No final dos anos 90, mesmo à beira da viragem para o século XXI, a família Grijalva decidiu mudar-se para os Estados Unidos. Para trás ficou a Guatemala, de onde eram naturais, e o destino escolhido foi Nova Iorque, ainda que tenham acabado por assentar arraiais na Califórnia. Partiram os pais e os três filhos. O mais novo, Luis, tinha apenas um ano. E, duas décadas depois, o mesmo Luis esteve à beira de nunca mais poder voltar ao único sítio que reconhece como casa para poder ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Luis Grijalva, atleta de 22 anos, esteve muito perto de falhar os Jogos Olímpicos devido às restrições impostas ao programa Deferred Action for Childhood Arrivals, ou estatuto DACA, do qual beneficia. Este programa, introduzido pela administração Obama em 2012 com o objetivo de proteger da deportação cerca de 650 mil imigrantes indocumentados que chegaram aos Estados Unidos ainda enquanto crianças, esteve perto de ser anulado por Donald Trump mas acabou respaldado pelo Tribunal Federal norte-americano, que no passado mês de dezembro salvou os chamados dreamers. O problema? Os imigrantes protegidos pelo DACA estão impedidos de regressar aos Estados Unidos se deixarem o país, enfrentando uma proibição com a duração de uma década.

Ora, Luis Grijalva qualificou-se para os Jogos Olímpicos ao terminar em segundo um meeting de 5.000 metros do NCAA, os campeonatos universitários norte-americanos, e não só alcançou um novo melhor registo pessoal como bateu o recorde nacional da Guatemala (por cerca de 30 segundos). A partir desse momento, as semanas do atleta guatemalteco têm sido passadas a enviar inúmeros recursos às instâncias superiores dos Estados Unidos com o objetivo de poder viajar para Tóquio com a garantia de que poderá regressar aos Estados Unidos.

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Nestes casos, as exceções do estatuto DACA incluem uma espécie de liberdade condicional com base num motivo justificável, como educação, emprego ou uma causa humanitária. A equipa de advogados que representou Grijalva, liderada por Jessica Smith Bobadilla, alegou que os Jogos Olímpicos eram tanto uma questão de emprego como uma causa humanitária e manteve-se em contacto estreito com o Congresso do Arizona, o Estado onde o atleta frequenta a Northern Arizona University, para tentar encurtar os habituais meses que estes processos duram.

Esta segunda-feira, Luis Grijalva deslocou-se aos escritórios dos US Citizenship and Immigration Services, em Phoenix, numa última e quase desesperada tentativa de pedir uma exceção e ainda viajar para Tóquio a tempo. Depois de horas de espera, o milagre aconteceu: o pedido do guatemalteco foi aprovado e o atleta poderá viajar para o Japão, participar na prova dos 5.000 metros dos Jogos Olímpicos e regressar tranquilamente a casa, nos Estados Unidos. “Ter uma oportunidade como esta, de representar a Guatemala nos Jogos Olímpicos, significa o mundo para mim. São muitas emoções. Muito entusiasmo, estou mesmo muito feliz. Estou entusiasmado por ir correr aos Jogos e representar a Guatemala mas também por poder deixar o país e saber que posso regressar em segurança”, disse Grijalva, que ruma à capital japonesa na próxima sexta-feira e vai participar nas eliminatórias dos 5.000 metros já no dia 3 de agosto.