O Presidente de Cuba, Miguel Diaz-Canel, não pode continuar no poder, defendeu esta quinta-feira um dos promotores de uma série de manifestações que estão a decorrer quase diariamente diante da embaixada cubana em Lisboa para exigir a democracia na ilha.

Alberto Diaz Perez, 55 anos, há 10 a viver em Lisboa e que trabalha na Santa Casa da Misericórdia, sustentou que o regime cubano está esgotado e que Cuba tem de ter liberdade, com a separação dos três poderes e eleições democráticas, bem como permitir a legalização de partidos políticos.

“Diaz-Canel não pode continuar no poder. Em Cuba tem de haver liberdade, com separação dos três poderes, e eleições democráticas. Não temos partidos políticos porque todos os dirigentes [da oposição] desapareceram”, sublinhou Perez, natural de Matanzas (a cerca de 100 quilómetros a leste de Havana).

O ativista lembrou que, em 2013, Oswaldo José Payá Sardiñas, presidente do Movimento Cristão de Libertação (MCL), prémio André Sakharov de 2002 atribuído pelo Parlamento Europeu, “morreu misteriosamente” num acidente que as autoridades de Cuba “não permitiram investigar” e que todos os opositores estão presos por “delitos políticos, inventados”.

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Perez disse-se “desiludido” com o regime cubano, agora liderado por Diaz-Canel, “um assassino, como agora é conhecido”, por estar a fomentar uma “guerra civil” em Cuba.

“Fidel Castro [primeiro-ministro de 1959 a 1976 e depois Presidente de 1976 a 2008] prometeu que nunca o exército, nunca as armas, seriam usadas contra o povo. Nunca. Diaz-Canel teve a pouca-vergonha de lançar o exército, as tropas especiais, os ‘boinas-negras’ para dar pancada no povo. […] O povo está a sofrer e o mundo está caladinho. Porque [Cuba] é bonita, tem praias e o Governo continua com uma publicidade melhor do que a da empresa Coca Cola”, sustentou.

Saudando o movimento de protesto em Cuba, Perez acredita que as coisas podem mudar, “embora seja difícil”, mas também era impensável que a população de 20 cidades cubanas saísse domingo para a rua para exigir liberdade.

“Agora é ‘Pátria e vida’, o contrário de ‘Pátria ou morte, que era o lema de Fidel Castro”, acrescentou Perez, que admite que o bloqueio económico dos Estados Unidos é “injusto e imoral”, mas que isso não justifica tudo o que o povo cubano tem passado.

O bloqueio económico dos Estados Unidos contra Cuba é imoral e injusto. Isso está claro. Mas é consequência do bloqueio interior de Fidel Castro e de Diaz-Canel, o seu maior discípulo, do bloqueio da liberdade e da democracia e dos direitos dos cubanos”, argumentou.

Perez realçou que o antigo Presidente norte-americano Barack Obama [2009/2017] foi a Cuba e que se comprometeu a levantar todas as sanções se, em contrapartida, o governo cubano avançasse para um regime de liberdade, para reformas e para a democracia.

Mas Cuba não mexeu um dedo. Nada mudou. Ao governo de Diaz-Canel interessam três coisas: poder, poder e poder. Podem pôr os cubanos todos uns contra os outros, pai contra filho, mãe contra filho, irmão contra irmão, vizinho contra vizinho, e eles continuam a ficar ricos e a deter grandes contas bancárias, grandes casas, grandes vidas”, defendeu.

“O Governo de Cuba é uma ditadura militar. O Parlamento Europeu, em junho, considerou a importância e a necessidade de classificar o Governo de Cuba como uma ditadura militar. Diaz-Canel é um presidente eleito por quem? Agora fica comprovada a natureza da ditadura militar que sofre o povo cubano”, acrescentou Perez.

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Presente também na manifestação, que desta vez juntou apenas quatro pessoas — ao contrário das realizadas segunda e quarta-feira, que reuniram mais de seis dezenas de cubanos –, Mariuska Ávila, 44 anos, há oito em Portugal, natural de Mariel, 50 quilómetros a oeste de Havana, criticou a utilização de crianças por parte do governo no “combate às exigências de liberdade”.

“Estou na manifestação de protesto porque sou cubana e tenho o direito de apoiar um povo que neste momento está a sofrer, a chorar, a reclamar a sua liberdade, que está a fazer o que durante 60 anos nunca conseguiu: sair às ruas para cumprir o seu direito de liberdade”, afirmou Mariuska, que trabalha num centro paroquial em Carcavelos, arredores de Lisboa, localidade onde reside.

Estou aqui também pelos jovens, pelas crianças. Numa luta, o combate tem de ser feito entre homens, não com crianças, que estão a ser utilizadas para defender o regime. O que Cuba tem de mais valioso são as suas crianças, os jovens. A ditadura sabe, neste momento, que o povo nunca vai tocar nos seus filhos. Estou aqui por isso, para exigir, para apelar à liberdade e para protestar contra a utilização das crianças para lutar contra o povo”, concluiu.

Depois dos protestos de segunda, quarta e desta quinta-feira, a organização tem marcada para a tarde da sexta-feira nova ação de protesto no mesmo local, ao mesmo tempo que prepara para 26 deste mês uma grande marcha, com cubanos residentes em Portugal vindos das várias regiões do país.

O dia é simbólico, feriado em Cuba, porque foi, nessa data, há 68 anos (1953), que Fidel Castro se deu a conhecer como guerrilheiro ao liderar o primeiro ataque ao quartel de Moncada, dando início à revolução contra o então regime de Fulgêncio Baptista, que cairia em 1959.