Um dos contos que compõem a série “BooksofBlood”, do escritor inglês de terror Clive Barker, chama-se “TheForbidden”, passa-se em Liverpool e envolve uma lenda urbana desta cidade. Em 1992, o conto foi levado ao cinema por Bernard Rose com o título “Candyman” (“Assassino em Série”, em Portugal) e a ação transferida para Chicago. Virginia Madsen interpreta Helen Lyle, uma finalista de Antropologia que está a fazer uma tese sobre lendas urbanas e que depara, num bairro social daquela cidade, com a história do Candyman (Tony Todd), um fantasma assassino que atrai as crianças com doces e aparece rodeado de abelhas.

[Veja o “trailer” do filme original:]

Helen descobre que a lenda é verdadeira e que o Candyman é o espectro de um pintor negro, filho de um escravo, que foi brutalmente desfigurado e assassinado no século XIX, por se haver envolvido com a filha de um rico industrial e a ter engravidado. Esta entidade é invocada se se disser o nome dele cinco vezes frente a um espelho. Bastante atmosférico e moderadamente sanguinolento, tendo um monstro original e aterrador, e um comentário social nas entrelinhas, “Candyman” tornou-se num clássico do género e foi ganhando culto, tendo sido rodadas duas continuações, nenhuma delas nem por sombras à altura do original: “Assassino das Trevas” (1995) e “Candyman: O Dia dos Mortos” (1999), sempre com Tony Todd no papel principal.

[Veja o “trailer” do novo “Candyman”]

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Quase 30 anos depois do primeiro filme, surge “Candyman”, a continuação direta deste, realizado por Nia DaCosta, que em 2020 tinha feito uma curta-metragem animada sobre a origem da personagem, e com Jordan Peele como um dos argumentistas e também a produzir. A história ambienta-se nos nossos dias, quando Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II), um jovem pintor negro em ascensão que nasceu no bairro em que tudo aconteceu, e  que já foi quase todo demolido, toma conhecimento da lenda do Candyman e decide utilizá-lo como tema para uma série de novos trabalhos, acabando por o invocar.

Ou não tivesse nele a mão de Jordan Peele, este “Candyman” já não quer ser apenas um filme de terror, porque vem carregado com uma pesada mochila de “mensagem” anti-racistapronta-a-servir, transformando agora o Candyman (de novo personificado com arrepiante autoridade por Tony Todd) num vingador sobrenatural de todas as injustiças, arbitrariedades e violências perpetradas sobre os negros, sobretudo nas últimas décadas. Esta politização esquemática e sentenciosa está embrulhada num enredo desconexo, incoerente e confuso, e no qual, em vez de um Candyman, há vários outros mencionados de forma pouco clara, embora só apareça o interpretado por Todd.

[Veja uma entrevista com Nia DaCosta & Yahya Abdul-Mateen II]

Nia DaCosta não tem engenho para emular o ambiente de tensão latente e terror aflitivo do filme de Bernard Rose, que era ajudado pelos sombrios cenários de decadência urbana em que decorre, e as sequências mais gráficas são banais na sua explicitude “gore” (uma única boa ideia visual: o assassínio, por um Candyman invisível, da crítica de arte no seu apartamento de um edifício que parece uma colmeia de vidro iluminada, filmado do ponto de vista de um observador distante). Ao contrário do que diz o refrão da canção “The Candy Man” (1972) interpretada por Sammy Davis Jr. e que é ouvida no início do filme, “The Candy Man can (the Candy Man can)”, este novo “Candyman” claramente “can’t”.