O ex-ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas considerou que a diplomacia portuguesa jogou um papel importante na mobilização de parceiros europeus para apoiar Moçambique na luta contra a insurgência islâmica, mas lamentou as decisões tardias.

Em entrevista à Lusa em Luanda, o ex-dirigente do CDS, que foi vice-primeiro ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros e ministro da Defesa e do Mar, reconheceu que o envio de uma missão europeia para Cabo Delgado tardou, perante a violência no norte de Moçambique, que se iniciou em 2017, mas sublinhou que só se pode oferecer algum apoio de formação e de treino militar a um país soberano quando este a pede, “com nitidez e segurança“.

“O problema arrastou-se bastante tempo, obviamente, porque Moçambique quis proteger a sua reputação internacional — o que temos de compreender — e a União Europeia tem um processo de decisão que é complexo“, destacou o ex-governante, que esteve em Luanda para participar na terça-feira numa conferência da Deloitte sobre a banca angolana.

Uma missão europeia que terá correspondido, realçou, a um longo trabalho da diplomacia portuguesa para convencer parceiros europeus. “[Portugal] tratou de ir convencendo os países que nem sabem onde fica o norte de Moçambique e que não tem uma diplomacia muito africana”, sobre esta necessidade, considerou, acrescentando que o bom futuro de Moçambique depende da forma como o país atalhar o problema de terrorismo.

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Paulo Portas, que presta atualmente consultoria estratégica internacional de negócios, considerou ainda que esta não foi uma decisão fácil para Moçambique: “Portugal teve uma situação de conflito em Moçambique há menos de 50 anos, estas coisas não são simples e explicar a presença de militares portugueses num estado soberano como Moçambique é sempre um assunto sensível”.

Sobre a demora no pedido de ajuda, sugeriu que Moçambique terá considerado que conseguia travar o problema recorrendo aos seus parceiros regionais, o que não aconteceu. “Entretanto esse pedido foi feito e é bom que tenha sido feito no plano da União Europeia“, reforçou Paulo Portas, afirmando que o essencial é que as Forças Armadas de Moçambique tenham capacitação para gerir a questão e elogiando o apoio prestado numa área da cooperação “que é sempre muito sensível“.

Moçambique tem estado a lutar contra uma rebelião na província de Cabo Delgado, no extremo norte do país, desde 2017, mas nos últimos meses violência aumentou significativamente e o governo moçambicano pediu ajuda à União Europeia.

Na segunda-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE aprovaram o lançamento de uma missão de formação militar em Moçambique que visa “treinar e apoiar as Forças Armadas moçambicanas” no “restabelecimento da segurança” no território e que será chefiada no terreno pelo brigadeiro-general do Exército português Nuno Lemos Pires.

“O objetivo desta missão é de treinar e apoiar as Forças Armadas de Moçambique na proteção da população civil e no restabelecimento da segurança na província de Cabo Delgado”, lê-se num comunicado publicado pelo Conselho da União Europeia (UE).

Esta decisão do bloco comunitário é “a resposta da UE ao pedido das autoridades moçambicanas para um empenhamento reforçado da UE nas áreas da paz e segurança”, depois de, no passado dia 3 de junho, o presidente moçambicano, Filipe Nyusi, ter apelado ao envio de “uma missão não executiva de formação militar da UE para a Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) no país”.

Grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.800 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e 732.000 deslocados, de acordo com a ONU.

Por Raquel Rio (Texto) e Ampe Rogério (Fotos), da agência Lusa