O escritor moçambicano Mia Couto defendeu esta quarta-feira que o líder dissidente da Renamo, Mariano Nhongo, morto pelas forças governamentais na segunda-feira, teve o fim que procurou, considerando que não se pode tolerar o recurso às armas para revindicações políticas.

Polícia moçambicana anuncia morte de Mariano Nhongo, líder de guerrilheiros dissidentes

“Está aberta em Moçambique uma democracia em que as pessoas podem participar de maneira cívica e sem usar a violência, portanto, eu acho que, infelizmente, Nhongo escolheu este fim”, declarou Mia Couto.

O escritor moçambicano falava em Maputo, à margem do lançamento da sua nova obra, “O caçador de elefantes invisíveis”, um livro cuja base é uma seleção de crónicas publicadas na revista portuguesa Visão.

Mia Couto lança esta quarta-feira em Maputo o novo livro “O caçador de elefantes invisíveis”

Para Mia Couto, o líder da autoproclamada Junta Militar da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), apontado como responsável por ataques armados no centro de Moçambique desde agosto de 2019, teve todas as possibilidades para negociar, mas preferiu optar por uma estratégia que pode ser descrita como “terrorismo”.

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“O que o grupo de Nhongo estava a fazer era terrorismo: matar civis em nome de uma ideia ou em nome da partilha de poder”, frisou.

O grupo de antigos guerrilheiros que era liderado por Nhongo tem contestado a liderança da Renamo e os termos do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) decorrentes do acordo de paz de agosto de 2019.

“Está claro para todos que foi dado a este senhor todas as possibilidades para ele negociar. Não se pode legitimar esta via de que alguém que esteja em discordância com o Governo fabrique uma pequena guerra e depois tente com isso obter vantagem política”, acrescentou o escritor.

O grupo liderado por Nhongo foi apontado pelas autoridades como responsável pela morte de mais de 30 pessoas em ataques armados nas principais estradas do centro de Moçambique e povoações.

Mia Couto entende que Nhongo usou a mesma estratégia adotada pela guerrilha da Renamo durante a guerra civil dos 16 anos em Moçambique: atacar civis, o que é inaceitável.

“É comum que nestas grandes guerras que se arrastam haja dissidências, mas não é comum que estas pessoas insistam nesta via do terror”, vincou.

Por outro lado, prosseguiu o escritor, o Governo deve manter as portas abertas e incentivar a inclusão social, tanto no centro de Moçambique como também no Norte, região que sofre desde 2017 com uma insurgência armada, que já provocou mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, segundo as autoridades moçambicanas.

“A questão de Cabo Delgado tem de ser resolvida em duas frentes: a frente militar, que se fizermos crença do que nos dizem está a correr bem, e a frente social, que implica inclusão daquela região“, declarou Mia Couto.

Prémio Camões em 2013, Mia Couto é autor, entre outros, de “Jesusalém”, “O último voo do flamingo”, “Vozes anoitecidas”, “Estórias abensonhadas”, “Terra sonâmbula”, “A varanda do Frangipani” e “A confissão da leoa”.

Traduzido em mais de 30 línguas, o escritor foi igualmente distinguido com o Prémio Vergílio Ferreira, em 1999, com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas, em 2007, e com o Prémio Eduardo Lourenço, em 2011, pelo conjunto da obra, entras outras distinções.

A sua nova obra, “O caçador de elefantes invisíveis”, foi lançada no espaço cultural da Fundação Leite Couto, criada em memória do pai de Mia Couto.

A obra será editada em Portugal pela Caminho e chega às livrarias no próximo dia 19.

Mia Couto nasceu na cidade Beira, província de Sofala, centro de Moçambique, em 1955, tendo sido jornalista e professor. Atualmente é biólogo e escritor.