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Título: Silverview
Autor: John le Carré
Editora: D. Quixote
Tradução: Maria de Fátima Carmo
Páginas: 264

Silverview, é a obra póstuma de John le Carré. Sem surpresa, também este livro se volta para o mundo secreto, explorando um caso de espionagem. Aqui, Julian Lawndsley deixa um cargo de alto nível na City para se dedicar à gestão de uma livraria numa pequena vila inglesa. Logo de início, percebe-se que menosprezou a actividade e que nem soube dominá-la, já que nem ouviu falar de Chomsky.

Meses após se ter estabelecido, recebe a visita de Edward Avon, emigrante polaco ali residente, que parece saber muito sobre a família de Julian e afirma ter estudado com o seu pai, um velho vigário que, ao morrer, deixou de herança uma dívida à família. Edward quer imiscuir-se no negócio de Julian, propondo que se crie na cave da livraria uma “República da Literatura”, cheia dos tesouros textuais que o livreiro não conhece. O polaco é casado com Débora, que fora uma manda-chuva dos serviços de inteligência britânicos. Nesta altura, esta definha entre lençóis às portas da morte. A vida passada de Edward e a sua própria carreira secreta, assim como as circunstâncias difusas em que terminou, voltam à vida quando Stewart Proctor começa a investigar o seu passado na sequência da denúncia de uma fuga de informação. A partir daí, e como já se espera em le Carré, a vida pacata transforma-se noutra coisa e entra-se no mundo do autor inglês.

Deparamo-nos logo com as coincidências e as dúvidas e não se percebe à cabeça se Edward realmente conhecia o pai de Julian. E este pai deriva um pouco na narrativa, já que a sua vida, com solavancos na fé (começa cristão e renuncia à Igreja), parece não ter grande propósito ali. Ao mesmo tempo, intui-se que algo soa a estranho na relação amorosa que nasce entre Julian e Lily, a filha de Edward, assim que ela o conhece. Mesmo em relação a Julian, a forma como deixa um cargo muito bem pago e o troca pela pacatez também causa estranheza, tanto ao leitor como às outras personagens, embora o leitor se possa deixar levar pela candura de quem permite que tudo se perdoe num romance. Nada ali se torna muito convincente, há um limbo em que se fica a patinar. Será isso o suspense.

Pré-publicação. O primeiro capítulo do último livro de John Le Carré, “Silverview”

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Em Silverview, deparamo-nos com um encontro entre o imbróglio e a inocência, entre a moral privada e o serviço público. No mesmo sentido, o autor ainda pensa o indivíduo na sua relação com o país, e indaga-se se há alguma dívida do primeiro para com o segundo numa altura em que nada se reconhece das raízes.

A prosa é limpa, a narrativa é incisiva. Em le Carré, tudo vai direito ao osso. E se, no início, já cogitamos que alguma trama vem e questionamos logo as intenções de Edward, talvez mais por associação à tradição literária do autor do que por pistas dadas no texto, a posteriori ainda nos surpreendemos não tanto com a complexidade mas mais com o encadeamento dos dados apresentados. Ao longo da narrativa, le Carré mantém o suspense, garantindo que o leitor tem de suspender a crença do que lhe é dado.

A narrativa alterna entre a história de Julian e Proctor, que procura a origem da fuga de informação e que dá ao romance as linhas de maior fôlego narrativo ao perseguir as pistas. Quando entrevista um casal de reformados, temos não só um dos mais fundamentais pontos de tensão narrativa como ainda a grande capacidade de le Carré de manejar a história geopolítica — os conflitos, as acções concomitantes — do século XX como quem mexe com informação de somenos. Ao leitor, não é necessário um mestrado em História.

A densidade que o autor dá flui sem que pareça ensinar e o seu tom de comédia dá leveza a um cenário que, mal traçado, teria tudo para ser pesado, pouco natural e nada literário. Ao longo da narrativa, que é difícil de parafrasear, o autor mete-se com mestria nos anos da Guerra Fria, ao mesmo tempo que de repente nos vemos entre a Polónia comunista e a dissolução da Jugoslávia. Em linha de fundo, está sempre a política externa de Inglaterra. Com isto, é ainda de notar que as primeiras páginas do livro funcionam como preâmbulo, mas não parecem fazer parte dele. Será uma forma de chegar ao que existe a seguir, mas em termos de significado acabam por não trazer muito.

No romance, o leitor tem acesso a uma visão panorâmica e pode olhar com ironia, até paternalismo, para a confusão das personagens. Assim, le Carré revela-se como o maior dos espiões, dando e ocultando, manipulando como quer ao mesmo tempo que ziguezagueia entre teorias da conspiração.

A autora não escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfio