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André Ventura pôs Moura, no distrito de Beja, no mapa autárquico quando decidiu candidatar-se à Assembleia Municipal deste concelho. Falhou o objetivo da eleição ao ficar em terceiro lugar, atrás de PS e PCP, mas conseguiu roubar a maioria absoluta no executivo ao Partido Socialista e quase fez desaparecer do mapa o PSD e o CDS que concorreram coligados, mas tiveram menos votos do que quando concorreram separados há quatro anos. Só a CDU ganha votos.

Vamos aos números. Contados os votos em Moura, Álvaro Azedo continua a ser o presidente, mas tem menos um vereador (passa de quatro para três) e perde 439 votos. A coligação que junta PSD, CDS e Aliança continua sem conseguir eleger vereadores na câmara de Moura e só consegue convencer 262 eleitores, menos 354 do que há quatro anos. Terá sido a estas duas forças políticas que o Chega – um estreante nestas eleições – conseguiu roubar os votos que permitiram a eleição de Cidália Figueira para a vereação do município.

Na Assembleia Municipal, André Ventura não vai além de um terceiro lugar, ainda assim consegue roubar eleitos a todas as forças políticas e leva o PSD a perder os dois representantes que tinha. Atrás do líder do Chega entram mais cinco elementos da lista (25,31%). O Partido Socialista fica à frente (34,97% – 8 mandatos) mas consegue menos dois mandatos em comparação com as últimas eleições. A CDU também perde dois eleitos, ficando com sete mandatos (33,28%).

Apesar de ter ficado aquém das expectativas de André Ventura, o resultado eleitoral deste domingo coloca a vereadora do Chega como pivô em várias das decisões futuras no executivo camarário. Com três vereadores cada, CDU e PS ou se entendem entre si, ou têm que ir procurar acordos com Cidália Figueira para fazerem passar as suas propostas.

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Tanto comunistas como socialistas fizeram campanha a afastar o Chega de possíveis entendimentos, numa altura em que já se previa que o partido pudesse ter uma votação expressiva em Moura. Depois de contados os votos, Álvaro Azedo, do PS, e André Linhas Roxas, da CDU, mantêm o cordão sanitário. O autarca eleito garante que tudo o que disse continua válido porque não quer “desvirtuar os valores do PS”. Já o comunista é mais prudente, mas garante que não vai “fazer política de terra queimada” nem se vai aproximar “destes ou daqueles” apenas para garantir uma votação favorável.

Do lado do Chega está tudo dependente do líder nacional. Aos jornalistas, Cidália Figueira não se compromete com entendimentos pós-eleitorais até conseguir falar com André Ventura, mas a fazer fé na relação que tem com o presidente eleito, não vai ser fácil chegar a acordos: “Não vou dar-lhe os parabéns porque não gosto dele”, revela.

A candidata que consegue o lugar de vereadora mostra-se “desiludida” porque, desabafa, “estava à espera que o povo quisesse mesmo uma mudança”. Apesar de tudo garante que fica “feliz” pelo resultado obtido na estreia do Chega em eleições autárquicas. A noite que diz ser de felicidade e de desilusão é também de confusão. A nova vereadora diz que não consegue compreender como é que o Chega consegue ter uma votação expressiva nas eleições presidenciais, mas não consegue transferir esses resultados para as eleições locais: “Não sei como é que as pessoas mudam de opinião tão depressa”, lamenta.

Na memória dos apoiantes do Chega está a vitória de André Ventura em duas das localidades deste município nas eleições de janeiro: Sobral da Adiça e Póvoa de São Miguel. Na primeira não conseguiu formar uma lista para se candidatar à Assembleia de Freguesia, na segunda alcançou o segundo lugar, ficando atrás do PS, mas à frente da CDU. O partido tinha ainda uma lista a votos na União de Freguesias de Safara e Santo Aleixo da Restauração que ficou em último lugar.

“André Ventura já foi de trivela”

A comunidade cigana esteve no centro de campanha, com a candidatura do Chega a fazer acusações de subsidiodependência e associação à criminalidade. Cidália Figueira chegou mesmo a acusar os adversários de “fazerem reuniões” com elementos desta comunidade para conseguirem recuperar votos. As acusações foram repetidas no final da noite eleitoral, com a candidata a deixar no ar a possibilidade de a derrota do Chega estar associada a esta questão.

Do lado do PS, Álvaro Azedo reafirmou os “valores humanistas” pelos quais diz reger-se e depois de se confirmar que tinha ganho a câmara, foram mesmo os elementos da comunidade cigana que mais o aplaudiram à porta da sede de campanha localizada mesmo em frente à Câmara Municipal. “Os ciganos são do PS” e “Ventura já foste de trivela” foram algumas das frases mais repetidas, ao mesmo tempo que se batiam palmas e se faziam sentir buzinas ruidosas.

A contagem dos votos que deu a vitória ao Partido Socialista foi mais longa do que habitualmente, dizem ao Observador apoiantes das várias candidaturas. O vencedor corrobora, garantindo que já sabia que esta ia ser uma das eleições mais “duras e difíceis”. Apesar da perda da maioria absoluta, os socialistas nãos dispensaram a habitual caravana de carros que percorreu a vilar com buzinadelas constantes.