Título: Sidi
Autor: Arturo Pérez-Reverte
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Asa
Páginas: 352
Preço: 19,90€

A história de Rodrigo Diáz de Vivar – El Cid – já tem tudo para dar matéria literária e a persona já existe em jeito de personagem de romances de aventura. El Cid foi um guerreiro castelhano que viveu no século XI. A Hispânia dividia-se entre reinos de cristãos e mouros e El Cid, liderando um exército, conquistou os reinos de Lérida, Tortosa, Dénia, Albarracín e Alpuente.

A Arturo Pérez-Reverte só podem tecer-se elogios. Neste romance, deixou o cavalo em paz, agarrou o cavaleiro pelos cornos e deu-nos uma história viva, cheia de sangue que pulsa e dias que urgem, tornando-se exímio nas descrições do frémito de quem vê a morte como possibilidade a cada dia. O autor, que é um dos mais conceituados de Espanha, foi repórter de guerra antes de se dedicar à escrita a tempo inteiro. Não surpreende, por isso, que tenha pegado nos temas patentes em Sidi: o cansaço dos guerreiros, o perigo da terra, a desumanização do outro, o carácter mítico do guerreiro mais forte.

A figura de El Cid não é pacífica nem consensual, como não pode ser a de um guerreiro. É sempre difícil entender, num cenário de guerra, onde acaba a força e começa a carnificina ou até que ponto a violência é necessária. Visto como estratega por uns, El Cid é visto como carniceiro por outros. Por um prisma ou por outro, a verdade é que a sua vida é ainda hoje encarada como lenda, e o seu nome traz ao imaginário histórias de aventuras e movimento. Assim, a figura que Pérez-Reverte nos traz já tem necessariamente o seu quê de efabulação. Aliás, é esse o seu papel enquanto romancista – partir de alguns elementos-chave e interpretar ou cogitar uma hipótese para o resto.

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Além da mestria com que entrelaçou factos com a sua vertente criativa, o autor ainda mostrou, neste romance, o esplendor da sua elegância narrativa. Maneja a língua como o melhor guerreiro maneja a sua espada. Desta forma, não apenas seduz o leitor como o agarra, viciando-o numa história que, apetrechada de pormenores que lhe conferem realidade e vivacidade, nunca se denuncia nem revela o seu caminho. Ao assumir este modelo quase quixotesco, dá um passo adiante na criação literária, finalizando uma obra que prima pela solidez, sempre em torno de um herói que “fazia o cálculo na sua cabeça de jornadas, caminhos e ocorrências possíveis e prováveis. O xadrez que era preciso jogar num tabuleiro de terrenos ermos, água escassa e colinas rochosas, calor diurno e fio de noite” (p. 17).

Pelo meio, as descrições são direitas ao osso, quase imagéticas, perturbantes quando têm de o ser:

“Ruy Diáz assentia sem dizer nada, olhando para os corpos pregados nas estacas. De longe, pareciam bonecos cheios de palha como os que se vendiam para as crianças no mercado. De perto, eram dois idosos grisalhos e magros, e um deles tinha as tripas de fora. Antes de os porem ali, tinham-lhes cortado as orelhas e o nariz: os golpes e as vísceras estavam negros de moscas.” (p. 25)

O autor não tem medo das palavras, mas não dá voltas escusadas. O resultado é uma prosa funcional em que cada frase é uma tacada. O leitor tem a sensação de estar perante um fresco e o horror de uma batalha é mostrado sem ter de ser explicado. O grande trunfo de Sidi será esse.