Enviado especial do Observador, em Tóquio

A primeira série, mesmo não sendo perfeita, tinha corrido bem, com Diogo Abreu a saber exatamente todos os pormenores onde podia ter sido melhor. A segunda, essa, tinha todas as condições para dar lugar na final, até pelos resultados que estavam a surgir até subir ao trampolim como o 12.º. Um, dois, três, seis saltos. Tudo estava a correr muito bem ao português, que começou com o sétimo registo (52.135) e estava a aproximar-se de uma pontuação pelo menos algures entre os 111.245 de Andrey Yudin e os 109.485 de Dmitrii Ushakov (que até podia ser maior). Depois, bastou um erro, um simples erro, para deitar por terra anos de trabalho para Tóquio.

“A minha primeira série foi relativamente boa, houve pormenores em que podia ter feito melhor mas estava numa boa posição. Estava confiante para a série 2, sabia que tinha potencial de apurar para a final e os treinos lá dentro estavam a correr bem. Aqui comecei bem, estava bastante centrado até no trampolim e houve ali um salto em que tecnicamente errei e em que houve qualquer coisa que fez com que saísse fora do trampolim. Já se sabe: nos trampolins, quando se sai fora – e acontece a vários atletas – já não dá hipótese de continuar, ficamos com uma nota bastante mais baixa”, começou por explicar no final, antes da série final que deu a medalha de ouro ao bielorrusso Ivan Litvinovich, à frente do chinês Dong Dong e do neozelandês Dylan Schmidt.

“Só senti mesmo no último salto que tinha sido bastante para a frente. As saídas dos saltos é a coisa mais importante porque fazer os saltos pode parecer a coisa mais complicada mas fazemos isso milhares de vezes, a saída é o mais importante porque para onde estamos a apontar é para onde o salto vai e naquele salto não devia estar a apontar para o sítio certo. Senti logo que saí. É muito rápido, percebi que ia muito para a frente e a série até aí estava bastante centrada, que é uma coisa importante para a nota final. Ainda faltavam alguns saltos, faltavam três saltos e nos trampolins, sendo uma série de dez, mesmo com nove é uma dedução bastante grande e já não dá para o que quer seja”, acrescentou a esse propósito sobre o que faltava para acabar a série.

É muito difícil aperceber-me do que fiz mal. Faço estas séries centenas ou milhares de vezes até chegar a este ponto, já é automático, não estou propriamente a pensar em todos os pormenores para realizar o salto. Quando saí para o salto, notei logo que estava bastante fora, ainda tentei meter os pés um bocadinho de lado para ver se conseguia um salto mais simples e voltar ao meio, mas estava completamente desequilibrado e não tinha hipótese nenhuma”, resumiu.

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Diogo Abreu sabia que a série 2 iria parar aos 59 ou 60, sendo que é a sua pontuação normal ou até mais alta, mas ficou-se pelos 41.285 após a saída, acabando no 11.º lugar. A caminho do local onde recebe a nota, o atleta nem queria acreditar no que lhe tinha acontecido, ficando desolado, com olhar para baixo e mãos na cabeça, antes de ver num número como o sonho da final olímpica caiu a poucos segundos de terminar o exercício, um pouco à semelhança do que aconteceu no Rio de Janeiro em 2016 onde, após acabar a série 1 com o quarto melhor registo, caiu no início da série 2 e ficou na última posição, com apenas 6.240 pontos averbados. Todavia, e ao contrário do que aconteceu no Brasil, Diogo Abreu assumiu a vontade de fazer ainda uns terceiros Jogos.

“Tenciono continuar até Paris em 2024 e tentar o apuramento. Obviamente que depende de várias coisas mas se a saúde física estiver bem, penso que posso continuar. Apesar de esta prova não ter corrido bem, nas provas internacionais que disputei tenho tido bons resultados e o meu nível internacional é bastante bom. Se me mantiver assim, tenho capacidades para me apurar para Paris. O Sporting, a Federação e o Comité Olímpico têm sido excecionais e têm dado todo o apoio, espero que continuem a apoiar-me porque é uma boa possibilidade. Vão 16 aos Jogos, só um ou dois por país, vai ser difícil na mesma, mas a minha intenção é continuar”, destacou.

“Foi sempre uma classificação melhor do que no Rio de Janeiro mas obviamente que estamos aqui para fazer os dez saltos das duas séries. Vou ficar obviamente triste mas o meu balanço positivo tem a ver com a experiência de ter estado aqui e de ter conseguido apuramento porque foi um processo bastante mais longo do que o normal e bastante difícil. Estávamos a competir entre três portugueses que são bastante fortes [Diogo Ganchinho e Pedro Ferreira], sendo que felizmente somos todos amigos, mas é bastante stressante. Nunca tinha sonhado ir a uns Jogos Olímpicos, quanto mais a dois, e por isso é uma experiência muito positiva”, concluiu Diogo Abreu, que vai agora voltar também para a sua empresa ligada a engenharia eletrónica, do qual tirou mestrado, e à ginástica do clube, onde teve a mãe Margarida como ex-praticante numa das classes com mais história, a Mista.