O governo chinês emitiu novas diretrizes que visam limitar o lucrativo setor do ensino de preparação, numa altura em que restringe também a atuação dos gigantes tecnológicos, resultando numa forte queda das ações das empresas chinesas.

A indústria de cursos de apoio e preparação para os exames de acesso ao ensino superior é um nicho extremamente lucrativo na China, onde o ensino é particularmente competitivo e elitista. O setor pesava, em 2018, cerca de 260 mil milhões de dólares (220 mil milhões de euros), segundo a empresa de pesquisas L.E.K. Consulting. Obcecados com o sucesso dos filhos, os pais chineses têm o hábito de gastar excessivamente em atividades de apoio escolar, o que permitiu o emergir de grandes empresas neste setor — algumas das quais negoceiam no mercado de capitais dos Estados Unidos.

Mas, a excessiva carga de trabalho das crianças chinesas e os custos proibitivos associados à educação são cada vez mais alvo de críticas. As novas diretrizes divulgadas pelo governo ditam que as empresas terão que se registar como associações sem fins lucrativos e não poderão mais dar aulas nos finais de semana, feriados e férias escolares. Os analistas temem que a legislação comprometa o recrutamento de alunos e, em última instância, pese sobre a lucro das empresas.

A diretriz fez com que as ações das empresas chinesas de educação privada afundassem na sexta-feira e esta segunda-feira. A New Oriental Education, uma das líderes de mercado, perdeu quase 70% na Bolsa de Valores de Hong Kong. Já na sexta-feira, a firma TAL Education Group, que negoceia na bolsa de Nova Iorque, perdeu 71%, face aos rumores sobre a nova legislação. A fortuna do presidente executivo (CEO) da empresa, Zhang Bangxin, afundou 1,1 mil milhões de dólares, de acordo com a agência de notícias financeiras Bloomberg.

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As novas medidas são decretadas numa altura em que Pequim tenta aumentar a taxa de natalidade, para evitar uma crise demográfica. O encargo financeiro costuma ser o mais impeditivo para os jovens casais chineses terem um ou mais filhos. As mudanças regulatórias no setor da educação surgem também após medidas mais restritivas para o setor da tecnologia, onde a ausência de legislação de proteção de dados e concorrentes estrangeiros permitiram o rápido surgimento de gigantes locais.

Nos últimos meses, Pequim instaurou processos contra diversas empresas do setor, solicitadas a “retificar” práticas até então toleradas. O grupo Alibaba, gigante do comércio eletrónico chinês fundado pelo bilionário Jack Ma, foi condenado em abril a pagar uma multa de 2,3 mil milhões de euros, por obstruir a concorrência. O serviço de transporte privado Didi, o equivalente ao Uber na China, é também alvo de uma investigação, devido a alegada recolha imprópria de dados privados.

A decisão surgiu após a empresa arrecadar 4,4 mil milhões de dólares (3,7 mil milhões de euros) com a entrada na Bolsa de Valores de Nova Iorque, no final de junho. O gigante da internet Tencent é a mais recente empresa na mira de Pequim. O grupo, que é ultra dominante no mercado de partilha de música na China, foi convocado no sábado pelo regulador por práticas anticoncorrenciais, que pediu a renúncia dos seus direitos musicais exclusivos. Na segunda-feira, as ações da Tencent caíram 7,7% na Bolsa de Valores de Hong Kong.