Ligada à tradição piscatória da Póvoa de Varzim, um ícone da região, do seu povo e da história etnográfica do país, a Camisola Poveira já fez correr muita tinta este ano depois de uma designer norte-americana se ter apropriado do design para criações próprias. A peça de artesanato foi reanimada pela polémica e está agora no centro das atenções para um processo de preservação daquela que é uma técnica de tricotagem ancestral. A propósito, o centro de formação Modatex no Porto terá a partir de setembro um curso para ensinar a tricotar a Camisola Poveira segundo as técnicas tradicionais.

Marca norte-americana vende camisola poveira (como sendo de design próprio) por 695 euros

É assente num protocolo de colaboração entre o centro de formação e a PATRIPOVE (Associação de Defesa e Consolidação do Património Poveiro) que decorre esta primeira ação de preservar e promover aquele que é um dos símbolos mais importantes da região — a Camisola Tradicional Poveira. A formação que arranca no próximo mês será a primeira formação prevista, à qual se seguirão depois outros workshops sobre esta técnica artesanal.

O curso no Modatex arranca a 20 de setembro e vai dar aos formandos a oportunidade de produzir uma destas camisolas de raiz, aprofundando ao mesmo tempo tanto os conhecimentos históricos sobre a peça como as técnicas que estão associadas à sua confeção.

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A Camisola Poveira conta pelo menos com 200 anos de história, remonta à primeira metade do século XIX e era parte do traje masculino de romaria e festa do pescador.  É bordada com lã branca de fio grosso da região da Serra da Estrela, sendo esta denominada de “lã poveira”, e depois decorada com motivos a ponto cruz a preto ou vermelho. A figuração varia de camisola para camisola mas podem ser vistas coroas reais, siglas poveiras, objetos marítimos ou o escudo nacional, por exemplo.

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O curso, de 125 horas, decorre até 31 de janeiro do próximo ano e as aulas acontecem à terças, quintas e sextas entre as 19h e as 22h. As inscrições estão abertas até 11 de setembro no site da Modatex, sendo que basta possuir o 9º ano de escolaridade e ter idade igual ou superior a 18 anos. O acesso à formação implica, no entanto, a aquisição de um kit base com os materiais para ser usado nas aulas que tem um custo previsto de 60 euros.

Em março, a Camisola Poveira esteve na ordem do dia e no centro de uma polémica encabeçada pela designer Tory Burch que vendia no seu site uma camisola  poveira por 695 euros, como sendo de design próprio, sem qualquer referência ao facto de se tratar de uma peça de artesanato portuguesa. Na sua loja online, a marca terá começado por apresentar a peça como uma túnica de inspiração mexicana, mas precisamente numa peça de vestuário típica chamada baja.

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Depois de instaurada a polémica que rebentou nas redes sociais, o Ministério da Cultura prometeu proteger o património nacional e procurar todas vias judiciais para que a comunidade da Póvoa de Varzim seja compensada pela “apropriação abusiva” da peça.

Já em abril, a Câmara da Póvoa de Varzim, no distrito do Porto, anunciou que iria estabelecer um centro de formação para a produção da típica Camisola Poveira, de forma a promover a comercialização e internacionalização deste produto que demora cerca de 50 horas a ser confecionado artesanalmente.