Os jogos entre Liverpool e AC Milan têm uma particularidade: a equipa que venceu levantou sempre o troféu da Liga dos Campeões. Não se trata de nenhum detalhe estatístico rebuscado ou de coincidências do futebol. É muito simples de explicar até, visto que os únicos dois jogos entre os clubes foram precisamente finais da Liga dos Campeões, neste caso em 2005 e 2007.

Da primeira vez, ocorreu o “milagre de Istambul” e uma das noites mais épicas para a equipa e para os adeptos da equipa da cidade dos Beatles. Nesse dia, o histórico Paolo Maldini (agora dirigente do clube) colocou os rossoneri a vencer logo no primeiro minuto, com o eficaz Hernan Crespo (agora treinador do São Paulo) a fazer dois golos ainda na primeira parte. Ao intervalo, a equipa de Benítez parecia completamente derrotada e os adeptos milaneses pensavam ter a sétima Champions no bolso. O arranque da segunda parte, no entanto, foi uma “aparição” que viraria o tal milagre, Gerrard, Smicer e Xabi Alonso marcaram três golos em seis minutos e aguentariam o encontro até às grandes penalidade, que venceram.

A vingança do AC Milan viria logo dois anos depois, com os mesmos treinadores no banco: Rafa Benítez no Liverpool e Ancelotti na equipa italiana. O matador Pippo Inzaghi fez golos aos 45′ e 82′, com Kuyt a reduzir já em cima do minuto final, num remate certeiro que já não valeu de muito e não ameaçou uma final muito mais tranquilo para a equipa de Milão, que ganhou assim a sétima Champions, sendo atualmente a segunda equipa com mais Ligas dos Campeões, atrás do Real Madrid. Esta quarta-feira, em Anfield, disputava-se a primeira jornada do grupo onde está o FC Porto, mas também a primeira parte de um desempate muito esperado pelos adeptos do futebol e num jogo, apesar do que tem sido o AC Milan nos últimos anos, que era de cartaz.

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E o que tem sido o AC Milan? Bem, para começar, nos últimos oito anos não pisou nenhum relvado para a Liga dos Campeões, com este regresso a ser muito esperado, muito comentado, mas também sem muitas expetativas, dado que a equipa de Stefano Pioli já não tem plantel como aqueles que sempre teve e dos quais os adeptos de “despediram” há uns anos. Há o experiente Zlatan, claro, que faz 40 anos em outubro, mas esta quarta-feira não era opção devido a um problema no tendão de Aquiles, sendo assim esperado que o português Rafael Leão pudesse ser uma das hipóteses iniciais (e foi). “Zlatan estaria no campo desde o primeiro minuto, mas uma inflamação do tendão pode acontecer após quatro meses de paragem [lesão no joelho]. Esperávamos que a inflamação o deixasse jogador, ele tentou mas tinha dores. Não vale a pena tomar riscos, temos muitos jogos pela frente”, disse Pioli.

Também Klopp falou do avançado sueco, dizendo que é um dos “melhores jogadores” que já viu jogar. “É um homem excecional e ainda tem gasolina no tanque. É capaz de jogar em qualquer campeonato e isso é excecional”, disse o treinador alemão do Liverpool. Além da questão Zlatan, outra situação que marca a atualidade do AC Milan e como têm corrido a última década, é precisamente há dez anos que a equipa não ganha o campeonato. Assim, o Liverpool, que só tem menos uma Champions do que os milaneses, era claramente favorito, mas tinha de o demonstrar frente a um clube grande que está a tentar voltar à ribalta, o que poderia tornar o jogo perigoso.

O Liverpool começou melhor o jogo e foi sem muitas surpresas que uma incursão de Alexander-Arnold por volta dos 10′ tenha resultado no 1-0 dos reds. Aos 15′, Salah teve a hipótese de colocar a equipa inglesa com uma vantagem mais confortável mas permitiu que Maignan, guarda-redes do AC Milan, defendesse a grande penalidade e ainda, na recarga, negou o golo a Diogo Jota com uma grande defesa. A equipa italiana, a pouco e pouco, foi crescendo no jogo e marcou dois golos em dois minutos, em jogadas bem trabalhadas. Aos 42′ foi Rebic e aos 44′ foi Brahim Diaz. Se após o penálti falhado o público cantou o nome de Salah e a seguir ao 1-1 também apoiou muito a sua equipa, foram os adeptos que vieram de Milão a festejar (até lágrimas houve) depois de consumada a surpresa. Ou a meia surpresa, porque AC Milan é sempre AC Milan.

No final da primeira parte e início da segunda o público de Anfield estava menos entusiasmado, mas a equipa não estava para ser os seus adeptos assim e logo aos 49′, Salah combinou com Origi e finalizou com muita classe para o 2-2. Passados 20 minutos, um grande golo do capitão Henderson estabeleceu o 3-2, que chegaria até ao fim do encontro. Houve mais chances, claro, mas além da vitória do Liverpool o que fica na retina, principalmente da primeira parte, é que este AC Milan, do qual o nome maior é Zlatan, que não esteve, pode dar problemas a qualquer equipa da Europa, incluindo o FC Porto.

A boa notícia? Ainda haverá um AC Milan-Liverpool…