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Ao longo de quase uma semana, o nome de José Mourinho andou associado a histórias do passado: o início no Benfica, a passagem pela União de Leiria, as duas épocas de sonho no FC Porto, as diferentes emoções vividas na Premier League entre Chelsea, Manchester United e Tottenham, o segundo título europeu no Inter, a marca que deixou no clássico espanhol pelo Real Madrid. Afinal, não é todos os dias que um técnico chega ao jogo 1.000 da carreira, algo que pouco mais de 30 treinadores mundiais alcançaram. Aí, no presente, o outrora Special One mostrou que quer ter futuro e acabou a festejar como no passado.

Golos de dois ex-Benfica, um enorme Rui Patrício e o tiro fabuloso nos descontos que fez correr Mourinho no jogo 1.000 da carreira na Roma

Num encontro eletrizante frente a um Sassuolo que é uma das melhores equipas italianas a jogar e no plano individual do meio-campo para a frente, com oportunidades perdidas e bolas nos postes das duas balizas, a Roma conseguiu chegar à vitória no segundo minuto de descontos com um fantástico golo de El Shaarawy e Mourinho voltou a repetir aquela mítica corrida pela linha lateral até à festa dos jogadores. Estava escrito o melhor final possível num dia histórico que, ao contrário do que dissera, mexeu com o técnico.

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“Menti durante toda a semana, disse a todos que este não era um jogo especial e tentei até convencer-me a mim mesmo mas, na realidade, este foi um jogo especial, algo que vou guardar para sempre na minha vida. Estava apavorado pela possibilidade de associar esta memória a uma derrota. Foi um jogo que podia ter terminado em 7-7, eles podiam ter ganho por 2-1 mas ganhámos nós. A minha corrida no momento do golo do El Shaarawy foi a corrida de uma criança que sonha fazer uma carreira”, assumiu no final da partida, antes de mais um momento de humor no seu Instagram dizendo que não tinha lesões musculares depois da corrida que fez na noite deste domingo. Dois dias depois, houve direito a “festa”.

Segundo o Corriere dello Sport, o treinador fez questão de oferecer um jantar a todos os jogadores, técnicos e demais elementos da formação romana no restaurante La Leve, na praça Pio XI. Tendo sido o primeiro a chegar, Mourinho tirou ainda algumas fotografias com adeptos que se encontravam à porta do espaço, o que levou a um reforço de segurança, antes da refeição e de um discurso de dez minutos que, de acordo com a publicação, deixou os presentes “rendidos”. “O caminho ainda é longo, não ganhámos nada mas temos que continuar assim”, destacou num momento que mereceu aplausos de pé dos jogadores.

Desde a apoteótica chegada à capital, Mourinho tem conseguido aumentar a sua relevância no clube, com a forma como a equipa chegou à vitória diante do Sassuolo a merecer muitos elogios na ótica de um espírito de grupo que tem vindo a ser consolidado. “A capacidade de toda a equipa se sintonizar com o ambiente de Mourinho, de imediato, foi aquilo que mais me surpreendeu. Ele põe-se na frente de todos, atua como um pára-raios, uma habilidade que numa cidade como Roma pode ser decisiva. É um treinador flexível e que ganhou muito. Sem dúvida é uma grande personagem e um grande motivador para a equipa. Sempre foi e continua a ser uma mais-valia, tanto no campo como na gestão do grupo”, considerou uma das maiores figuras de sempre do clube, Francesco Totti, numa entrevista à Gazzetta dello Sport.

Seguia-se neste clima de autêntica lua de mel a estreia na Conference League, nova competição da UEFA onde, nesta fase, Roma e Tottenham surgem como os nomes mais fortes à conquista do troféu. E, a abrir, uma receção a um CSKA Sófia comandado por outra figura conhecida do futebol português, o ex-avançado de Belenenses, V. Setúbal, Estoril e Olhanense, Stoycho Mladenov. “Todos os jogos são importantes, o próximo jogo é sempre o mais importante. Não pensamos no Verona, todos pensamos no CSKA. Se fizermos alguma alteração, e vamos fazê-las, é importante que todos percebam que o objetivo é ganhar o jogo. Queremos terminar no primeiro lugar do grupo”, destacara na antevisão da partida.

A ideia estava lá, a sua concretização nem por isso (pelo menos nos minutos iniciais). É certo que a Roma começou com apenas quatro titulares em relação ao último jogo com Sassuolo (Rui Patrício, Karsdordp, Mancini e Pellegrini) mas não foi por aí que, ainda antes dos dez minutos (9′), permitiu que os búlgaros fizessem a festa no Olímpico com um golo de Carey, num grande remate ao ângulo na área após uma saída em transição que apanhou a formação italiana desprevenida. Foi quase como dar uma de “borla” antes de uma avalanche com várias oportunidades, sobretudo por Shomurodov, até ao 1-1 por Pellegrini, um golo fantástico do capitão que recebeu a bola à entrada da área e colocou em jeito ao ângulo (25′). E não ficaria por aí porque, antes do intervalo, El Shaarawy voltou a marcar num remate forte e colocado (37′).

Bastaram 45 minutos para se perceber uma grande diferença entre o Tottenham do ano passado e esta Roma mesmo estando em campo uma equipa de segunda linha: a atitude, a intensidade e a competitividade da equipa, sem olhar à menor qualidade do adversário e apontando sempre à baliza adversária. Não foi isso que aconteceu no arranque do segundo tempo, com os búlgaros a tentarem algumas aproximações que podiam ter sido perigosas, mas a partir do momento em que os romanos estabilizaram imperou a lei do mais forte e com Pellegrini, capitão que parece outro esta época, a bisar (62′). A Roma chegava à sexta vitória noutros tantos jogos e a fatura do jantar de equipa acabou mesmo por tocar ao CSKA, que sofreu ainda mais dois golos por Mancini, depois de uma recarga a remate de Smalling ao poste (82′), e Tammy Abraham, a receber bem e a ficar isolado na área para tocar com classe sobre Busatto (84′).