Kim Jong-Un demitiu vários oficiais de topo, devido a um “incidente grave” relacionado com a luta contra a pandemia de Covid-19, noticiou esta quarta-feira a agência oficial do país.

“Altos funcionários responsáveis por importantes assuntos de estado negligenciaram a implementação das importantes decisões do partido para tomar medidas organizacionais, institucionais, materiais, científicas e tecnológicas, requeridas pela prolongada campanha de prevenção de epidemias”, anunciou, palavroso, o líder norte-coreano numa reunião do politburo esta terça-feira, citado pela KCNA.

Esta inação terá provocado “uma enorme crise para a segurança da nação e do povo” e “acarretou graves consequências”, acrescentou ainda o líder da Coreia do Norte, sem nomear os oficiais agora afastados, mas fazendo referência ao presidium do politburo, composto por Kim e por outros quatro oficiais. Ouvido pelo Washington Post, Hong Min, analista sénior do Instituto Nacional para a Unificação da Coreia, sediado em Seul, acredita que o primeiro-ministro  Kim Tok-hun, no cargo há menos de um ano, pode ser um dos homens a cair.

Apesar de a agência oficial de notícias norte-coreana não ter fornecido mais pormenores, adiantando apenas que Kim acusou os visados de “caírem na armadilha do egoísmo e da passividade”, é sabido que o líder sempre garantiu publicamente que o país era Covid-free, o que leva os especialistas a acreditar que o anúncio destas demissões poderá significar que a Coreia do Norte está a braços com um surto massivo de coronavírus e que as autoridades podem estar a tentar abrir a porta às vacinas produzidas no resto do mundo.

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Para Leif-Eric Easley, professor de estudos internacionais na Universidade Ewha Womans em Seul, a reunião do partido na terça-feira “sugere que a situação no país se agravou para além da capacidade de auto-suficiência” e que os funcionários demitidos não serão mais do que “bodes expiatórios”. “Pyongyang pode estar a criar uma narrativa política interna para permitir a aceitação de vacinas estrangeiras e assistência pandémica”, disse o especialista ao New York Times.

Até agora, o regime norte-coreano, que fechou fronteiras logo em janeiro de 2020, proibiu o turismo, expulsou diplomatas e impôs limitações severas ao comércio transfronteiriço, manteve sempre que a Covid-19 não entrou no país. À Organização Mundial de Saúde, Pyongyang garantiu mesmo que não encontrou um único caso positivo de infeção, mesmo depois de testar mais de 30 mil cidadãos, muitos deles com sintomas associados à doença que vai a caminho dos 183 milhões de infetados em todo o mundo — para além dos especialistas, tanto as autoridades americanas como as japonesas têm contestado esta pretensão.

Sob sanções internacionais devido ao programa nuclear, a Coreia do Norte viu-se mais isolada do que nunca devido a esta medida. O comércio com a China, do qual depende fortemente, foi drasticamente reduzido e os trabalhadores humanitários abandonaram o país. Kim Jong-un reconheceu recentemente que a Coreia do Norte estava a enfrentar uma “situação de tensão alimentar”.