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A escritora irlandesa Sally Rooney recusou que o seu novo livro, Mundo Belo, Onde Estás?, seja publicado em hebraico pela editora que publicou as suas duas obras anteriores. Para justificar a sua decisão, a autora de Pessoas Normais invocou o Movimento de Boicote de Israel (BDS, na sigla em inglês) e relatórios de organizações de defesa dos direitos humanos que denuciam um “apartheid” imposto por Israel à Palestina.

Num comunicado citado pelo The Guardian, Sally Rooney disse estar “muito orgulhosa” pelos seus dois romances anteriores Pessoas Normais e Conversas entre Amigos — ambos publicados em português, respetivamente pela Relógio D’Água e pela Editorial Presença — terem sido publicados pela editora israelita Modan. No entanto, a escritora diz que não pode “aceitar um novo contrato com uma empresa israelita que não se distancia publicamente do apartheid nem apoia os direitos do povo palestiniano estabelecidos pelas Nações Unidas”.

Sally Rooney cita um relatório da Human Rights Watch para afirmar que o “sistema de dominação e segregação racial de Israel contra os palestinianos vai ao encontro da definição de apartheid segundo o direito internacional”. A escritora, contudo, não descarta a possibilidade de o seu novo livro ser publicado em hebraico.

Cópias de avanço do novo romance de Sally Rooney vendidas por várias dezenas de dólares no eBay

“Os direitos de tradução em hebraico para o meu novo romance ainda estão disponíveis, e se eu conseguir encontrar forma de vender esses direitos em conformidade com as diretrizes do movimento BDS, ficaria muito satisfeita e orgulhosa de o fazer”, acrescentou a escritora irlandesa de 30 anos, que em maio, durante a guerra entre Israel e o Hamas, na Faixa de Gaza, já tinha assinado uma carta aberta, juntamente com outros artistas, a exigir o “fim mediato e incondicional da violência israelita contra os palestinianos” e a apelar aos governos para cortarem relações com o Estado hebraico.

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Nos seus dois romances, de resto, há algumas referências ao conflito israelo-palestiniano. Em Pessoas Normais, um livro que acabaria também por dar origem a uma série televisiva com o mesmo nome, uma das personagens principais participa numa manifestação contra a guerra em Gaza em 2014.

A geração desajustada de Sally Rooney

A posição de Sally Rooney em relação à editora israelita Modan está a causar polémica e a gerar um intenso debate nas redes sociais, com a escritora a receber apoios, mas também muitas críticas.

O ministro da Diáspora israelita, Nachan Sai, escreveu no Twitter que o boicote a Israel é uma forma de “anti-semitismo” e um “certificado de má conduta”, enquanto o jornalista Anshel Pfeffer, do Haaretz, teceu duras críticas ao movimento BDS e falou num “episódio tonto”, referindo que o livro de Sally Rooney “não será publicado em hebraico porque não existe uma editora hebraica ‘compatível com o BDS’”. “Para isso, uma editora teria de concordar em não vender livros em Israel e aos israelitas, que representam a esmagadora maioria do mercado literário em hebraico”.

Já a Campanha Palestina pelo Boicote Académico e Cultural de Israel (PACBI, em inglês), uma organização de defesa dos direitos do povo palestiniano, congratulou-se com a decisão de Sally Rooney. “Os palestinianos recebem calorosamente a decisão da aclamada autora irlandesa Sally rooney de recusar um acordo com a Modan Publishing House, uma editora israelita cúmplice do regime de apartheid, ocupação e colonialismo de Israel que matou mais de 240 palestinianos só em maio deste ano”, afirmou a PACBI em comunicado.

O novo livro de Sally Rooney, Mundo Belo, Onde Estás?, será publicado este mês de outubro pela Relógio D’Água.

Tome nota: estes são os lançamentos de outubro