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Começar a contar a história pelo fim é como começar a refeição pela sobremesa. Por isso, comecemos o terceiro dia de Portugal Fashion pelo momento que o encerrou: o desfile apoteótico da dupla Marques’Almeida. Foi um regresso às origens e um momento de introspeção para olhar para a criatividade efervescente dos jovens designers e artistas do Porto, que deram vida também a esta coleção apresentada em primeira mão na quinta-feira. No Antigo Matadouro Industrial do Porto, os confetes já estavam no chão à chegada, mas a festa ainda havia de se fazer com 71 coordenados e uma autêntica expressão de inclusividade que marca mais um passo de mudança na indústria.

Dez anos depois, “Portugal está diferente e o Porto também”, aponta Marta Marques à imprensa em conversa no fim do desfile. E a pandemia, invariavelmente, evidenciou ainda mais essa mudança. “Roots” é o nome de uma coleção que celebra esta última década de Marques’Almeida, mas que vem também olhar para dentro com uma visão de quem está fora e redescobre o que sempre foi seu. É o tal regresso às origens.

“A pandemia trouxe muita gente a casa e trouxe-nos a nós também, e foi um processo neste último ano e meio perceber o que é que significava para nós estar de volta às raízes”, explica Marta, metade da dupla que se radicou em Londres há uma década “Na verdade, para nós, foi preciso virar tudo para conhecer a geração nova que está a fazer o que nós estávamos a fazer há 10 anos antes de irmos embora. Perceber o que é que é importante para eles e aprender com eles.”

Isto porque “Roots” não é uma coleção assinada apenas por Marta Marques e Paulo Almeida, mas também por mais seis artistas e designers do Porto que os criadores convidaram a fazer parte do processo. “Nós voltámos para Portugal com outros olhos, com olhos de quem saiu e foi um bocado saudosista do que Portugal é, para conseguir ter a capacidade de ver estas pessoas e perceber o potencial delas”, refere Paulo. “Às vezes não é preciso terem plataformas para serem pessoas fabulosas. Até porque há pessoas com trabalho muito credível que se calhar no meio das spotlights e das confusões que acontecem na indústria da moda não são descobertas.”

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O espanto de Marta e Paulo perante a nova geração é tremendo e não o escondem, sobretudo Marta que vai deixando escapar umas palavras em inglês no seu discurso. “Foi a melhor coisa que nós fizemos”, diz Marta com entusiasmo sobre o facto de a dupla ter convidado seis jovens designers e artistas do Porto para participar na criação e confeção desta coleção. “Começou por ser um dos nossos compromissos isto de estarmos ligados à plataforma que nós temos, e de como a podemos usar para criar mudanças nesta indústria. E chamá-los acabou por ser, na verdade, um processo de aprendizagem.”

No fundo, Paulo e Marta quiseram dar palco a quem não o tem, a olhar para a comunidade que prospera mas que não tem espaço ou voz para se fazer ouvir, e admitem que foram eles quem mais ganhou com esta colaboração.

Foi Sofia, irmã de Marta, que também no seu regresso a Portugal procurou voltar-se para a sua comunidade e abriu algumas portas à dupla para descobrir alguns nomes com quem trabalharam. Os sacos em “patchwork” feitos à mão por Susana da Mana.Terra, as joias artesanais feitas a partir de material descontinuado são assinadas por Nani Campos, as correntes feitas de lixo são esculturas sonoras feitas por Rebeca, os tecidos artesanais e costurados são de Tilo, os modelos e peças quase galáticos são de Ariev e as peças de moda artística de Marcelo Almiscarado, ambos designers do Bloom.

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“Nós ganhámos muito mais com isto do que se calhar eles aprenderam connosco, porque aprender o que eles estão a fazer, a maneira como estão a pensar, e como estão a encarar as suas áreas de trabalho e as suas vidas foi mesmo muito enriquecedor”, conta Marta. “Acho que eles estão miles à frente, com todas as preocupações de sustentabilidade, que nós temos também e fazemos um esforço para as cumprir, mas para eles já é tudo natural, assim como as preocupações de inclusividade e representatividade, temos imenso a aprender com eles e ainda bem. Acho que só temos de fazer as perguntas e ouvir.”

E mais do que a roupa que ali se vê passar, estão as pessoas que a vestem e a tornam real e tangível a todos, independentemente do seu tamanho, capacidade, idade ou género. Entre alguns manequins, estava uma larga maioria de outras pessoas que, sem experiência mas com vontade de operar a mudança, participaram no open call dos Marques’Almeida. O casting teve uma adesão tal que a dupla acabou a ter que dizer que não a muita gente e, ainda assim, acabaram com mais de 70 pessoas em passerelle. “As pessoas estavam a chegar-se à frente  para uma indústria que não é kind com elas, por isso foi muito importante para nós tentarmos abrir mais espaço a isto”, realça Marta, sobre a importância de normalizar todo o tipo de pessoas, porque são elas que acabam por personificar as criações.

Há pequenos detalhes presentes em muitos dos coordenados, é o caso das correntes, das plumas agarradas a sapatos, malas ou a roupa, ou da malha em rede. Houve looks de ganga integral com aspeto desgastado, em coordenados mais urbanos, e outros mais formais com vestidos lápis em preto e verde tropa, mas nem isso tirou vida àquela meia horinha de pura ode à criatividade e à cor.

O tie dye foi uma constante ao longo de várias criações tendo passado por uma paleta de cores vasta, sendo que o tingimento é feito com recurso a resíduos naturais. Paulo aponta que a dupla criativa está constantemente a aprender e que, na sustentabilidade, “há uma série de processos de causa-efeito no fim da linha que, às vezes, não são as melhores escolhas”, e que é preciso perceber que a palavra sustentável tem de ser aplicada a um todo.

Os designers reforçam que na coleção não entram fibras à base de petróleo, a não ser que os artigos sejam reciclados, e que a partir de stock morto estão a levar a cabo a iniciativa reM’Ade que o transforma em novas peças.

Unflower: a dupla que deixou de ser bloomer

O calor abrasador — e de certa forma estranho — de outubro aqueceu a estreia de Unflower na passerelle principal, uma vez que a dupla Ana Sousa e Joana Braga tinham antes apresentado na plataforma Bloom. Mas era precisamente esse calor que se pretendia para um desfile com vista para o rio, já no exterior da Alfândega, onde a dupla apresentou “If We Take An Holiday”, um reflexo de um verão leve com linhos, malhas frescas, algodão orgânico e muita pele à vista.

As férias foram o ponto de partida das duas jovens designers que, enquanto criativas, dizem ir “precisando de um descanso” e que essa necessidade de colocar o tempo em pausa e serem transportadas para um qualquer destino paradisíaco é o suficiente para dar o mote para o verão 2022. Os coordenados iam desfilando em tons claros, com peças descontraídas e algumas desestruturadas, para deixar pele à vista com algumas formas cut out, ou não fosse esta uma coleção que pede temperaturas altas. “Isto não é tanto sobre as memórias das férias em criança. Mas é mais como referência visual, é mais aquela vontade de querer estar em pausa”, explica Ana.

E pelo meio de cores neutras surgiam padrões florais “que fazem lembrar as fotografias tiradas à beira das flores nos jardins dos hotéis”, explica a dupla, que também se inspirou nos pareos para estampar em vestidos e saias.

A passagem para a passerelle principal representa para Ana e Joana “um grande passo”, uma vez que dizem mostrar “crescimento” de estação para estação. Crescimento esse que se espelha num amadurecimento da própria marca, que a dupla agora quer expandir internacionalmente. “Percebemos que temos de começar a trabalhar lá fora, porque existe mercado para nós nesse sentido”, dizem.

Inês Torcato deixou cair as barreiras entre a arte e o público

Se na estação passada, por motivos pandémicos, a apresentação de Inês Torcato seguiu o formato digital — como todas da The Sofa Edition —, neste regresso ao presencial a designer decidiu não mandar os modelos para a passerelle para fazer, em vez disso, uma apresentação interativa. À entrada estava dado o aviso: “há sofás na sala mas não é para sentar, são para os modelos”. E, de facto, lá estava eles, vestidos com peças da nova coleção “Us” em poses para os fotógrafos que iam dando ordens a este e àquele para se posicionarem no melhor cenário da sala.

O público andava em redor dos manequins e o frenesim de câmaras era constante, mas toda a azáfama era propositada. “Para mim, a moda é a arte que junta todas as artes, foi por isso que eu vim para aqui fazer esta apresentação”, explica Inês, fazendo referência ao seu percurso por Comunicação Visual e Artes Plásticas nas Belas-Artes do Porto, antes de enveredar pelo Design de Moda. “Aqui tenho desenho, ilustração, pintura, fotografia, vídeo, junta também maquilhagem, imagem, música, todas as artes estão envolvidas.”

Na última coleção que apresentou digitalmente decidiu dar palco àqueles que estavam nos bastidores, a propósito da crise no setor cultural, e esta apresentação acaba por ser uma continuação desse trabalho de “colocar todos em pé de igualdade e dar destaque a pessoas que não se veem habitualmente”, conta. Além de envolver a equipa multimédia na apresentação, a designer quis também trazer a este palco o próprio público. Ao fundo da sala estavam dois charriots com vários casacos, de diferentes tamanhos e feitios, que podiam ser usados pelas pessoas, numa relação de interação com todo o cenário.

“Os charriots na sala estão relacionados com a base do meu trabalho, que é a defesa que eu faço de direitos humanos e mostrar que a roupa é para toda a gente. Queria que o público se sentisse integrado na própria apresentação”, explica ao Observador no fim da apresentação.

Inês Torcato também quer diminuir a distância entre o público e as suas criações — apesar de continuar a gostar do formato desfile, quis testar novos caminhos de relação com as pessoas e potenciais clientes. “O ideal é existirem as duas coisas, o presencial e o digital, para se poder sentir e ver as peças. É importante este contacto para que se percebam também as peças através do toque, ver tecidos e texturas. Num mundo ideal, devia ser tudo mais próximo que o distanciamento dos desfiles, daí ter criado esta apresentação. O público deixa de ser só espetador”, aponta.

Já é habitual nas suas coleções casar materiais mais “grosseiros” com outros mais leves e fluídos, e esta coleção não foi exceção — os veludos verde pinho e burgundy contrastavam com os cetins de seda muito finos e delicados. Em “Us”, pensado para este outono/inverno, predominam as calças à boca de sino e vários coordenados de alfaiataria com conjuntos de blazer e calças ou saia, com especial destaque para o conjunto branco em jacquard com padrão de cobra.

As conchas e sereias de Nuno Miguel Ramos e o romantismo idealista de Ernest W. Baker

As peças de Nuno Miguel Ramos, que apresenta apenas pela segunda vez no evento, mostram uma mulher com garra e sem grandes medos de arriscar na hora de vestir.  Nesta coleção o designer, mais do que valorizar a feminilidade, quis valorizar o corpo feminino e mostrar como este pode estar confortável mesmo quando está exposto. Aqui, Nuno foi beber inspiração do mar, com as conchas a serem a estrela de alguns coordenados que eram verdadeiras instalações vestíveis, todas apanhadas na ria da Murtosa onde ia passar férias em criança. Até mesmo as sereias serviram-lhe de base, aqui representadas pelas lantejoulas de algumas criações.

Apesar do trabalho de desconstrução cuidadoso em algumas peças, Nuno apresentou outras com maior fluidez e destreza. Esteve patente também um padrão de corações bordados em várias peças, até porque: “eu nunca meti tanto amor num projeto”, refere Nuno. Os tons claros foram constantes, mas pontuados por looks amarelos.

As centenas de rosas vermelhas dentro de vasos pretos num dos pátios da Alfândega servem de cenário para a apresentação digital da Ernest W. Baker, a marca de Reid Baker e Inês Amorim. A apresentação desta quinta-feira no Portugal Fashion acontece depois de uma passagem por Paris — pela terceira vez — na semana da moda masculina da capital francesa, tendo sido novamente o formato digital o método escolhido.

“Cuidamos muito do que criamos, porque leva muito tempo, e esta coleção foi desenvolvida já para ser digital e não estava preparada para ser mostrada fisicamente”, explica Reid ao Observador, ele que homenageia constantemente o seu avô homónimo nas criações que lançam. “Decidimos, no fundo, criar uma instalação para apresentarmos aqui. Cada vídeo que fazemos tem várias inspirações por trás e esta coleção era muito romântica, daí as flores também.”

Ernest W. Baker em Paris. São rosas e um novo olhar sobre o clássico americano

Nesta nova coleção, a dupla de criativos continua a evocar o imaginário americano, com apontamentos de sportswear e estampados, desta vez com o envolvimento do romantismo de Shakespeare e da fantasia dos filmes do japonês Satoshi Kon. Com a alfaiataria sempre presente, foi no sportswear americano, do qual o varsity jacket é aqui o expoente máximo, que acharam um novo ingrediente para adicionar ao guarda-roupa masculino. “Para nós a direção de arte tem sido muito importante na forma como queremos mostrar as nossas criações, não é só roupa, queremos desenvolver cenas, sets, iluminação, e isso fica limitado na passerelle”, refere ainda o criador.

De mãos dadas com África

Através de um protocolo fechado com a Afreximbank, que prevê que apresentem no Portugal Fashion nas próximas seis edições cerca de 40 designers africanos, o programa Creative Africa Nexus (CANEX) traz já esta edição oito criadores africanos para a passerelle principal. Nesta quinta-feira, foi a vez de Anyango Mpinga, que assina a marca homónima conhecida por explorar o uso de tecnologias emergentes para criar têxteis biodegradáveis. A designer natural de Nairobi fez desfilar a sua coleção repleta de vestidos bordados, justapostos e desconstruídos nas mangas e no busto, em branco e preto, que depois vinham a contrastar com cores fortes como o laranja e os dourados muito presentes nos estampados.

Portugal Fashion regressa com público e novidades. “Nas próximas seis edições iremos receber 40 designers africanos”

Os padrões representam animais  selvagens protegidos como o rinoceronte negro, a zebra do grevy, girafas e elefantes, e outro inspira-se na arquitetura suaíli encontrada na costa do Quénia. Em várias peças são visíveis os cristais reciclados e as contas de pérolas num padrão que se assemelha a patas de animais.

Também Odio Mimonet apresentou a sua nova coleção a meio do dia com um desile colorido com peças que oscilavam entre os volumes e drapeados com outras mais fluídas. Os tecidos fortes que compõem peças como kaftans, vestidos ou conjuntos com cortes mais formais mostram a casualidade com que a designer consegue conjugar a sua herança cultural com a moda. O bordado inglês esteve presente em algumas peças, outras tinham estampados padrões indígenas e o tule acabou por ser um elemento chave em alguns coordenados.