Casa na Terra

Monsaraz

Capacidade: 6 pessoas

Estadia mínima: 3 noites no inverno e 7 no verão

A partir de 350€/noite

De uma certa perspetiva nem se vê, mas desde que o mundo a descobriu não pára de chamar a atenção. A Casa na Terra foi desenhada pelo arquiteto Manuel Aires Mateus para se fundir com a paisagem de Monsaraz – está semi-enterrada e coberta de vegetação, uma espécie de caverna futurista que acaba de ser escolhida como edifício do ano 2020 pelo site da especialidade ArchDaily.

Aires Mateus desenhou-a como casa particular, mas desde o final de maio é possível dormir no seu refúgio de betão através da Silent Living – a mesma empresa por trás da Casa no Tempo, das Casas na Areia e das Cabanas no Rio, igualmente disponíveis para reservar e todas com o dedo do arquiteto.

O namoro é longo mas aqui pode dizer-se que foi levado – ou descido – a outro nível. Construída junto ao lago Alqueva, a casa subterrânea aproveita uma inclinação do terreno de tal forma que o único elemento que tem à vista é um pátio com uma cúpula.

Através de uma escadaria desce-se para os três quartos, enterrados mas iluminados por pequenos pátios circulares pintados de branco – autênticos poços de luz quando vistos de cima. A cozinha e a sala dão para o único vértice desenterrado, onde a tal estrutura em abóbada se assume como o coração da casa e se abre para a água.

A natureza é quem mais manda, e até a decoração o sabe. No registo sóbrio do arquiteto, o ambiente é minimal, com uma grande mesa de jantar, contígua à ilha da cozinha, portas maciças de madeira e puxadores de armários que – mais um pormenor original – não são puxadores tradicionais mas sim cordões.

Lameirinhos

Barroca, Fundão

Capacidade: 12 pessoas

Estadia mínima: 2 noites

A partir de 39€/pessoa

Durante muitos anos foi uma casa atarefada, com padaria no piso térreo, vacaria e ainda uma garagem de onde partia o primeiro autocarro da região. “Foi muito produtiva e muito importante nos anos 40, no pós-guerra”, recorda o arquiteto José Adrião, que herdou a casa do avô – “um homem com uma visão fora do comum” –, juntamente com as irmãs Margarida e Teresa.

A padaria funcionou até aos anos 70, mas depois disso a casa foi-se degradando e há uns anos começou a ter “sérios problemas”. “Nessa altura percebemos que ou fazíamos obras de manutenção ou deixava-mo-la ir caindo. E tínhamos pena. Há imensas casas vazias no interior do país, não queríamos que esta fosse mais uma.”

Conhecido pelas obras de reabilitação, o próprio José Adrião assinou o projeto de arquitetura e em 2015 a casa de campo voltou a abrir portas, agora com o nome Lameirinhos e preparada para receber grupos de 2 a 12 pessoas, na Barroca do Zêzere, sede das aldeias do xisto e por onde passa a grande rota que vai desde a nascente até à foz do rio. As alterações estruturais trouxeram uma casa de banho em cada um dos seis quartos e também um tanque no jardim de pedra, abastecido pela nascente que há no terreno e por isso sempre com água a cair – é aliás daí que vem o nome Lameirinhos: “zona de lameiros, com água corrente”.

Junto à porta de entrada e na roupa da casa, a palavra aparece escrita à mão, em mais uma homenagem dos herdeiros: “Pedimos à nossa mãe para escrever Lameirinhos com a caligrafia dela”, conta José Adrião. A tarefa acabou por se revelar demasiado complicada devido às sequelas de um AVC, mas os filhos não desistiram: “Fomos às cartas de amor que ela tinha escrito ao nosso pai, que eram muitas, e retirámos cada letra.”

A maioria do mobiliário já lá estava ou foi sendo recolhido em lojas vintage, à exceção das camas – “rangiam por todo o lado, eram muito pequenas e foram substituídas por sommiers” – e dos armários minimais que fazem as vezes de roupeiro, desenhados pelo arquiteto. “Tentámos manter o espírito da casa mas dotá-la de conforto”, resume Margarida. No inverno, a salamandra está sempre ligada e há famílias que reservam a casa para passarem o Natal juntas.

O pequeno-almoço é deixado todas as manhãs na sala de jantar pela caseira Helena, que faz as compotas com as frutas do quintal e prepara os arranjos de flores espalhados um pouco por todo o lado, assim como a água aromatizada com alecrim deixada nas mesas de cabeceira. Os candeeiros, cabides e cadeiras são todos diferentes, e no piso de baixo, transformado em sala de leitura e de jogos, veem-se ainda os fornos da antiga padaria. Há até mesmo um bloco, emoldurado, onde se lê: “pães de 2ª, carcassas, pães de 1ª, pães de quartos e papossecos”.

Herdade da Malhadinha Nova

Albernoa, Beja

Capacidade: de 4 a 14 pessoas

Estadia mínima: 2 noites

A partir de 600€/noite

No momento do check in pode ser disponibilizada uma bicicleta todo o terreno, um buggy ou uma moto 4, e só isso já diz alguma coisa sobre a Malhadinha Nova. Com espaço a perder de vista, a herdade espalha-se ao longo de 450 hectares em Beja, produz 350 mil garrafas de vinho por ano, tem vinhas, olival, vacas, cavalos, produção biológica, adega, restaurante (onde o chef consultor é o estrela Michelin Joachim Koerper) e desde este ano cinco novas casas a juntar ao hotel de charme. Por isso, sim, o melhor mesmo é aceitar o transporte.

O projeto cresceu mas continua familiar e nas mãos dos Soares, algarvios que descobriram no Alentejo “a paixão de uma vida”. Todas diferentes, as novas casas nasceram de ruínas existentes e inspiraram-se em diferentes aspetos da propriedade, com a decoração a integrar marcas e designers contemporâneos – Vitra, Flos, Ferm Living, Philippe Starck, Vincent Sheppard, Eames, e por aí fora – num ambiente rural e alentejano.

Onde isto é mais evidente é na Casa do Ancoradouro (nas imagens), joia da coroa com 880 metros quadrados, sete suítes, piano e piscina, em que o pavimento foi feito à mão por um mestre de Beringel, na mesma terracota encontrada na paisagem circundante, e onde um candeeiro desenhado por Marcel Wanders para a Moooi convive com móveis vindos de uma mercearia.

Na Casa da Ribeira a terracota dá lugar ao azul e à madeira, ou não fosse inspirada na ribeira vizinha, enquanto na Casa das Artes e Ofícios – a mais pequena, e ainda assim com 180 metros quadrados –, o verde da argila e das oliveiras pintou até as paredes. Todas as casas são reservadas em exclusividade, têm piscina privativa e cozinha equipada – tão equipada que cada uma dispõe de um serviço Vista Alegre diferente.

Com tanto espaço, e no segmento de luxo, o novo conceito Malhadinha Collection traz também novas experiências, a pensar na distância social tão recomendada pela DGS. Em vez da tradicional refeição no restaurante, é possível reservar um piquenique nas vinhas – com direito a mosquiteiro e toalha branca na mesa –, ter o chef a cozinhar na villa, o buffet de pequeno-almoço montado em casa ou ainda uma cesta com ingredientes biológicos e a receita passo a passo para confecionar em família.

Monte da Casa do João

Grândola

Capacidade: 12 pessoas

Estadia mínima: 2 noites

A partir de 450€/noite

Carla e André realizaram o sonho de muita gente: recuperar um monte alentejano em ruínas. A ideia surgiu depois do primeiro filho nascer – queriam um espaço para ele correr ao ar livre e sujar-se na terra, e o apartamento em Lisboa já não chegava.

Na recuperação o traço tradicional foi mantido, agora com direito a janelões abertos para o exterior, e a casa foi toda isolada a nível térmico, com um reforço na fachada sul, onde foi revestida a cortiça – de tal forma que nem precisa de ar condicionado. Só a zona da sala e da cozinha, em open space, tem cerca de 100 metros quadrados, porque outra coisa que o casal queria era “ter um sítio para reunir os amigos, fazer churrascadas e apelar ao convívio”.

Desde o final de 2019 começaram também a receber hóspedes e a partilhar a horta, o forno a lenha – onde acontecem, pontualmente, workshops de pão alentejano – e os sete hectares contíguos à casa, onde fizeram questão de manter as árvores centenárias e onde moram agora também ovelhas, galinhas e uma burra. Entre o furo de água e os painéis solares, é tudo autosuficiente.

O monte é generoso e inclui quatro quartos, qualquer um com possibilidade de colocar cama extra e um com entrada independente e mezzanine, a que chamaram loft. Da propriedade fazem ainda parte uma piscina, um celeiro que este ano será estreado com o primeiro casamento e um parque infantil com direito a escorrega, baloiços, cordas e uma casinha de madeira. Todas as manhãs, o pequeno-almoço é entregue à porta, acabado de preparar pelos caseiros.

Este artigo foi originalmente publicado na revista Observador Lifestyle Nº 8, publicada em julho de 2020

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