É certo e sabido que Gregorio Paltrinieri é um dos nadadores mais simpáticos entre todos aqueles que andam pela alta roda da modalidade. Paltrinieri sorri quando entra nos centros aquáticos, sorri enquanto se prepara para a prova, sorri quando entra na piscina e sorri quando bate pela última vez na parede — até porque, normalmente, vence. Durante os primeiros dias da natação em Tóquio 2020, porém, o sorriso do italiano tinha desaparecido.

Campeão olímpico nos 1500 metros livres no Rio de Janeiro, tricampeão mundial na mesma distância em 2015, 2017 e 2019, o italiano de 26 anos chegou ao Japão para competir nos 800 metros, nos 1500 metros e ainda nos 10 quilómetros em águas abertas. O problema? Gregorio Paltrinieri chegou a ter a participação nos Jogos Olímpicos em dúvida e estava longe de se sentir confiante para renovar o título ou para tentar outras medalhas. Afinal, no fim de junho e a cerca de um mês do arranque de Tóquio 2020, foi diagnosticado com mononucleose.

“Até descobrir que tinha mononucleose, sentia-me ótimo. Fui aos Europeus e ganhei cinco medalhas. Depois, tudo mudou num segundo. Descobri que estava doente, tive febre durante uma semana e já nada era totalmente certo. Nem sequer ir aos Jogos Olímpicos, porque aquilo pode durar dois meses, pode durar três meses. A sensação de cansaço pode ser infinita. Não sabia como é que as coisas iriam correr”, explicou o nadador italiano já em Tóquio, tendo conseguido recuperar em tempo recorde para marcar presença nos Jogos Olímpicos. Onde, logo na primeira prova, conseguiu espantar os fantasmas e voltar a sorrir.

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Nos 800 metros, Gregorio Paltrinieri só perdeu o ouro para o norte-americano Robert Finke, que surpreendeu na reta final e relegou o italiano para a medalha de prata. Uma medalha de prata que Paltrinieri celebrou como se de ouro se tratasse. “Não apostava um euro na possibilidade de estar aqui neste pódio. Há duas semanas, não apostava nada. É uma situação completamente diferente daquela que vivi no Rio. Se calhar, durante a minha carreira, caí muitas vezes na armadilha de querer planear tudo. São demasiados pensamentos confusos… Mas estas finais ganham-se com o coração. Os outros podem estar em melhor forma do que eu fisicamente e podem preparar melhor a corrida taticamente mas o coração que eu ponho em cada prova é demasiado para eles”, revelou, justificando a visível alegria depois de ter ficado em segundo.

O italiano natural de Carpi falhou o pódio e a renovação do título nos 1500 metros, ficando atrás de Robert Finke, Mykhailo Romanchuk e Florian Wellbrock. Esta quarta-feira, nos 10 quilómetros em águas abertas, Gregorio Paltrinieri despedia-se dos Jogos Olímpicos e procurava levar mais uma medalha para tirar as melhores recordações possíveis de um evento em que chegou a acreditar não poder estar. Ficou no terceiro lugar, atrás de Wellbrock e de Kristof Rasovsky e conquistando a medalha de bronze, e era novamente um homem feliz assim que saiu das águas da Baía de Tóquio. A chave, sem margem para dúvidas, terá sido a superação nos 800 metros: “Depois de hoje, acho que posso sair-me bem. Há duas horas, não tinha bem a certeza disso. Agora quero nadar tudo”, disse, na altura, o atleta. E saiu-se bem melhor do que bem.