Para as gerações mais novas — e até para muitos maduros —, falar da prova masculina dos 100 metros em Jogos Olímpicos é falar de Usain Bolt. O homem mais rápido do mundo ainda detém os recordes mundiais nos 100m (9,58) e 200m (19,19) e tem um total de oito medalhas olímpicas de ouro. E, como se não bastasse, dominou totalmente o desporto nos últimos anos, sendo o único corredor a manter o título olímpico nos 100m e nos 200m em três Jogos consecutivos (Pequim, Londres e Rio).

Mas se há coisa certa agora em Tóquio é que esse domínio não vai continuar. Não porque Bolt tenha decaído ou se tenha lesionado, mas porque decidiu retirar-se em topo de forma e dar lugar a outros. Na véspera da final olímpica desta prova (na madrugada deste domingo), é tempo de perguntar: sem Bolt, quem pode vir a ser o vencedor dos 100 metros e tornar-se oficialmente o novo “homem mais rápido do mundo”?

Trayvon  Bromell (EUA)

Ele é o grande favorito. O seu estilo discreto contrasta com o de Bolt (“trabalho como se não falassem sobre mim”, diz), mas o jamaicano não teve dúvidas em apontar Bromell como o homem a seguir nestes Olímpicos: “É uma grande promessa.”

Não é para menos. Este norte-americano de 26 anos, com um mestrado em Economia, tem um recorde pessoal de 9,77 segundos nos 100 metros, o que faz dele o sétimo homem mais rápido de sempre. E antes dos Jogos venceu sem dificuldade a Liga de Diamante norte-americana.

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Mas não se pense que o seu caminho foi só feito de rosas. Nascido e criado numa família pobre de um bairro difícil na Florida, partiu os dois joelhos e a anca ainda em criança e viu o seu melhor amigo ser preso. No entanto, aplicou-se no atletismo — e em 2015, com apenas 20 anos, conseguiu o bronze nos mundiais nesta prova. Seguiram-se anos de calvário: na sua estreia olímpica no Rio de Janeiro (2016), teve uma lesão na coluna que fez com que ficasse em último na final dos 100 metros. E, na prova de estafetas, lesionou-se de novo no tendão de Aquiles, tendo de sair da pista de cadeira de rodas.

Mas eis que em 2021 aí está ele com o melhor tempo pessoal de todos os candidatos ao ouro. Só que nem tudo é linear: nas rondas de apuramento, Trayvon teve um resultado fraco de 10,05 segundos, deixando muitos a pensar que talvez não esteja pronto para a vitória. O próprio admitiu o erro: “Não tenho palavras. Sinto que não me esforcei o suficiente e o meu treinador vai ficar furioso com isso.” Melhorará este domingo?

Recorde pessoal: 9,77 segundos (2021)

Ronnie Baker (EUA)

O compatriota de Trayvon é da mesma geração que o colega (tem 27 anos) e um percurso também promissor. Nascido no Kentucky, viveu no Alasca e foi aí que descobriu a sua paixão pela corrida, ao descobrir que era o mais rápido de toda a escola.

A duas semanas do início dos Jogos, venceu os 100 metros na Liga de Diamante do Mónaco e tem o segundo melhor recorde pessoal de todos os participantes nesta final. Estes são os seus primeiros Jogos Olímpicos e nas provas de apuramento ficou satisfeito com o resultado: “Pareceu fácil. Olhei para o ecrã a seguir à corrida e senti que tinha sido só um simples passeio.” Veremos se este domingo também será assim tão fácil.

Recorde pessoal: 9,85 segundos (2021)

Fred Kerley (EUA)

O terceiro melhor tempo pessoal destes finalistas pertence a outro norte-americano — deixando claramente para trás uma época de domínio jamaicano sobre os 100 metros. Esta é sem dúvida a época de uma nova geração no sprint, como comprovam os 26 anos de Fred Kerley.

Um corredor verdadeiramente versátil cuja especialidade não são sequer os 100 metros, mas sim os 400 metros, onde até conseguiu uma medalha de bronze nos mundiais de 2019. O seu recorde pessoal de 43,64 segundos nessa prova faz dele o oitavo corredor mais rápido nos 400 metros.

Mas o que dizer dos 100 metros? Bom, Kerley tem-se tentado especializar no sprint no último ano e tem melhorado os seus resultados, estando já abaixo da marca dos 10 segundos (um resultado que só atingiu pela primeira vez em abril deste ano). Veremos no domingo se é capaz de se superar ainda mais.

Recorde pessoal: 9,86 segundos (2021)

Andre de Grasse (Canadá)

O primeiro corredor a surgir nesta lista que não é norte-americano é Andre de Grasse (26 anos). Em 2016, conseguiu o bronze e ainda teve um momento de troca de sorrisos com Usain Bolt em plena corrida. E o canadiano garante que não levou os Olímpicos do Rio muito a sério — agora em Tóquio, promete, será diferente.

Isso mesmo parece ter demonstrado já nas provas de apuramento para as meias-finais. De Grasse foi o atleta que teve o melhor tempo (9,91 segundos), a sua melhor marca desta temporada e apenas uma centésima de segundo abaixo da sua melhor de sempre (9,90).

Como se não bastasse, ainda tem esperança de conseguir bons resultados nos 200 metros e nas estafetas dos 100 metros.  Veremos se pode ser a surpresa inesperada destes 100 metros individuais.

Recorde pessoal: 9,90 segundos (2019)

Zharnel Hughes (Reino Unido)

A completar esta lista de favoritos a sucessor de Bolt temos Zharnel Hughes, de 26 anos. Nascido no território britânico de Anguila, nas Caraíbas, Zharnel já se cruzou com Bolt, até por serem colegas do mesmo clube, o Racers Track Club, na Jamaica. O sprinter britânico é o atual campeão europeu dos 100 metros.

Embora também corra frequentemente os 200 metros, Hughes e o seu treinador decidiram focar-se nos 100 metros em Tóquio. E o britânico está convicto de que tem uma hipótese de atrapalhar os big guys: “Os 100 metros são muito abertos, muitos dos rapazes estão a correr muito rápido, mas acho que estou incluído nesse grupo”, disse, confiante, à Sky News esta semana.

Nas pré-eliminatórias “só” correu os 100 metros em 10,4 segundos, mas o seu melhor tempo pessoal está muito próximo de De Grasse. Este domingo, tiram-se todas as teimas.

Recorde pessoal: 9,91 segundos (2018)