ecológica”, conclui o diretor da associação lisboeta.

Uma galeria em contra ciclo que conseguiu, para já, sobreviver à pandemia

A Zaratan nasceu no tempo da troika e agora volta a viver um momento de crise, neste caso potenciada pelo o novo coronavírus. Dificuldades económicas são habituais bem como lutar com galerias maiores.  “Esses espaços contam, muitas vezes, com o voluntarismo dos artsitas para compor o seu programa cultural, na Zaratan acreditamos que por muito pequeno que seja o valor gerado, terá sempre de ser distribuído de forma igualitária. Ou seja, apoiamos a criação de obras futuras, como garantimos um nível de profissionalismo que seria impensável de outra forma”, refere José Chaves.

Quanto ao impacto negativo da pandemia, a associação contou com apoio da DGArtes, a Linha de Emergência para Apoio ás Artes e com a Fundação Gulbenkian. Até porque sem público, sem associados ou sem habitantes da zona de São Bento, onde estão instalados, não é possível continuar de outra forma sem ser contando com esses apoios. “Com fecho total e subsequentemente reabertura faseada, não nos permitia neste momento estarmos com força para iniciarmos esta nova aventura de uma forma segura e estável. Mesmo assim, foi possível manter as renumerações das equipas e começar a pensar em novos projetos.