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Sobriedade radical: como duas francesas estão a quebrar o tabu do álcool

Quando duas francesas deixaram de beber, o tabu da sobriedade veio ao de cima no país onde o vinho é rei. As autoras Claire Touzard e Stéphanie Braquehais descolam o álcool do empoderamento feminino.

Claire Touzard e Stéphanie Braquehais publicaram em janeiro os livros "Sans alcool" (Flammarion) e "Jour Zéro" (L'Iconoclaste), respetivamente
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Claire Touzard e Stéphanie Braquehais publicaram em janeiro os livros "Sans alcool" (Flammarion) e "Jour Zéro" (L'Iconoclaste), respetivamente

Alexandre Tabaste/ Kabir-Dhanji (grafismo Ana Martingo/Observador)

Claire Touzard e Stéphanie Braquehais publicaram em janeiro os livros "Sans alcool" (Flammarion) e "Jour Zéro" (L'Iconoclaste), respetivamente

Alexandre Tabaste/ Kabir-Dhanji (grafismo Ana Martingo/Observador)

São mais as coisas que unem Claire Touzard e Stéphanie Braquehais do que aquelas que as separam. No início de 2020, as duas jornalistas francesas publicaram, cada uma, um livro onde documentam a viagem a solo que foi deixar de beber álcool. Ambas já perderam a conta aos dias em que deixaram definitivamente para trás o vinho, a cerveja ou o gin, só para dar alguns exemplos. O lançamento de Sans Alcool (Flammarion) e de Jour Zéro (L’Iconoclaste) suscitou interesse no país que, em 2016, era o nono maior consumidor de álcool per capita (os portugueses consomem anualmente 12 litros de álcool, segundo a OCDE).

Ambos os livros receberam muita atenção mediática em França onde, por exemplo, a indústria do vinho tem um peso significativo na economia e na cultura do país. Mas não foi fácil fazer as pessoas questionarem um hábito que, diz Claire Touzard, é como um desporto nacional. Ainda assim, o livro foi bem recebido e as vendas deixaram-na satisfeita, com o trabalho a ir ao encontro de uma tendência de autocuidado que paira no ar. Também Stéphanie Braquehais foi convidada para ir a televisões e rádios, mas a experiência chegou a ser desconfortável: “Eles queriam desesperadamente fazer-me um diagnóstico. Queriam rotular-me como uma alcoólica”.

Escrever um livro como quem faz terapia

Em janeiro de 2020, ainda o mundo não vivia os constrangimentos de uma pandemia, Claire Touzard desistiu de beber álcool. Talvez surpreendido com a decisão, o publisher da autora francesa propôs que escrevesse sobre a experiência. Claire, hoje com 37 anos, escreveu tanto que no final do mês tinha 50 páginas para entregar. A mudança de hábitos valeu-lhe um título e um contrato, e funcionou tal qual terapia. “Acho que o livro ajudou-me muito. Nos primeiros seis meses escrevi todos os dias”, diz a também jornalista que hoje identifica que no passado teve “muitos problemas” com a bebida. O processo de escrita permitiu-lhe pôr os pontos nos is e perceber o impacto do álcool no seu dia-a-dia pariense, aparentemente recheado de glamour. Durante 20 anos bebeu e, olhando pelo espelho retrovisor, assistiu à presença do álcool em muitas esferas da vida tal qual uma personagem secundária. “Estava ligado à minha feminilidade, à minha vida social e ao meu trabalho. Penso que a minha sobriedade veio com o livro.”

Dar palavras ao que sentia não foi tão fácil para Stéphanie Braquehais que olha para o livro como o resultado de uma experiência psicológica, sociológica e até neurológica. “É muito difícil escrever sobre nós próprias, algo tão pessoal e íntimo.” Para a autora, a decisão de remover o álcool foi gradual e derivou de uma série de momentos de “grande desconforto”, da típica ressaca que vem colada a sentimentos de culpa e vergonha, a episódios mais custosos de recordar (não por falta de memória). “No livro escrevo que estava no aeroporto e, porque não gosto de viajar e porque talvez fosse um mau dia, bebi demais e estava com o meu filho.” A autora faz o disclaimer: estava bem, mas a presença do filho pesou. Nunca atingiu o fundo do poço, esclarece, mas a tomada de consciência gradual fê-la perceber que “fomos condicionados a beber desde muito cedo”. “Quando começamos a questionar isso tudo é quando ganhamos a nossa liberdade”, defende. Stéphanie demorou anos até escolher viver sem álcool, “para que não tivesse de perguntar a mim mesma ‘Deverei beber hoje?’ ‘Quanto devo beber?’. Eram perguntas muito cansativas.”

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Sem álcool durante uma pandemia e no confinamento

Se durante os confinamentos foram muitos os que ganharam o hábito do copo extra, o oposto aconteceu para Claire e Stéphanie. A primeira deixou o álcool poucos meses antes de ficar trancada em casa, a segunda já estava mais habituada ao cenário que, para uns, pode parecer dantesco. “Foi muito difícil, penso que foi como um desafio, um desafio enorme”, lembra Claire que ficou doente com Covid-19 logo no início de março, quando poucas eram as informações sobre o coronavírus que destabilizou o mundo. “Houve muita ansiedade. Estávamos confinados em casa e não víamos o futuro e deixar de beber nessa fase foi hardcore”, comenta, num sentido mais generalizado. Ultrapassado o desafio criado pela crise sanitária, a autora chegou à conclusão de que no pior dos momentos o melhor é mesmo não beber e estar, ao invés, ciente do que se passa à nossa volta. “Queremos esconder-nos da realidade mesmo quando ela é má ou queremos confrontá-la? Não é fácil escolher um segundo caminho.”

As duas autoras deixaram radicalmente de beber álcool

Kondor83/iStockphoto

Mais difícil que não beber são as perguntas dos outros

A sobriedade tida como aborrecida mas também como o espelho que faz quem bebe questionar-se. Ambas as autoras sentiram-se assim nas saídas com amigos, como se estivessem perpetuamente a segurar uma superfície espelhada capaz de refletir os anseios e as dúvidas dos outros. Para Stéphanie, mais difícil do que parar de beber foi enfrentar as questões de terceiros. O consumo excessivo de álcool que esporadicamente marcou a sua vida — uma situação que a autora nunca encara como uma doença, ao contrário de Claire Touzard — foi suficiente para fazê-la escolher outro caminho. Não foi preciso passar por episódios dramáticos ou cruzar-se com histórias trágicas. Stéphanie era uma party animal como muitos outros que conhecia e conhece. “O principal objetivo para escrever o livro foi perceber que não é preciso ser-se um alcoólico para decidir parar de beber ou para começarmos a questionar a nossa relação com o álcool. O consumo de álcool é tão predominante que basicamente as pessoas esperam que tu bebas. Se não o fizeres é preciso encontrar algo racional para o explicar”, diz, afirmando que não beber é um tabu. “Tive amigas a dizerem me que tinha sido desconfortável lerem o meu livro, mas agradeceram-me por tê-lo feito. Se fosse outra pessoa a escrever o livro não sei se o leria: teria muito medo de me reconhecer nele”, admite.

Ainda hoje é difícil beber com os amigos, diz Claire. “Quando paramos de beber metemos um espelho no outro. As pessoas perguntam-se ‘Porque é que ela parou de beber?’ ou ‘É mau bebermos?’. Acho que deixamos as pessoas a pensar sobre o assunto e, às vezes, elas não gostam do que veem. É uma estranha função que não queremos acrescentar [ao livro], mas que acrescentamos.” A ideia não é, no entanto, passar a mensagem de que beber é mau ou julgar quem bebe. A “camisola” que Claire veste atualmente é outra: “Em França temos de ser mais inclusivos para com pessoas sóbrias. Pensamos que precisamos de álcool para nos divertirmos, mas é uma crença e temos de abandoná-la”.

Vidas sem álcool. O que mudou?

“Não sei. Mas, por exemplo, sou muito menos tímida desde que deixei de beber. O que é estranho porque achava que o álcool me ajudava a lidar com a minha ansiedade social. Mas é muito reconfortante sermos nós próprias, dá-nos confiança. Tudo o que pensava sobre estar sóbria era falso”, responde Claire Touzard.

Quando parou de beber Claire descobriu que “a sobriedade é a coisa mais subversiva”. Quando era nova, diz, pensava que ser “punk” era frequentar bares e discotecas e beber. Agora, traça o cenário de outra forma: “Estar escondida da realidade num bar não é subversivo”. No passado, julgou encontrar na bebida uma resposta que a ajudaria a confrontar a “injustiça”, mas também “o sexismo” e a “misoginia” que encontrou. “As mulheres pensam erradamente que beber significa entrar num território masculino e, nesse sentido, mostrar uma versão mais punk de si mesmas. Esta imagem de emancipação através do álcool para mim é má. Ao mesmo tempo estamos a autodestruir-nos. Não somos mais fortes com o álcool, é uma ideia falsa.”

Depois de não sabe bem quantos dias sem beber, Claire garante que está muito mais ciente — intelectualmente falando — e mais preparada para enfrentar a realidade. “Estar sóbrio não é uma coisa normal em França, mas a moderação pode ser um bom caminho. Estou a dizer que beber demasiado é mau e não nos empodera. É a minha perspetiva.” O mood, diz, é diferente. E não beber ajudou-a nas suas visões feministas e políticas. “Quero mudar coisas, estou mais proativa”. Confrontada com o exemplo do papel desempenhado pelo gin na distopia de George Orwell, “1984”, Stephanie também aborda o “efeito entorpecedor” do álcool, que permite deixar temporariamente os problemas para trás e empresta uma, por vezes, falsa sensação de liberdade — “É sobre as pessoas não questionarem o que fazem e para quem o fazem.” “Não penso que haja apenas uma explicação para o motivo de o álcool ser tão predominante nas nossas sociedades. Na história, o acesso ao álcool sempre esteve associado ao acesso ao poder.”

“Não sou alcoólico, sou um bon-vivant”

No livro Sans alcool, Claire faz um autoretrato — a silhueta é justa e a pele é “confiável” — para escrever que esta não é a imagem de uma pessoa com problemas com álcool. “Estávamos habituados à história dos homens de 50 ou 60 anos alcoólicos, destrutivos. Não percebemos que o álcool é perigoso nas nossas vidas porque pensamos que não somos alcoólicos. Porque ainda somos jovens, cool ou bonitos. Não é verdade. Não é porque se bebe melhores vinhos que não se é alcoólico. É como dizer: ‘Não sou alcoólico, sou um bon-vivant’”, atira. Claire define-se como tendo sido alcoólica noutra vida, pelo facto de antes não conseguir passar um único dia sem beber. “Todos os dias bebia sozinha. Nem sabia porque estava a beber, se era para ficar feliz ou porque estava triste. Mas a maior parte das vezes era como um remédio. Tornou-se demasiado importante.”

Stéphanie Braquehais, de Jour Zéro, não partilha a mesma opinião e diz até que foi difícil passar a sua mensagem de todas as vezes que foi entrevistada em conjunto com Claire. “Não me vejo como alcoólica, nunca me vi. Acho que há pessoas como nós que, às vezes, consomem em excesso. Não conheço [aliás] ninguém que beba álcool em moderação — a certa altura na nossa vida já todos bebemos demais, mesmo que tinha sido só uma bebida.” O discurso de Braquehais é outro, ela que prefere pôr o ónus no produto e não no consumidor. “Foi muito difícil para mim dizer que não é preciso ser-se doente [para deixar de consumir]. É a sociedade que está doente por continuar a beber e a achar que o álcool é normal. Beber álcool não é como comer pasta ou beber água. É uma droga em si, é um produto aditivo. Então, porque estamos sempre a questionar o consumidor e não o produto? Foi muito libertador para mim escrever este livro por sentir que não sou definitivamente a única [a pensar assim].”

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