A responsabilidade pela redução da população “é única e exclusivamente dos Governos portugueses dos últimos 40 anos”, considera o investigador Manuel Villaverde Cabral.

“Se há uma coisa que é muito mais importante do que a política é a demografia”, realça, acusando os sucessivos Governos de “tentativa de escamotear” aquilo que considera ser uma evidência.

Em declarações à Lusa a propósito dos dados preliminares dos Censos 2021, divulgados na semana passada, o investigador emérito do Instituto de Ciências Sociais sublinha que os Governos portugueses, condicionados pelo catolicismo predominante, nunca quiseram verdadeiramente responder à pergunta “por que não queremos ter mais filhos?”.

Segundo os primeiros resultados dos Censos 2021, Portugal tem 10.347.892 residentes, menos 214.286 do que em 2011.

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Aliado a esta situação, dados do Instituto Nacional Ricardo Jorge, com base no teste do pezinho, mostram que nasceram em Portugal cerca de 37.700 bebés no primeiro semestre deste ano, o valor mais baixo dos últimos 30 anos no mesmo período.

Recordando a previsão de que “Portugal terá, em 2060, no máximo oito milhões de habitantes”, Villaverde Cabral entende que os Governos têm feito do problema demográfico “um assunto tabu, acerca do qual só pairam incompreensões e mesmo mentiras”.

Portugal “é um dos quatro ou cinco países do mundo com a taxa de nascimentos mais baixa” e um dos países europeus “com mais elevado índice de envelhecimento”, aponta.

Perante este cenário, sustenta, “o objetivo não deve ser apelar aos casais para que tenham mais filhos, coisa que não irá acontecer e que não é uma pura decisão pessoal, mas sim fornecer, tanto a jovens como a idosos, as melhores condições possíveis”.

Ora, “o envelhecimento tem feito aumentar o custo das reformas e da saúde”, frisa o fundador do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa, notando que os lares “estão muito longe de resolver o assunto”.

Assim como as creches, que deviam ser mais e gratuitas. “A baixa natalidade (1,5 no máximo), a redução dos casamentos e o aumento das separações e divórcios representam a quebra objetiva do núcleo familiar”, realça, acrescentando que “a competição pelos empregos contribui para que as mulheres entre os 25-40 anos evitem a gravidez”.

Descrevendo uma “situação trágica”, em que “as pessoas vivem cada vez mais e em condições cada vez mais penosas”, o investigador frisa que “todos os discursos que fujam destes factos só servem para esconder a realidade”.

“A verdade é que um país como o nosso está condenado a perder população, como de resto já está a acontecer. Basta desencantar os dados, porque eles existem. A falta de crescimento económico não ajuda à imigração e a que tem vindo da Europa são reformados que não vão ter filhos”, lembra.