Em 2017/18, o Sporting ficou no Grupo D da Liga dos Campeões e teve de enfrentar Barcelona, Juventus e Olympiacos. Perdeu duas vezes com os espanhóis, empatou e perdeu com os italianos mas venceu duas vezes os gregos e isso chegou para garantir o terceiro lugar e cair para a Liga Europa. Aí, os leões eliminaram o Astana e o Viktoria Plzen e só caíram nos quartos de final, com o Atl. Madrid — numa derrota que deu origem a uma autêntica bola de neve institucional e desportiva que culminou na avalanche que foi a invasão de Alcochete em maio de 2018.

Ora, o que o Sporting não sabia, durante aquele Grupo D da Liga dos Campeões de 2017/18, era que essa seria a última vez que estaria nessa condição até 2021. De lá para cá, os leões não conseguiram voltar à liga milionária e nem sequer foram além dos 16 avos de final da Liga Europa. De lá para cá, os leões quase deixaram de ter uma presença europeia relevante. E de lá para cá, os leões sofreram financeiramente, institucionalmente e desportivamente com essa ausência prolongada da principal competição continental de clubes.

Ficha de jogo

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Sporting-Ajax, 1-5

Fase de grupos da Liga dos Campeões

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: José María Sánchez (Espanha)

Sporting: Adán, Luís Neto, Gonçalo Inácio (Ricardo Esgaio, 21′), Feddal, Pedro Porro, João Palhinha, Matheus Nunes, Rúben Vinagre (Matheus Reis, 45′), Jovane (Sarabia, 45′), Paulinho (Daniel Bragança, 77′), Nuno Santos (Tiago Tomás, 60′)

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Suplentes não utilizados: André Paulo, João Virgínia, João Goulart, Gonçalo Esteves, Manuel Ugarte, Geny Catamo, Bruno Tabata

Treinador: Rúben Amorim

Ajax: Pasveer, Mazraoui (Rensch, 70′), Timber, Lisandro Martínez, Blind (Schuurs, 81′), Edson Álvarez, Gravenberch, Antony (David Neres, 70′), Berghuis (Kenneth Taylor, 78′), Tadic, Haller

Suplentes não utilizados: Gorter, Setford, Tagliafico, Daramy, Danilo

Treinador: Erik ten Hag

Golos: Haller (2′, 9′, 51′ e 63′), Paulinho (33′), Berghuis (39′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a João Palhinha (41′), a Timber (45+1′), a Edson Álvarez (49′), a Tiago Tomás (84′), a Feddal (84′), a Lisandro Martínez (86′)

Tudo isso, pelo menos de forma mais oficial, terminava esta quarta-feira. Quatro anos depois, o Sporting voltava à Liga dos Campeões e assinalava esse regresso com uma receção ao histórico Ajax num Grupo C que também integra o Borussia Dortmund e o Besiktas. E Rúben Amorim, depois de ter sido o homem do título, não sentia uma pressão adicional por ser o homem da Champions. “Vai ser importante para ver em que ponto estamos. É sempre o primeiro jogo. Junta-se aqui tudo. Um jogo em casa, muitos jogadores vão fazer o primeiro jogo na Champions. Alguns mais experientes também. Mais importante do que o resultado, o desfecho do jogo e a influência no grupo, é ver como está a equipa. Quero que a equipa se divirta”, explicou o técnico leonino, que também fazia o primeiro jogo na competição na condição de treinador.

Ora, ainda assim, o Sporting não podia contar com Sebastián Coates, o capitão que viu cartão vermelho no jogo da segunda mão do playoff de acesso à Liga Europa que os leões perderam na época passada e estava por isso castigado. Pedro Gonçalves permanecia lesionado e também não era opção — ao contrário de Gonçalo Inácio e Tiago Tomás, ambos convocados. O jovem central era titular no trio defensivo, assim como Luís Neto, sendo que Pedro Porro mantinha o lugar no corredor direito e em detrimento de Ricardo Esgaio. No ataque e sem Pedro Gonçalves, Nuno Santos e Jovane continuavam a ser as escolhas primordiais para o apoio a Paulinho e Sarabia era suplente, ainda sem fazer a estreia como titular. Do outro lado, os grandes destaques estavam no setor ofensivo com o trio formado por Antony, Tadic e Haller e a grande ausência era o experiente guarda-redes Stekelenburg, que está lesionado.

Os primeiros nove minutos da partida quase não têm história mas têm dois golos. O Ajax entrou de forma absolutamente demolidora na partida e ao final dos 10 minutos iniciais já tinha dois golos de vantagem, aproveitando uma entrada muito macia por parte do Sporting e um total descontrolo posicional, emocional e racional da equipa de Rúben Amorim. Haller abriu o marcador numa recarga fácil depois de um remate de Antony que esbarrou no poste (2′) e voltou a marcar pouco depois num desvio simples e oportuno na sequência de mais um desequilíbrio de Antony na direita (9′).

Os leões só conseguiram soltar-se do colete de forças imposto pelo Ajax à chegada ao quarto de hora, com Paulinho a rematar cruzado ao lado depois de uma arrancada muito forte de Matheus Nunes (13′) e logo no lance seguinte na sequência de um pontapé de canto (14′). Notoriamente frágil e desconfortável na partida, o Sporting não conseguia sair a construir coletivamente, tinha muitas dificuldades na hora de defender a velocidade adversária e sofria com a clara falta de ligação entre os setores. Rúben Vinagre era o expoente de tudo isso: o ala esquerdo dos leões ficou fragilizado por ter errado no primeiro golo, foi totalmente batido no segundo e nunca esteve bem, nem em tarefas defensivas nem ofensivas, demonstrando muitas dificuldades na hora de parar Antony.

À passagem dos 20 minutos, o Sporting sofreu uma nova contrariedade com a lesão de Gonçalo Inácio, que ficou magoado num tornozelo depois de um duelo com Haller e teve de ser substituído por Ricardo Esgaio, passando Luís Neto para a posição de central do meio. Gravenberch ficou perto de aumentar a vantagem, com um remate rasteiro que Adán segurou (21′), Palhinha falhou um cabeceamento quando estava totalmente sozinho ao segundo poste depois de um livre de Nuno Santos (23′) e o jogo entrou numa fase um pouco mais incaracterística. O Ajax tirou ligeiramente o pé do acelerador mas o Sporting só conseguia avançar por intermédio de Matheus Nunes, que estava a ser claramente o melhor elemento dos leões e tentava fazer sozinho o que a equipa não conseguia em conjunto, arrancando pela faixa central para depois procurar os movimentos de Nuno Santos.

A equipa de Rúben Amorim acabou por conseguir chegar ao golo em mais um dos lances em que Matheus Nunes desbloqueou. Tombado na esquerda, o jovem médio fez um passe vertical para a grande área e acompanhou o movimento de Paulinho, que aguentou a pressão do defesa adversária e rematou fraco e rasteiro para a baliza; Pasveer, o guarda-redes do Ajax, ficou mal na fotografia e permitiu que a bola lhe passasse debaixo do corpo (33′), com o avançado português a estrear-se a marcar na Liga dos Campeões. O Sporting ainda tentou capitalizar a redução da desvantagem, empurrado pelo entusiasmo dos adeptos em Alvalade, mas acabou por sofrer o terceiro golo ainda antes do intervalo: com mais um lance a nascer no corredor direito do ataque dos neerlandeses, Antony voltou a desequilibrar e serviu Gravenberch, com Berghuis a aparecer de trás para entrar com facilidade na área leonina e finalizar na cara de Adán (39′). Feddal ainda esteve perto de marcar nos descontos, com um cabeceamento por cima, mas o resultado não voltou a alterar-se na primeira parte (45+3′).

Na ida para o intervalo, com o Sporting a perder e com a noção clara de que era preciso fazer muito mais para evitar a derrota em Alvalade no regresso à Liga dos Campeões, Rúben Amorim deixou desde logo a indicação de que Sarabia teria de ficar a fazer exercícios de aquecimento durante o intervalo para entrar logo no recomeço. O plano concretizou-se, com a saída de Jovane, e alargou-se com a troca de Rúben Vinagre por Matheus Reis no corredor esquerdo.

O Sporting quase entrou muito bem na segunda parte — e quase porque, se é verdade que a exibição da equipa de Rúben Amorim não foi boa, também é verdade que o grupo não teve uma noite bafejada pela sorte. Paulinho reduziu a desvantagem logo nos primeiros minutos do segundo tempo, com um grande cabeceamento depois de um passe de Feddal na esquerda (47′), mas o lance acabou por ser anulado devido a um fora de jogo milimétrico do avançado português. Logo depois, quase sem tempo para fazer o luto pela desilusão, Haller carimbou o hat-trick depois de mais uma assistência de Antony na direita e engordou os números em Alvalade (51′).

Pedro Porro teve dois remates perigosos, um ao poste (53′) e outro para defesa do guarda-redes (62′), Nuno Santos saiu pelo meio para deixar entrar Tiago Tomás mas a verdade é que o Ajax não precisava de acelerar muito para ferir o Sporting. Com mais um desequilíbrio na direita, Haller voltou a receber na cara de Adán na grande área e atirou para o póquer, levando o resultado da partida para um patamar muito complexo (63′).

A partir daí, já pouco aconteceu. Erik ten Hag ainda tirou Berghuis para colocar Kenneth Taylor, Rúben Amorim também trocou Paulinho por Daniel Bragança para proporcionar a estreia do jovem médio na Liga dos Campeões mas nenhumas das equipas voltou a ficar perto de marcar. O Sporting foi goleado pelo Ajax em Alvalade, numa derrota que será difícil de engolir e que poderá ter repercussões nas competições internas, e terá de se reerguer para ainda conseguir lutar por alguma coisa no Grupo C. Os leões acabaram por confirmar os augúrios mais negativos que recordavam que esta equipa ainda não tinha sido testada ao mais alto nível e não conseguiram elevar-se num dia em que só Matheus Nunes pareceu querer levar a equipa para a frente e Sarabia pouco ou nada soube fazer depois de entrar. Para a história, fica o facto de Rúben Amorim nunca ter sofrido tantos golos desde que é treinador do Sporting.