A sala D. Pedro IV, no edifício da Câmara Municipal da Maia, estava pronta para receber o médio internacional português. Luzes e microfones ligados, arranjos de flores e garrafas de água em cima da mesa, jornalistas a postos e um painel onde se podia ler: “Imposição de condecorações honoríficas”.

O jogador de futebol cruzou-se com um acidente no caminho e chegou 23 minutos depois da hora marcada, dispensando a formalidade do fato e da camisa. “É para mim uma honra enorme ser maiato, ter nascido e crescido cá e saber que venho de uma cidade com muitos atletas internacionais que fizeram muita coisa pelo nosso país, que conquistaram muito por nós. É gratificante saber que sou mais um como eles”, começou por dizer, já com a medalha de ouro na mão.

Cá fora, na praça do município, sem a máscara no rosto, houve tempo para selfies e para recordar os tempos de infância vividos mesmo ali em frente. “Em menino andava aqui a jogar à bola, muitas vezes corri para apanhar o autocarro e o metro para ir aos treinos porque, infelizmente, os meus pais nunca tiveram carta nem carro. Recordo muitas coisas boas da minha infância aqui e continuarei a lembrar-me.”

Ainda no capítulo das suas memórias, conta que aprendeu a jogar futebol nos campos de cimento e sintéticos da Maia, “uma cidade que potencia todos os desportos”, seja em casa dos avós paternos em Vermoim, na escola de Gueifães ou, com o primo, no bairro do Sobreiro. “Sou um cidadão da Maia por completo”, sublinha, acrescentando que o troféu irá ficar num “mini museu” que tem, juntamente com outras estatuetas nacionais e internacionais, sendo que esta medalha “irá para lugar mais especial” por ter “um significado diferente”.

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O jogador garante que regressa à sua cidade natal sempre que pode, já que toda a sua família e grande parte dos seus amigos continuam a viver na mesma zona. “Volto cá sempre, tenho cá a minha família praticamente toda, sempre que tenho possibilidade venho cá. Agora na liga inglesa não tenho a possibilidade de passar cá o Natal, mas quando venho juntamo-nos na casa de quem calha, sempre foi assim e a tradição mantém-se.

A aproveitar as férias (o bronzeado na pele não o deixa mentir), o internacional admite que não tem acompanhado todos os jogos da pré temporada da liga portuguesa. “Está a começar agora, muita coisa ainda vai rolar. O mais importante é quando começa a sério, agora é só para ganhar minutos nas pernas, como toda a gente sabe. É sempre bom ganhar, dá alguma ajuda, mas o Sporting no ano passado também empatou o primeiro jogo com o Farense, depois acabou por ser campeão e se calhar ninguém estava à esperava.

Sobre a mais recente transferência de João Mário para o Benfica, Bruno Fernandes disse não querer comentar, mas acabou por fazê-lo. “Se o Sporting quisesse ficar com o jogador tinha ficado, se o João quisesse ficar no Sporting, se calhar teria ficado, mas foi o que se proporcionou de melhor para ele. Conheço o João, sei que teve uma filha há pouco tempo e, por isso, quis ficar em Portugal. Para nós é complicado estar fora e tomar estas decisões. Desejo-lhe as maiores felicidades, mas, obviamente, torço sempre pelo Sporting.

Agora é oficial: João Mário é reforço do Benfica (e Al-Musrati é o próximo objetivo na Luz)

Depois de ter sido considerado, pelo segundo ano consecutivo, o melhor jogador do ano pelo Manchester United, o dono da camisola número 11 da seleção nacional não deixou de lamentar o afastamento de Portugal no campeonato europeu. Confrontado sobre o seu cansaço físico e psicológico, referido pelo selecionador Fernando Santos, Bruno Fernandes justificou-o.

“Nós, jogadores, dizemos sempre que não estamos cansados para poder jogar e eu quero sempre jogar. Queria acabar o europeu sendo o jogador com mais minutos, mas o mister tem de tomar decisões, muitas delas difíceis, que não agradam a toda a gente. Acredito que tomou as melhores opções em prol daquilo que achava que era o melhor para a seleção. Tenho muita confiança nele, mas infelizmente não conseguimos.”

O objetivo não foi cumprido e o jogador garante que não ficou satisfeito com o que fez em campo. “Se podíamos ir mais à frente? Podíamos. Se tínhamos capacidade? Sim. Se poderíamos ter feito melhor? Obviamente, mas foi como foi, infelizmente não conseguimos o melhor. A nível de entrega todos demos tudo, a nível de qualidade falhou alguma coisa. Da minha parte, também, claro. Sou o meu primeiro crítico, não fiquei satisfeito com o que fiz no Europeu.”

Depois da ginasta Filipa Martins e do músico Miguel Araújo, foi a vez de Bruno Fernandes receber a medalha de mérito da cidade que o viu nascer. O autarca, António Silva Tiago, recorda que o jogador é “um verdadeiro herói da Maia”, confessa conhecer parte da sua família e talvez por isso possa testemunhar o seu lado “honrado e honesto”. “Na minha opinião, é ele que vai suceder ao Cristiano Ronaldo na frente do ataque da nossa seleção nacional”, afirma no seu discurso, arrancando vários sorrisos na plateia, incluindo, claro, o de Bruno Fernandes.