Título: Verão
Autora: Ali Smith
Editora: Elsinore
Páginas: 320
Preço: 19,99€

Chega ao fim a tetralogia de Ali Smith. Entre 2017 e 2020, a escritora escocesa publicou Outono (2016), Inverno (2017), Primavera (2019) e Verão (2020), que chegou a Portugal na estação homónima.

O projeto, cabe dizer, é de grande envergadura, mais não fosse pela exigência que é aguentar um tom e uma narrativa ao longo de centenas de páginas. Em suma, o romance encara os tempos, dirige-se ao flutuar da vida. Ao invés de pegar na espuma dos dias, pega no cimento de um país. Assim, o que é micro torna-se macro, as personagens são correntes que percorrem as artérias das mudanças sociais.

Em Verão, a ação é-nos temporalmente próxima, iniciando-se em fevereiro de 2020. Sacha, que tem 16 anos, assiste através do telemóvel ao escalar da violência racial, ao nascer de uma pandemia global, à instrumentalização da palavra por parte do poder político e ao exacerbar de posições antagónicas. O que parece uma ameaça externa também ganha corpo em casa: afinal, o seu irmão Robert parece começar a tender para o obscurantismo elitista, pese o seu aparente brilhantismo. Com isto, a autora encara a clivagem social, pondo-a no centro da família e conferindo-lhe uma dimensão emocional e psicológica que vai além de trincheiras de grupos estanques compostos por desconhecidos. O efeito é ver-se em casa a divisão da sociedade, sentindo-se que a luta pelos direitos adquiridos se faz carne e que o perigo de polarização e violência se adensa, já que vem de um lugar aparentemente inócuo e seguro.

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Na ação, a autora pega na clivagem que justificou o Brexit, encarando o ambiente de violência e polarização. Nas páginas de Verão, há raiva e desespero, e há ainda a perplexidade com que se vê os avanços da extrema-direita na Europa, que contrastam com as ilações básicas que deviam ter sido tiradas da História. Smith põe as mãos na massa e é informada sem ser panfletária, contando ainda com um conjunto de personagens que, pesem embora os seus lugares-comuns, dão vida ao livro. Afinal, os lugares-comuns são usados para um efeito, que é o de compor a narrativa em paralelo com a realidade. Prova disso são as falas de Robert, das quais ficam alguns exemplos, baseados em citações reais de Boris Johnson. O absurdo está lá escancarado, só um leitor desatento não o vê, só um primeiro-ministro cego e mal intencionado não o vê:

(…) as pessoas detestam o facto de as mulheres serem um bando de marronas atadas que só servem para fazer sexo e ter filhos, especialmente filhos que não reconhecemos como nossos, na medida em que o papel do homem consiste em espalhar a sua semente.” (p. 38)

Estás a chamar intolerante ao nosso primeiro-ministro e aos nossos líderes políticos?, disse Robert. Pára de depreciar o nosso grande país. Devíamos estar a defender e a apoiar a Grã-Bretanha. Qualquer atitude que não essa é sinónimo de traição e faz de quem a tem um catastrofista e um profeta da desgraça.” (p. 39)

(…) as crianças que nascem na pobreza ou que nela crescem não devem ter acesso ao ensino porque não estão à altura das suas exigências, disse Robert, nunca serão capazes de aprender nada e portanto não há qualquer razão válida para o Estado lhes custear um ensino do qual são congenitamente incapazes de tirar proveito.” (p. 39)

E é saber que Johnson inspirou estes diálogos que torna o livro vivo, porque obriga o leitor a encarar a vida real num pedaço de ficção, ainda que seja possível que os traços de crónica incomodem. É que, mergulhando num romance, podemos ter demasiadas vezes o telejornal à espreita, e não é coisa pouca que o propósito político da autora seja conhecido – ou pelo menos adivinhado – de antemão. Assim, a experiência de escrita é um risco, tal é a proximidade temporal da realidade. Smith não deixou que o pó assentasse e meteu-se em construção, fazendo mais pó, entregando um romance que fala para os seus leitores coevos.

No meio disto, também são referidas as notícias falsas como novo perigo do nosso tempo, manipulando a opinião pública à escala global e esculpindo um mundo novo:

a verdade é substituída pela mentira autêntica, ou, dito de outro modo, por aquilo que o leitor apoia emocionalmente, ou pela verdade emocional, espaço no qual a verdade factual perde a importância e que tem como consequências o total colapso da integridade e o tribalismo blá-blá-blá” (p. 69)

A instrumentalização da emoção com vista a um fim político, acordando os aspetos animalescos – o ódio, a oposição – contra a lógica, derrotando-a, permite a ascenção e a perpetuação desse discurso. Assim, os aparentes erros do jogo de comunicação (as mentiras) são afinal estratégicas bem operadas sem intenções justas.

A tetralogia de Ali Smith é ambiciosa e panorâmica, encara os ecos do passado na modernidade, e expõe os perigos do presente para o presente e o futuro. A linguagem é escorreita, o estilo procura o impacto.