Foi por acaso, a meio de um projeto com células solares, que um grupo de cientistas da Universidade de Newcastle, na Austrália, descobriu aquilo que apresentou recentemente à imprensa como o “santo graal” dos testes para diabéticos — não invasivos, conseguem medir os níveis de glicose através da análise de saliva, sem sangue, dor ou picadas. Tudo a partir da incorporação num transístor de uma enzima capaz de detetar a presença do hidrato de carbono simples, explicou à Reuters Paul Dastoor, professor de Física daquela universidade e líder da equipa que desenvolveu o estudo.

“O que fizemos foi desenvolver uma maneira de incorporar uma enzima que deteta, neste caso, a glicose, diretamente num transístor. Ora, um transístor é um amplificador muito sensível, por isso esta enzima que lá colocámos transforma a glicose num sinal que o transístor consegue detetar. Sendo que este é um transístor que podemos produzir através de impressão, porque os materiais eletrónicos são todos tintas”, explicou o cientista, através de vídeo-chamada.

Em Portugal, já se sabe há pelo menos cinco anos que as tradicionais picadas nos dedos, várias vezes ao dia, para medir níveis de glucose, não têm de ser a regra na rotina dos doentes com diabetes. O problema é o elevado custo do medidor de glicose introduzido nessa altura no mercado pela farmacêutica Abbot — 169,90 euros para começar, mais 59,90 euros a cada 14 dias —, incomportável para grande parte da população.

Custo “notavelmente baixo”

O entusiasmo dos cientistas que agora desenvolveram estes testes sem sangue nem dor na Universidade de Newcastle vem exatamente daí: neste caso, o preço não será problema. “Podemos imprimi-los a um custo notavelmente baixo”, congratulou-se Paul Dastoor, durante a entrevista com a Reuters. “Acho que vai mudar radicalmente a maneira como pensamos os dispositivos médicos, em particular os sensores.”

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Para já, o projeto está a aguardar aprovação para dar início à fase de ensaios clínicos. Caso haja luz verde, do lado dos cientistas está já assegurado o financiamento governamental de 6,3 milhões de dólares australianos (3,97 milhões de euros), para equipar as instalações onde os kits de testes serão produzidos.

Paul Dastoor acredita que esta tecnologia pode ser aplicada a outras doenças e servir para fazer testes de deteção de hormonas, alergénios, cancro e, claro, Covid-19. Na tentativa de revolucionar também a luta contra a pandemia, a Universidade de Newcastle já está a trabalhar com a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, para desenvolver um teste ao SARS-CoV-2 utilizando esta mesma tecnologia.