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Ronald Koeman, treinador do Barcelona, não é por estes dias muito popular na Catalunha. Nem pelas palavras e, sobretudo, por aquilo que os adeptos mais querem: resultados. O Barcelona perdeu 3-0 com o Bayern Munique para a Champions, empatou a uma bola com o Granada, em Camp Nou, com um golo nos instantes finais já numa fase do clássico sobem os centrais e vai chuveirinho, e esta quarta-feira esperava-se a conferência de imprensa de antevisão do treinador do próximo adversário do Benfica na Liga dos Campeões ao encontro com o Cádiz. O técnico holandês compareceu, mas não houve perguntas, apenas um comunicado.

“Este Barça não é o Barça de há oito anos”. Koeman e os 54 cruzamentos que mostram a ruína de um clube e o fim da linha de um treinador

“Bom dia. O clube comigo está numa fase de reconstrução e a situação financeira está ligada à situação desportiva. Isso significa que temos de reconstruir a equipa sem poder fazer grandes investimentos económicos. Isso precisa de tempo. Os jovens talentos podem chegar as estrelas mundiais num par de anos e o bom de reconstruir uma equipa é que os jogadores jovens terão oportunidades como tiveram Xavi e Iniesta, mas é preciso paciência”, começou por dizer Ronald Koeman. Curiosamente, o espanhol e antiga glória do clube Xavi, atualmente a treinar o Al-Sadd no Qatar, até tem visto o seu nome associado a uma possível sucessão…

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O técnico holandês, cujo golo deu em 1992, frente à Sampdoria, a primeira Liga dos Campeões do Barcelona, continuou: “Terminar o Campeonato em lugares altos seria um sucesso e na Liga dos Campeões não se podem esperar milagres. A derrota contra o Bayern deve ser vista por essa perspetiva. O processo em que nos encontramos merece ser amparado com palavras e atos, apoiando as políticas e o processo que estamos a fazer.

Bayern escreveu mais um capítulo na história que começou em Lisboa do “Era uma vez um Barcelona…”

Koeman acabou a destacar que “a imprensa reconhece este processo” e que “não é a primeira vez que isto acontece”. “Contamos com o vosso apoio neste tempo difícil. O plantel está muito feliz com o apoio dos adeptos como o que tivemos contra o Granda. Visca el Barça”, finalizou e abandonou a conferência de imprensa, sem quaisquer perguntas dos jornalistas.

Não são apenas crises de resultados que afetam a situação, já muito delicada, de Koeman,  com a imprensa a apontar praticamente todos os dias novos candidatos ao seu lugar, sendo que esta quarta-feira o “eleito” do Sport, tal como tinha sido anunciado pela imprensa madrilena, é Roberto Martínez, atual selecionador belga. Ademais, já aconteceram algumas trocas de palavras entre Koeman e o presidente Laporta de forma pública na imprensa, apesar de depois ambos terem vindo colocar água na fervura e dizer que estava, de certa forma, tudo bem. Isto não impediu que várias pessoas próximas de Laporta viessem criticar o treinador do Barcelona, que disse recentemente numa entrevista, sem problemas: “o clube tem futuro comigo”.

Habemus decisão em Barcelona: Setién demitido, Koeman para sucessor e eleições em março (sobre Messi, nada)

Na passada segunda-feira, um golo do português Domingos Duarte e uma boa exibição do compatriota Luís Maximiano, contratado pelo Granada ao Sporting, fizeram com que o Barcelona perdesse dois pontos em casa, num jogo que ficou marcado pelos inúmeros cruzamentos feitos pela equipa (54). Na conferência de imprensa após o encontro, Koeman não teve problemas em dar a entender o que parece agora relativamente certo: os resquícios das equipas e ideias de Guardiola desapareceram finalmente.

“Não tínhamos jogadores para o tiki-taka. Temos de jogar com o nosso estilo mas se o jogo pede uma mudança, temos de a fazer. Se temos de cruzar de fora, então… Acho que fizemos um bom jogo. Não existiam espaços para jogar curto nem rasteiro, eles defenderam com muita gente atrás. Só havia espaço nas alas para cruzar. Não é o jogo que queremos mas faltam-nos jogadores para o um contra um e para a profundidade. Coutinho e Demir são jogadores que vão por dentro, Ansu Fati e Dembélé é que procuram esse um contra um mas não estão e temos de encontrar outras formas de atacar, como jogar mais por fora e cruzar. O Barcelona de hoje em dia não é o Barcelona de há oito anos. As pessoas podem estar descontentes com o resultado mas não com a atitude que a equipa demonstrou”, disse após a partida.

Uma versão “custo zero”, sem Messi, com treinador e presidente a trocarem “indiretas”. É este Barça que vai vingar o 8-2?

Com ou sem cruzamentos, com ou sem perguntas dos jornalistas, a maneira como Ronald Koeman abordou a conferência de imprensa desta quarta-feira, correta, incorreta ou indiferente, é apenas mais um sinal dos tempos na vida blaugrana.