Enviado especial do Observador, em Tóquio

Olhando apenas para a parte matemática, o jogo de Portugal frente ao Bahrain, depois da derrota a abrir frente ao Egito com números invulgares a nível de golos sofridos (37-31), era apenas isso, mais um jogo. Olhando numa perspetiva interpretativa, era bem mais do que um jogo. E a margem da Seleção ficara já algo reduzida perante o calendário que se seguia, com partidas frente a Suécia e Dinamarca antes da última ronda com o Japão. Tanto ou mais do que uma vitória e os respetivos pontos, o desafio passava por corrigir as muitas coisas que tinham corrido mal na estreia. Nem todas foram corrigidas e foi por isso que, durante grande parte do jogo, Portugal esteve em desvantagem; no final, conseguiu dar a volta. Ganhou. E conseguiu um feito histórico.

O encontro começou com características semelhantes ao jogo com o Egito, percebendo-se ainda assim que havia uma facilidade maior de Portugal em desmontar a defesa do Bahrain do que no arranque desta fase de grupos. Fosse pelas ações de António Areia na segunda linha, com remates de ponta ou entradas a segundo pivô, fosse pelas tentativas de primeira linha de João Ferraz, a Seleção conseguia ser eficaz no ataque e conseguiu até uma vantagem de dois golos pela primeira vez com 8.30 minutos de jogo. O problema, esse, mantinha-se. E a forma como o adversário conseguia visar a baliza de Humberto Gomes continuava a ser um calcanhar de Aquiles.

Depois de um eclipse total em termos ofensivos durante mais de oito minutos, com três remates nos postes, outras falhas técnicas e um Mohamed Ali a crescer na baliza, o Bahrain conseguiu um parcial de 5-0, passando para a frente do marcador por 9-6 numa série travada apenas por um livre de sete metros de António Areia. O desconto de tempo pedido por Paulo Pereira não tinha conseguido um resultado imediato mas voltava a haver mais Portugal, com Gustavo Capdeville a entrar também para a baliza e a conseguir a primeira defesa nacional de todo o jogo numa fase que não foi aproveitada como podia ter sido e colocou o resultado em 12-9.

Com os primeiras linhas Husain Alsayyad e Mohamed Ahmed a serem os grandes dínamos ofensivos contrários, Portugal voltou a recolocar-se apenas um golo de desvantagem no último minuto antes do intervalo, como viria a chegar a partida (15-14), mas a forma como o Bahrain conseguiu o 15.º golo, colocando a bola no meio-campo e rematando para a baliza deserta quando Capdeville fazia a troca, mostrava bem o que tinha de mudar.

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Paulo Pereira trazia soluções novas no plano defensivo, com Victor Iturriza e Alexis Borges no centro com Fábio Magalhães e Miguel Martins nas zonas laterais e Rui Silva na ponta direita em vez de Areia e Portela, e Portugal, também com mérito de Gustavo Capdeville, conseguiu sofrer nos dez minutos iniciais apenas com três golos sofridos. No entanto, e na mesma fase, houve um pouco de tudo por parte da Seleção, desde bolas perdidas que foram passadas para os pés, passes para o ponta quando não estava lá, falhas técnicas por desconcentração e muitas falhas de segunda linha que nunca permitiram voltar ao empate no jogo (o último foi com 15-15).

A 16 minutos do final, Capdeville conseguiu defender um livre de sete metros e, logo de seguida, Portugal fez golo numa situação ofensiva com Alexis Borges e Luís Frade em simultâneo com sucesso (20-19). Estava ali um possível momento de viragem na partida, até porque o Bahrain passou a sentir grandes dificuldades com os dois pivôs, ficando Fábio Magalhães a ocupar a posição de Branquinho e Rui Silva a assumir o ataque à baliza de Ali com três golos consecutivos em bons trabalhos coletivos e individuais. Com sete minutos por jogar, Miguel Martins voltou a fazer o empate com um golo fabuloso num remate de anca (24-24) e ficava tudo em aberto para um final de nervos onde Capdeville chegou às 13 defesas (percentagem de 43%) e Portugal ganhou por 26-25.