O Ministro das Infraestruturas e da Habitação Pedro Nuno Santos, que já defendeu a autonomização da ferrovia, diz agora que as receitas das concessões rodoviárias podem financiar os investimentos ferroviários, afirmando que “chegou a hora da rodovia ajudar a financiar a ferrovia”. As declarações que mostram o recuo de Pedro Nuno Santos foram feitas ao podcast Sobre Carris do jornal Público.

“Houve uma ideia inicial que eu cheguei a ter que era a separação da rodovia da ferrovia. Uma coisa é termos a roda e o carril juntos e outra coisa é pensarmos que temos de partir a IP”, disse no podcast. Em julho de 2019, o ministro admitiu que era “uma ideia para se trabalhar” a possibilidade de se poder separar a ferrovia da rodovia, terminando com a empresa Infraestruturas de Portugal que fundiu a REFER [Rede Ferroviária Nacional] com as Estradas de Portugal, numa altura em que dizia ser altura de fazer “uma avaliação sobre os resultados dessa fusão” e pensar no futuro.

Pedro Nuno Santos diz que separar ferrovia e rodovia “é uma ideia para se trabalhar”

Agora, o ministro recua na sua posição demonstrada há dois anos e defende o contrário: a articulação entre a rodovia e a ferrovia, sendo uma das razões chave o financiamento. “As concessões rodoviárias vão começar a chegar ao seu término. A IP vai começar a ter um volume de receita, fruto da rodovia, muito considerável. E num momento em que nós queremos fazer a transferência modal, e depois de o país ter andado décadas a financiar a rodovia, chegou a hora da rodovia ajudar a financiar a ferrovia. Separar é tornar mais difícil este exercício”, admitiu.

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O objetivo é que seja feita uma gestão mais direta das receitas provenientes das concessões rodoviárias que vão deixar em breve de ser um encargo para passarem a gerar receita, mantendo-as assim dentro da IP.

Na mesma entrevista, Pedro Nuno Santos refere que a ferrovia e a rodovia não podem ser vistas como concorrentes, mas sim “complementares”, arranjando formas de organização que permitam uma melhor articulação entre a CP e a IP. “É possível voltar a ter as empresas juntas sem ter que estar a separar a infra-estrutura ferroviária da rodoviária”, disse. O ministro admitiu ainda que o futuro da mobilidade no país tem de assentar na ferrovia, sendo necessário tirar carros, autocarros e camiões das estradas, insistindo numa relação de caráter complementar.

O ministro das Infraestruturas quer ainda limpar o passivo da CP — uma dívida de 2,1 mil milhões de euros — para que a empresa possa ir à banca pedir dinheiro para investir em comboios de longo curso.