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O motivo pelo qual Portugal ainda não atingiu 85% de cobertura vacinal contra a Covid-19 parece claro para toda a gente: a culpa é daqueles que já receberam a primeira dose da vacina e que não compareceram em nenhum centro para finalizarem o esquema vacinal. Mas as previsões da task force e de alguns especialistas entrevistados pelo Observador para o dia em que essa meta vai ser atingida diverge: uns não esperam novidades até à próxima semana, outros apontam que ela pode ser alcançada entre esta terça-feira e próxima sexta, ainda a tempo de fazê-la coincidir com o alívio agendado para dia 1 de outubro.

O panorama que tem encontrado nos últimos tempos, com um arrastamento na conclusão da vacinação completa em cerca de 90 mil pessoas, leva a task force a crer que os 85% de vacinados não serão atingidos a tempo do primeiro dia de outubro e que a meta terá de ser adiada para o início da próxima semana. É também essa a previsão do matemático Óscar Felgueiras, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que não está surpreendido com esta demora: “Portugal já vacinou a maior parte das pessoas que pode ser vacinada, mas a fase final pode não ser tão fácil por haver mais resistência em chegar aos últimos casos do processo”.

Mas Carlos Antunes, engenheiro da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, acredita que ainda será possível chegar à meta dos 85% de vacinados até à próxima sexta-feira, possivelmente até entre as próximas quarta-feira e quinta. Olhando para os gráficos, o perito confirma uma estagnação na curva que representa as tomas da segunda dose, em comparação com o ritmo com que a primeira foi administrada. Nos cálculos do engenheiro, atualmente Portugal demora três dias a aumentar em um ponto percentual a cobertura vacinal contra a Covid-19. A 7 de julho, só precisava de 24 horas.

Um dos motivos pode ser o adiamento da segunda dose à conta do período das férias. Quando o processo de vacinação entrou na fase mais avançada, a task force permitiu que qualquer pessoa pudesse ser vacinada (com a primeira ou com a segunda dose) em qualquer centro de vacinação do país. O objetivo era acelerar o esforço e colmatar as falhas de quem não iria comparecer para a inoculação por se encontrar em período de férias.

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Mesmo assim, houve quem preferisse esperar pelo regresso a casa para completar o esquema vacinal; e houve quem, pelo meio, nunca mais o tenha feito. É a estes últimos que a task force, no seu último dia de atividade, apela à comparência num centro de vacinação. Qualquer um e a qualquer hora, uma vez que, perante o decréscimo no ritmo necessário de vacinação (e ainda sem a vacinação da gripe a acontecer em paralelo nos centros), a modalidade Casa Aberta está disponível em todo o horário de funcionamento dos centros.

Atualmente, a task force calcula que 84,03% da população está completamente vacinada contra a Covid-19. As contas de Carlos Antunes apontam para uma percentagem mais alta, localizada agora em 84,4%, e a plataforma Our World in Data publica números ainda mais elevados: os dados da última segunda-feira já indicavam que Portugal tinha uma cobertura vacinal de 84,93%, muitíssimo perto da meta a que as autoridades de saúde se propuseram cumprir antes de permitir uma abertura total do país.

Estas diferenças estão relacionadas com a forma como cada entidade faz as contas: a fonte indicada pela plataforma Our World in Data é a Direção-Geral da Saúde, mas com um tratamentos de dados obtidos através da contribuição de 11 pessoas, todos eles cientistas de dados, que formam a comunidade “Data Science for Social Good”. Neste caso, e segundo o último relatório de vacinação, calcula-se a percentagem de vacinados com base população residente censitária de 2021 — o mesmo número tomado em conta por Carlos Antunes, mas que usa uma metodologia diferente. A task force, por outro lado, e de acordo com as declarações de Henrique Gouveia e Melo esta manhã, utiliza como base a população residente estimada em 2020. E outras organizações, como o Worldometers, fazem as estimativas de acordo com a população portuguesa em 2019.

Recorde-se, no entanto, que Portugal vacinou pessoas que não constam como população residente nos dados oficiais, mas também trabalhadores sazonais, imigrantes com situações irregulares no país e emigrantes que, embora tenham nacionalidade portuguesa, não estão registados como residentes em Portugal. Esta diferença entre o universo de pessoas considerado e o número de cidadãos efetivamente vacinados desvirtua a leitura dos dados. Mas uma coisa é certa para todos: é uma questão de (pouco) tempo até Portugal atingir a meta dos 85% de vacinados.