A Assembleia da República aprovou esta sexta-feira um voto de pesar pelo falecimento do poeta Fernando Echevarría, que morreu no dia 5 de outubro aos 92 anos, considerando-o uma “figura ímpar da poesia portuguesa contemporânea”.

Aprovado por todos os partidos com assento parlamentar, com a exceção do CDS e do Chega, que se abstiveram, a Assembleia da República cumpriu um minuto de silêncio pelo falecimento do poeta.

Na nota aprovada, lê-se que Fernando Echevarría foi “antifascista desde muito”, tendo aderido ao Movimento de Ação Revolucionária (MAR), à Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN) antes de fundar, com outros militantes, a Liga de Unidade e Ação Revolucionária (LUAR).

Apesar disso, a Assembleia da República indica que foi “sobretudo na poesia” que Echevarría deixou a sua “marca, através de uma sólida e singular obra de forte dimensão filosófica, como o denunciam os seus estudos de filosofia e teologia em Espanha, no seminário de Astorga, que, nas suas próprias palavras, tinha como ‘destinatário direto o povo'”.

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“A Assembleia da República (…) expressa o seu pesar pelo falecimento de Fernando Echevarría, recordando a figura ímpar da poesia portuguesa contemporânea e endereçando à sua família e amigos as mais sentidas condolências”, aponta a nota.

Morreu o poeta Fernando Echevarría aos 92 anos

Nascido em Cabezón de la Sal, na província espanhola de Santander, na Cantábria, em 26 de fevereiro de 1929, Echevarría mudou-se para Portugal em 1953, depois de cursar Humanidades, Filosofia e Teologia, em Espanha.

A partir de 1961, por razões políticas, esteve exilado em Argel (Argélia) e Paris (França), onde fixou residência, em 1966.

O poeta regressou a Portugal na década de 1980, tendo-se instalado no Porto.

A sua primeira publicação, “Entre dois anjos”, data de 1956. Seguiram-se “Tréguas para o Amor”, em 1958, e “Sobre as horas”, em 1963.

Ao longo da carreira publicou mais de duas dezenas de livros, estando a sua obra poética reunida em “Obra Inacabada”, da Edições Afrontamento, a sua editora.

Echevarría colaborou com várias revistas nacionais e brasileiras, designadamente, Anto, Graal, Eros, Nova Renascença, Cavalo Azul, Colóquio/Letras, A Phala – Um Século de Poesia (1888-1988), Hífen e Limiar.

A sua poesia está traduzida em francês, castelhano, italiano, inglês, romeno e esloveno, estando representada em diversas antologias portuguesas e estrangeiras, entre entre as quais “Antologia—Prémio Almeida Garrett de 1954” (1957), “Alma Minha Gentil — Antologia de Amor Portuguesa” (1957) e “Nas Mãos de Deus — Antologia da Poesia Religiosa Portuguesa” (1978) – estas duas últimas organizadas por José Régio e Alberto Serpa.

No estrangeiro, Echevarría está representado na “Antologia de la Nueva Poesia Portuguesa”, de Angel Crespo (1962), “Antologia de la Poesia Portuguesa Contemporánea”, também de Crespo, (1981), e em “Poesia Portuguesa Contemporânea”, organizada por Carlos Nejar, publicada no Brasil, em 1982.

Fernando Echevarría recebeu vários prémios ao longo da vida, como o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1981, 1991 e 2009), o Grande Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português (1982 e 1999), o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava e o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa, entre outros.

Em 2007, o então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, condecorou-o com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Em 2019, foi distinguido com a Medalha de Mérito Cultural, do Governo português.

Na altura, Fernando Echevarría partilhou que só se sentia realmente bem quando a escrever, a ler filosofia ou a ouvir música.

“Aí eu sinto-me mesmo bem”, confessou, afirmando “estar feliz por ter 90 anos” e assumindo que teria ainda “muito que fazer” se conseguisse ter mais 90 anos pela frente.

O poeta partilhou que fazia o exercício de escrever poesia todos os dias e disse que para escrever “é preciso ter lido”.