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Quando Wayne Rooney regressou a Inglaterra, em agosto de 2019 e para jogar no Derby County, existia a ideia clara de que o clube poderia mesmo ser a última paragem da carreira do avançado. Rooney assumiu imediatamente a braçadeira de capitão, estreou-se com uma assistência e marcou seis golos em 24 jogos, contribuindo para a manutenção no Championship. Tudo parecia estar encaminhado para uma despedida discreta, num clube do meio da tabela do segundo escalão inglês e sem grandes solavancos — mas uma única demissão abriu uma Caixa de Pandora.

O Derby County abriu a temporada 2020/21 com três derrotas consecutivas e Phillip Cocu, o treinador, acabou por não resistir. Em novembro, Rooney juntou-se a Liam Rosenior, Shay Given e Justin Walker e integrou uma equipa de quatro técnicos interinos que tinha como objetivo gerir a equipa até que fosse encontrada uma solução definitiva. O avançado continuou a jogar, recuperando o papel de treinador-jogador, e só deixou os relvados em janeiro, quando foi convidado pela cúpula do Derby para assumir sozinho o comando técnico do plantel. O resto da época foi vivida sem a certeza de uma permanência no Championship que só foi assegurada na última jornada, graças a um empate contra o Sheffield Wednesday.

Wayne Rooney, o melhor marcador da história da seleção inglesa, termina a carreira e assume o comando técnico do Derby County

Até que chegamos aos últimos dias. Com profundos problemas financeiros, que já existiam e que foram engrossados pela pandemia e pela dificuldade em encontrar interessados na aquisição, a direção do Derby County decidiu declarar insolvência e entregar o clube a uma administração externa até que eventuais negociações com futuros donos cheguem a bom porto. A confusão institucional e financeira, contudo, já teve consequências desportivas quase imediatas: apesar de ter 10 pontos em oito jornadas, o Derby sofreu uma penalização de 12 pontos por ter entrado em administração e tem agora dois pontos negativos, estando obviamente no último lugar do Championship.

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A par de tudo isto, os problemas no Derby County também são internos. Tanto Wayne Rooney, o treinador, como todo o plantel, só souberam que o clube tinha acabado de entrar em insolvência através da comunicação social. “Vi na televisão. Não falei com o dono, o Mel Morris. De certeza que tem outras coisas em que pensar. Os jogadores não tinham qualquer informação e também viram na televisão. Já falei com os jogadores e temos de ser profissionais. Sabemos que estamos numa posição difícil e que temos a perda de pontos mas temos de fazer o nosso trabalho. O Derby é um clube gigante e que tenho de pôr os jogadores a jogar e tornar o clube atrativo para potenciais investidores. O meu trabalho é trazer a dignidade de volta ao clube”, começou por dizer o antigo avançado inglês.

Derby County v Bristol City - Sky Bet Championship - Pride Park

Mel Morris, o empresário que é dono do Derby County, não informou a equipa técnica nem os jogadores de que o clube ia entrar em insolvência antes de o anunciar publicamente

Entretanto, com o passar dos dias, nada mudou. Mel Morris, o ainda dono do Derby County, continuou sem comunicar com Rooney, apesar de ter falado com os jogadores e outros funcionários do clube, algo que deixou o treinador “magoado”. “Não falo com o Mel desde o dia 9 de agosto. O Mel falou com os jogadores e a restante equipa técnica, enquanto grupo e é óbvio que eu estava nessa reunião, mas ainda não teve uma conversa comigo. Nenhuma chamada, nenhuma mensagem. Na minha opinião, nem aquela reunião foi sincera. Não teve coração suficiente e não foi feita com honestidade suficiente. Ele já seguiu em frente, obviamente, e nós temos de seguir em frente também, pôr o Mel Morris na parte de trás das nossas cabeças e olhar para o futuro”, explicou o técnico, revelando depois que só conseguiu falar com o empresário através de uma artimanha.

“Liguei-lhe do telemóvel do médico do clube. Ele atendeu, o que significa que pode atender chamadas do médico mas não do treinador. Não foi a situação ideal”, contou Rooney, que durante esta temporada já teve de pagar equipamento para filmar os treinos com o próprio dinheiro. Entretanto, os administradores interinos do Derby County já indicaram que o clube tem dívidas de dezenas de milhões de libras mas que será encontrado um novo proprietário, até porque já surgiram seis interessados — ou seja, a liquidação do Derby, como aconteceu com o Bury em agosto de 2019, não está em cima da mesa.

Depois de 134 anos de história, o Bury foi expulso do futebol profissional inglês (e o Bolton tem 14 dias para evitar o mesmo destino)

“Isso nem sequer é considerado, de todo. O clube está ok para os próximos sete a 10 dias mas precisamos de que apareça um investimento no início de outubro”, explicou Andrew Hosking, um dos três administradores, que acrescentou que o Derby County tem 95% de chances de sobreviver. O clube está em conversações com a cúpula do Championship para tentar chegar a acordo quanto às violações das regras de lucro e sustentabilidade e teve de voltar a submeter os balanços orçamentais de 2015/16, 2016/17 e 2017/18. Caso as negociações não cheguem a bom porto, o Derby pode perder mais nove pontos, num total de 21: algo que deixava Rooney com a tarefa praticamente impossível de evitar a descida para a League One, o terceiro escalão inglês.

Ainda assim e apesar de tudo isto, algo é certo — Wayne Rooney não vai abandonar o barco. “Eu vou lutar pelo clube, não vou deixar a equipa técnica ao abandono. Eles precisam de alguém para os liderar”, garantiu o antigo internacional inglês.