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Um ano depois da polémica Festa do Avante! realizada em tempos de pandemia, Jerónimo de Sousa abriu a 45ª edição ao ataque. Numa mensagem que voltou a ser transmitida pelos altifalantes da Quinta da Atalaia — já no ano passado tinha acontecido, para evitar ajuntamentos no recinto –, o secretário-geral do PCP assegurou que houve uma “ofensiva premeditada” contra o partido, mas foi mais longe nas críticas aos “confinamentos excessivos”, que “quase conseguiram transformar o medo de morrer em medo de viver”.

Antes da pandemia, o costume era que Jerónimo aparecesse logo no primeiro dia da festa, o maior evento do calendário anual do PCP, para saudar os visitantes e deixar uma mensagem de abertura — a política pura e dura fica para o comício final, no domingo. Mas desta vez, tal como no ano passado, a presença física foi substituída por uma mensagem gravada e as saudações por críticas duras — neste caso, “lições e ensinamentos” que o PCP retirou da organização da festa em pandemia. 

A primeira: a “ofensiva premeditada” de que o PCP diz ter sido alvo “nada tinha a ver com preocupações com a saúde pública” e visava, sim, “pôr em causa direitos políticos constitucionais” — uma série de ataques, disse Jerónimo, que começou com as comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maio do ano passado, criando “um clima de temor que atingiu centenas de milhar de portugueses”.

Resultado? “Quase conseguiram que o medo de morrer se transformasse em medo de viver, com os confinamentos excessivos com consequências na saúde de muitos portugueses”, assegurou. Além da saúde, a pandemia terá sido ainda, na visão dos comunistas, uma “oportunidade” para “provocar mais desemprego” e atacar “salários” e o SNS.

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Segunda lição, no manual de Jerónimo: “Nada substitui o valor do trabalho e dos trabalhadores e da sua luta, que não há força que substitua a luta, a ação e a proposta do PCP” — nem há alternativa ao SNS, avisou. O foco nos profissionais de saúde e na valorização das suas carreiras deverá ser uma primeira mensagem a ter em atenção para o desenho das negociações do próximo Orçamento do Estado.

Apesar de os comunistas já terem vindo avisar que só querem discutir ao pormenor com o Governo depois das eleições autárquicas — evitando que os dois dossiês se confundam, para se concentrarem na difícil batalha autárquica marcada para 26 de setembro –, se a tradição se mantiver, será a partir do palco da Atalaia, no domingo, que Jerónimo deverá traçar publicamente um primeiro caderno de encargos. No ano passado, era de lá que o líder do PCP avisava que ninguém se deveria “apressar a sentenciar” que o PCP “não conta” — e meses depois, o partido viabilizava o Orçamento de António Costa, já com o Bloco de Esquerda fora de jogo.

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A outra pasta política que Jerónimo poderá levar ao palco será a das autárquicas: nesta mensagem inicial mais breve, o secretário-geral deixou uma primeira palavra aos candidatos, garantindo que a CDU (coligação de PCP e PEV) se distinguirá pelo seu “projeto de trabalho, honestidade e competência”.

Ficou aberta a 45º edição da Festa do Avante!, com a Internacional a rematar a intervenção — ao mesmo tempo, eram içadas pelo recinto da Quinta da Atalaia cem bandeiras do PCP, a marcar o centenário do partido, que se celebra este ano. Depois, como sempre, com ou sem pandemia, ouviu-se a Carvalhesa.

“O lugar mais seguro para se estar neste país”

Enquanto Jerónimo discursava contra a tal “ofensiva” através dos altifalantes, nos corredores os visitantes acenavam em concordância. E esses corredores estavam compostos, a contrastar com a edição de há um ano, quando o discurso do líder ecoou num recinto silencioso e, em comparação com as edições anteriores, aparentemente vazio.

As referências à tal “campanha do medo” foram uma constante nas conversas que o Observador foi mantendo com os visitantes da Festa, depois de passar pelos espaços onde, à entrada, se montava a operação de testes rápidos à Covid-19. De um lado, três tendas onde a equipa da Cruz Vermelha fazia testes de antigénio, a um preço de cinco euros por teste, e onde pouco depois das 16h já se ia formando uma fila considerável. Do outro, um espaço para quem quisesse levar um autoteste e fazê-lo ali.

Na fila, António e Joana, ambos na casa dos 30 anos, esperavam para serem testados — uma regra prevista pelo PCP e confirmada depois no plano de contingência aprovado pela Direção-Geral da Saúde, para quem não tiver certificado de vacinação. Questionados pelo Observador sobre se a obrigação de fazer teste traz uma segurança maior, apressaram-se a defender a edição do ano passado: “Já no ano passado nos sentíamos seguros! Seria o lugar mais seguro para se estar neste país”, assegurava António.

Mas a tal “segurança” não se devia apenas às medidas sanitárias adotadas pelo PCP: no ano passado havia visivelmente menos gente, confirmava, “por causa da campanha do medo da comunicação social”. Chamada por uma das enfermeiras da Cruz Vermelha, a dupla seguiu. Mais à frente, aproveitando uma sombra para se protegerem do sol quente do meio da tarde, as amigas Maria Alves — uma militante fiel, visitante do Avante desde a primeira edição — e Maria Páscoa — que gosta de vir “comer e beber” e, este ano, trazia o neto de 15 anos para o iniciar nestas andanças — faziam a mesma avaliação. Conclusão: a tal “campanha” põe as pessoas “mais medrosas”.

De teste feito e com resultado recebido por e-mail, cerca de trinta minutos depois, os grupos seguiam diretos para o recinto onde o PCP manteve, este ano, os circuitos desenhados a branco no chão, a obrigação do uso de máscara em espaços fechados e os lugares sentados — embora desta vez estejam distribuídos dois a dois, para que quem se quiser sentar possa trazer companhia. Se no ano passado muitos desses lugares ficaram vazios, neste dia de abertura já se pôde constatar que a afluência é maior e o espírito animou.

Diretamente de Viana do Castelo, Vítor Brito, que não é militante mas trazia consigo uma guitarra portuguesa e vontade de cantar, certificava-se disso mesmo: neste primeiro dia, andava pelo recinto a compor quadras, improvisando referências inusitadas à Festa (“E agora estou a chegar/ Aqui à Atalaia/ Eu vou entrar de calças/ E sair de saia”), provocando gargalhadas ao resto do grupo de onze pessoas que com ele desceram de autocarro, vindas do Minho, de propósito para chegar ao Seixal.

Ao lado, a tia, Teresa Alves, uma militante indefectível desde os tempos em que a Festa se fazia na FIL, assegurava: “Mas mesmo no ano passado foi linda, a festa. Como diz o senhor presidente da República, é uma festa que não se pode perder!”.

Mas, para a comunicação social, guardava a mesma farpa: “Com a nossa imprensa, ninguém sabe da Festa”. Então e a “campanha”? “No ano passado sim, só diziam mal”. Este ano, os militantes e simpatizantes quiseram vir dar força ao Avante — e a tal “ofensiva” denunciada por Jerónimo terá servido, como no ano passado, para unir o partido.