Será que já existe em Portugal um bom número de empresas que se dedicam a desenvolver tecnologias, produtos e serviços a pensar nas cidades inteligentes? A resposta é afirmativa. Essa cadeia de valor existe e há muito que o País ultrapassou um cenário de casos isolados nesta área. Quem o diz é Catarina Selada, diretora do City Lab do CEiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento, com sede em Matosinhos.

Temos hoje “empresas bem-sucedidas” a criar soluções para as smart cities — aglomerados urbanos com transportes e sistema energético sustentáveis e acesso a espaços verdes —, incluindo pequenas e médias empresas e “muitas start-ups”. Aliás, o “mercado das cidades inteligentes”, explicou Catarina Selada, “tem vindo a crescer exponencialmente ao longo dos anos” e tem “um grande volume financeiro associado”.

“Acontece é que estes projetos, desenvolvidos por municípios em colaboração com empresas, são projetos verticais e não integrados do ponto de vista da cidade. Muitos são projetos-piloto e falta-lhes a capacidade de replicação e até de exportação”, acrescentou a diretora do City Lab do CEiiA.

Os robots estão a chegar e a mudar as cidades

Catarina Selada foi uma das convidadas da primeira emissão do programa quinzenal O Regresso da Indústria, que se estreou a 21 de julho na Rádio Observador. A seu lado, para debater o futuro das cidades inteligentes e o papel dos robôs nesse futuro, esteve Luís de Matos, especialista em robótica e presidente da Follow Inspiration (empresa de desenvolvimento de software e hardware, localizada no CEiiA).

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As novas zonas livres tecnológicas em Portugal

Segundo Catarina Selada, o cluster de empresas a trabalhar para as smart cities em Portugal, apesar de expressivo, tem falhas ao nível da coordenação, o que tem hipóteses de ser agora resolvido no âmbito do programa Portugal Digital, criado pelo Governo em março do ano passado. Esta estratégia governamental deve visar a “oferta integrada”, logo, a criação de uma plataforma de diálogo entre municípios e entre empresas na área das tecnologias sustentáveis.

Luís de Matos explicou que ao fim de nove anos de existência a Follow Inspiration já tem soluções capazes de serem lançadas no mercado, desde um carrinho de compras para pessoas com mobilidade reduzida, passando por um robô de desinfeção e purificação do ar e um robô que transporta matérias-primas dentro de fábricas. “São robôs que, do ponto de vista da tecnologia, estão feitos e prontos a escalar, é uma tecnologia madura. Estamos em implementação com diversas entidades”, garantiu o responsável pela Follow Inspiration.

Os dois convidados referiram também que através do Portugal Digital estão a ser criadas “zonas livres tecnológicas” em cidades de todo o país, que levem ao desenvolvimento de protótipos que não precisam de respeitar todas a exigências legais em vigor. Ou seja, são uma maneira de fomentar o empreendedorismo e o desenvolvimento. Ainda assim, Luís de Matos chamou a atenção para um pormenor: “Estas zonas livres tecnológicas servem para testar, mas temos um problema a seguir: termos uma solução implementável, mas não termos as devidas certificações para a poder retirar destas zonas livres tecnológicas. É um desafio.”

Transição “justa e inclusiva”

O papel fundamental da tecnologia na transição energética nas cidades foi um tema referido várias vezes no programa. O fim da utilização massiva de combustíveis fósseis — que serão substituídos por energias com baixas ou nenhumas emissões de dióxido de carbono para a atmosfera — depende em muito de novas soluções no domínio dos automóveis e também na área do planeamento urbano. Para Catarina Selada, como os veículos que circulam nas cidades portuguesas representam 25% das nossas emissões de carbono, “há a necessidade de aplicar tecnologia à alteração deste paradigma de mobilidade”.

“Precisamos de uma mobilidade com zero emissões, conectada, partilhada, mas também com maior utilização do transporte público. A questão da partilha é muito importante, porque queremos tirar carros das cidades e libertar o espaço público para vivências sociais”, referiu Catarina Selada. “A tecnologia é importante, mas também o próprio desenho e planeamento urbano. A tendência das cidades de proximidade intensificou-se com a pandemia. A ideia é reduzir a necessidade de deslocação, por forma a que as pessoas possam aceder ao local de estudo, de trabalho, ao comércio, em 15 minutos de bicicleta ou a pé.”

O problema das alterações climáticas, relacionado com as emissões de dióxido de carbono em todo o mundo, tem vindo a colocar na agenda política a transição das cidades para a neutralidade carbónica”. Esta é de resto uma das ambições até 2050 do Pacto Ecológico Europeu apresentado em dezembro de 2019 por Ursula van der Leyen, presidente da Comissão Europeia (o “Governo” da Europa). Portugal está comprometido com aquela meta, mas Catarina Selada entende que “as cidades podem ter um objetivo mais ambicioso”, até porque a Comissão Europeia já veio dizer que quer uma rede de cidades “neutras em carbono” já em 2030.

A transição tem de ser “justa e inclusiva” e deve envolver “todos os cidadãos e todas as comunidades”, no dizer da diretora do City Lab do CEiiA. “A tecnologia pode ajudar” à transição, mas tem de ser vista “numa perspetiva humanista”. Ou seja, com a tecnologia ao serviço das pessoas, sublinhou. “A tecnologia acaba por ser mais eficaz, quanto mais invisível. A ideia é que a tecnologia seja colocada ao serviço do cidadão e facilite o seu quotidiano sem ser percecionada.” Luís de Matos mostrou-se de acordo e defendeu que as pessoas têm de ser o propósito, ou objetivo, do desenvolvimento tecnológico.

O Regresso da Indústria é uma série de programas com condução do jornalista Paulo Ferreira e resulta de uma parceria entre a Rádio Observador e a COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação. Cada episódio é transmitido de 15 em 15 dias às quartas-feiras na Rádio Observador (nas frequências 93.7 e 98.7 em Lisboa, 98.4 no Porto e 88.1 em Aveiro) e pode também ser escutado como podcast no site do Observador. O programa propõe-se refletir sobre novos caminhos para a competitividade da economia. Também às quartas-feiras no Observador é publicado um artigo com o essencial do programa da semana anterior.