2021 tem sido um ano com poucos especiais de stand up a estrearem nos serviços de streaming. A razão é óbvia – os espectáculos em tempos de pandemia são escassos e ter apenas meia casa — ainda por cima com máscaras a tapar o riso — não dá um conteúdo visual lá muito entusiasmante. A solução tem passado por especiais gravados ao ar livre (como o banal “The Greatest Average American” de Nate Bargatze, disponível da Netflix) ou com um modelo completamente disruptivo (como o fabuloso “Inside”, que Bo Burnham gravou trancado sozinho em casa, também para o cardápio da Netflix). A HBO estreia agora mais uma tentativa de fazer das fraquezas forças. Chama-se “Drawn” e mostra a veterana Tig Notaro apenas em versão de desenho animado. É o primeiro especial totalmente feito com este recurso.

Existe à partida uma má notícia e uma boa notícia sobre “Drawn”. A má é que Notaro, já premiada por espectáculos anteriores, não está em pico de forma e apresenta um texto pouco inovador. A boa é que a opção pela animação resulta de tal modo bem que não só salva estes 52 minutos como os torna imperdíveis. Os desenhos animados não se limitam a reproduzir em imagem o bit (nome dado em stand up a cada história contada por um encadeamento de piadas sobre um mesmo tema ou ponto de partida), mas acrescentam-lhe camadas, com novas punchlines e subtilezas. O que poderia ser apenas um artifício para distinguir superficialmente este especial de outros torna-se de facto numa mais-valia. Nada está ali por acaso, desde a aranha que surge nos segundos iniciais até ao modo como são entrelaçadas as reações do público (que também aparece em versão cartoon).

[o trailer de “Tig Notaro: Drawn”]

As animações são responsabilidade do premiado Six Point Harness, um conceituado estúdio de animação que tem no currículo a curta-metragem vencedora de um Óscar, “Hair Love”, séries infantis ou as animações que pontuavam a série documental “Cosmos” na sua versão mais recente. Ficamos perante um autêntico catálogo de todos os estilos de animação possíveis, já que além da Tig em palco temos uma versão diferente da comediante de cada vez que ela conta uma das histórias mais ou menos autobiográficas que compõem “Drawn”, num total de dez. A estética vai desde uma mais realista à la Pixar (como no bit sobre uma canção de Dolly Parton durante uma viagem de carro), ao estilo stop motion (no bit sobre as conversas com a sua amiga comediante Jenny Slate), passando pelo psicadélico e pelo fofinho.

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Pena é então que a qualidade do texto não fique ao nível do resto. Notaro tem um carisma em palco que transparece mesmo quando só ouvimos a sua voz e sabe envolver com parcimónia a audiência no conteúdo que lhes está a expor. Mas em termos de piadas nada é particularmente surpreendente, sendo mesmo a piada final (talvez a mais importante de um espectáculo) algo tão batido que já vi coisas muito semelhantes no Tik Tok. O arranque é também pouco apelativo para um não-americano, já que fala sobre uma campanha publicitaria de uma marca de refrigerantes que nunca chegou cá – sendo que, ao mesmo tempo, soa batido porque essa mesma campanha já foi muito gozada em “Family Guy” e Notaro não tem uma abordagem assim tão diferenciadora. Os seus espectáculos são muitas vezes biográficos (Notaro já teve variados problemas de saúde quase letais e já os exorcizou variadas vezes em cima de palco com resultados interessantes), mas aqui parece que a fonte de histórias para contar secou e estamos com o refugo.

Mesmo assim, “Drawn” vale a pena – e teria mesmo de valer, já que o investimento financeiro e temporal é claramente muito superior ao de outros especiais. A produção ficou a cargo de Ellen DeGeneres, via a sua “A Very Good Production” e da própria Tig Notaro, via ZeroDollarsandZeroSense. Este é assim um projeto no qual DeGeneres está na sombra, algo que poderá acontecer com mais frequência desde que uma polémica com os funcionários do seu talk show ditou o final abrupto do seu estado de graça junto do público.